História em 4 blocos, tendo
José Renato e Mathieu como protagonistas.
História narrada em 4
blocos, tendo José Renato e Mathieu como protagonistas.
Cinco da
tarde, 07 de dezembro, 1968. Sábado de céu escuro, para virar. Um ar úmido
pairava sobre a cidade e o vento rumorejava nas árvores, anunciando chuva. Após
a reunião na Academia Mineira de Letras, os amigos José Renato e Mathieu deixam
a sede da instituição e, como de costume, tomam a Rua da Bahia em direção à
Lanchonete Nacional.
Chegando
ao local, ainda debaixo da marquise, o professor puxa o maço de cigarros no
bolso e oferece um ao amigo.
- Ótimo.
Vai bem com o café.
- Melhor
entrar logo, antes que comece a chover – alerta José Renato, olhando para cima.
- Claro.
- Pelo
jeito vai descer muita água. Olha o céu?
-
Shiiiiii!!! Fim de semana com chuva atrapalha qualquer programa – reclama o
rapaz.
Risos.
José Renato:
- Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.
- Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.
- Tão
romântico assim?
- Claro.
- É cedo.
- É cedo.
- Acha?
- Ainda
não estou a fim de estabelecer relações fixas com ninguém.
- Não?
-
Seduzido por esse artifício, não tenho dificuldades para tocar a vida desse
jeito. Por enquanto, acho a liberdade mais excitante.
- É?
- Assim
vivo os prazeres da matéria e continuo com a vida ditada por mim mesmo, sem ter
que dar satisfação a ninguém.
José
Renato, depois de uma gargalhada sonora:
- Que
folga é essa, desdenha das famílias?
- Não,
nada disso.
- Parece.
- De
acordo com minha mãe, tenho vocação para solteirice sem jamais deixar de ser um
eterno pretendente. Olá, mamãe!
- Ora, rapaz, casamento faz parte do social. É
a necessidade de viver a dois.
-
Conversa fiada.
- Não é
não. Os gnósticos da Alexandria até criaram uma esposa para Cristo, imaginando
enriquecer as teorias que pregavam sobre o casamento. Para eles os espíritos
evoluídos tinham que viver em casais, nunca sozinhos. Na concepção da
confraria, a humanidade é como pássaro: uma asa é o homem e a outra a mulher.
- Bem, pode até ser. Mas...
- Bem, pode até ser. Mas...
-
Indiferente ao Gnosticismo, em
países pós-modernos da Europa Central, tentaram mudar o rumo do matrimônio,
acabar com ele. A sociedade pensava que, quando tudo fosse permitido, as
pessoas seriam mais felizes. Não foi o caso. Logo as relações monogâmicas
voltaram a ser o ideal perseguido pela maioria dos jovens, que sentia falta de
alguém para dividir a vida, um valorizando a presença do outro.
- Sei!
- A
partir daí, surgiram novos formatos de união, claro, quebrando o modelo ‘juntos
para sempre’. Ou melhor, de dormir em ‘conchinhas’, agarradinhos o resto da
vida. Em troca, prevaleceu a ‘teoria da satisfação’ como nova maneira de viver
a dois, de pensar o relacionamento, dentro daquele princípio de que nenhuma
sociedade é mais do que os laços de suas famílias. Voz do povo – conclui Jose
Renato.
- Teoria
da satisfação?
- Um
algoritmo que maximiza as chances de uma pessoa achar sua alma gêmea e,
sobretudo, diminuir o risco de se dar mal na escolha. A ideia se fundamenta num
conceito chamado satisficing, mistura
de satisfação com suficiência, baseada naquela máxima de Friedrich Nietzsche: nunca suponha igualdade de sentimentos,
portanto, o tempo que você quiser nós vamos dormir juntos. A fórmula inclui
amizade, diálogo, projetos em comum e fidelidade. Ou melhor: um dando ao outro
aquilo que falta, entretanto sem aquela de paixão desenfreada, mas que não
deixa de ser um amor romântico. O negócio é ficar numa boa.
Mathieu
em tom divertindo:
-
Atmosfera romântica em nome do conforto social, dentro e fora e casa?
- Pode
ser.
- Mesmo
com o receituário nas mãos o bolo costuma solar, porque amar nada mais é do que
ser cumplice do sonho alheio! Ora, Zé, são normas imperativas que também
reduzem o casamento à escravidão. Pelo que vejo, o sexo para eles passa a ser
exercícios carnais que impõem sacrifícios espirituais. Pode até ser um belo
caso de amor, mas..., não, não me convence.
- Se
assim pensa.
- Você
não acha que é ser civilizado demais?
- Penso
que desse jeito o casal se estranha menos – observa José Renato.
- Sei
não. É mais inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de
ter alguém do lado, segurando a onda.
- Talvez.
- O amor
proposto pelos europeus é da fusão, coisa que tem grandes chances de
desaparecer no mundo pós-moderno. Esse lance de um parceiro único
satisfazer..., sei não?!..., bate de frente com os anseios atuais da juventude
que busca a individualidade. Acredito que daqui a algumas décadas menos pessoas
vão querer se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas.
- É.
-
Dostoievski já dizia que o casamento é a morte para qualquer alma,
portanto prossigo disponível às parceiras fortuitas para eventuais namoricos. O
livre-arbítrio do coração é tudo para aproveitar todos os momentos da vida,
certo?
- Quiçá!
- Que
venham senhoritas, senhoras e viúvas!
O professor
com aspecto artificial de seriedade, indaga:
- Uai, e
as separadas?
Mathieu
estala os dedos duas vezes.
- Encaro
na maior. Aconteceu..., entram na roda. A mulher separada é uma boa jogada,
sim. A aposta mais certa quando se está com fome, mas pode sempre reservar uma
surpresa agradável. Enfim, todas estão no ‘pedaço’ para viverem novas e grandes
emoções.
- Pelo
jeito, tem um pedacinho de você para todas elas?
- Ora,
Zé, quem não gostaria de ficar de braços dados com mulheres que,
temporariamente, fossem sua?
- É.
- Uma é
boa. Duas, melhor ainda. Três, ou mais, nunca são demais, viu?
- Pelo
que vejo, em pouco tempo de conversa todas elas se tornam, tecnicamente,
amantes.
- Quase
sempre.
- Sexo
para você é uma agradável brincadeira, não é mesmo?
- Sinal
dos tempos. O mundo hoje joga assim.
- Estou
vendo.
- Sou
liberal. Mente aberta, o fato é esse.
-
Raciocina que o amor se resume numa curva bem feita, num toque e no impulso de
unir corpos calorosos, não é mesmo?
-
Uai! - exclama o rapaz, dando uma risada divertida.
- Sua
filosofia é curtir. Aproveitar ao máximo as oportunidades e as novidades que
pintam no seu trajeto; namora, como nunca, sem se prender a ninguém. Verdadeiro
freelance do sexo?
- Bem...
- Pode-se
dizer que, como Pascal, o hábito é a segunda natureza?
- Talvez.
- Dessa
forma, a impressão que fica é a que você lida com o sexo como se fosse um
objeto único em busca da satisfação da libido.
- Bem,
bem...
- Não é
isso?
- Faço
parte do costume daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e
o dia de hoje é presente. Portanto, vamos viver o dia a dia com os pés no
presente. Certo?
- Ótimo.
- Procuro
seguir ao pé da letra a cartilha de Clarice Lispector: ... Não sou do óbvio. Sou da subjetividade. Não sou do texto, mas do
subtexto. Não sou da linha. Sou das entrelinhas. É isso.
Risos.
José Renato:
- O que a
gente não deve é se tornar cativo das impressões prazerosas que a devassidão
envolve. Cuidado, hein?
- Claro.
Um dia, quem sabe, mudo de opinião. Não penso envelhecer sozinho, porque, na
vida precisamos de alguém até para pedir socorro na hora do aperto. Engraçado,
‘né?
- Então
pretende casar um dia?
- Mesmo
sabendo que viver sob o mesmo teto o tempo estraga qualquer relação, não digo
que nunca faria isso. Vai chegar uma hora em que a gente tem que colocar o pé
no freio, porque não penso ficar velho dormindo no mesmo travesseiro. Mas, como
não tenho o casamento por destino a curto ou médio prazo, o peixe continua
solto. Vivo bem sozinho com a metade das despesas, e o dobro de entretimento.
Risos.
José Renato:
- Não
tiro sua razão. A liberdade de comportamento que o mundo vem conquistando joga
a favor da geração mais nova, que não quer envolvimento muito sério.
- É isso,
professor. Não tenho o casamento como regra obrigatória mas, depois dos trinta,
quando o cérebro entrar na idade da razão, vou começar a pensar em um
relacionamento estável, certo de que a escolha pode facilitar a caminhada da
existência.
- Desde
que, juntos, tenham afinidades nas passadas, claro. O caminho de cada um é
feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende das pessoas que
vão com a gente.
- Sem
dúvida.
-
Evidente que é assim.
- Pausa.
Mathieu:
- Pelo
que vejo, a vida muda em muitos aspectos com o passar dos anos, não desse modo?
- Muda,
sim. Muda muito.
- Quem
sabe encontro uma Simone, como Jean-Paul Sartre encontrou. Cada um com sua
pauta, claro. Cada um na sua.
José
Renato, depois uma longa tragada no cigarro, ressalta:
- Olha, hoje
têm biógrafos do casal, contestando essa relação engajada desse casal. Reúnem
boa documentação para mostrar que, na vida real, a coisa não foi bem assim. Na
verdade, eles se equilibravam o tempo
todo, entre escolhas e consequências.
- Hum?
- Revelam
que Simone manipulava a imagem que gostaria que o mundo tivesse. E, ela mesma,
da relação dos dois com a política, com o sexo e entre si. Por aí.
- Nunca
li nada a respeito – observa o rapaz surpreso.
- Simone
mentia e Sartre consentia para alimentar uma ciranda amorosa, estruturada numa
suposta paz no casamento aberto, com seus romances paralelos. O pensador, como
todo mundo sabe, era mestre em seduzir as amantes da esposa.
-
Nathalie Sorokine?
- Uma
delas, sim. Nathalie se tornou amante de Simone aos 17 anos, fato que levou sua
família a acusar a existencialista de sedução de menores.
- Sério?
- Outra revelação importante é do jornalista
Jaques-Laurent Bosti, amante de Simone por um bom tempo. Ele declarou que ela era uma mentirosa compulsiva, longe de
ser uma mulher autêntica, mas uma astuciosa atriz interpretando o papel da
senhora Jean-Paul Sartre. Enganava não só as amantes que alcovitavam para o
marido, como também os seus próprios biógrafos. Foi uma grande articulista.
-
Esperta, hein?
- Na
verdade, Simone incorporou seu projeto intelectual a uma vida afetiva longa
que, de fato, revolucionou costumes no mundo todo. Mas que, conforme os
biógrafos, a feriu como a mais tradicional das mulheres traídas.
- Nunca
imaginei tamanha farsa?!
José
Renato move a cabeça em sinal de aprovação, toma o amigo pelo braço e os dois
entram e param juntos ao balcão da lanchonete. A garçonete, logo pergunta com
seus grandes olhos pretos e determinados:
- Boa
tarde, o que vão beber?
O
professor pede dois cafezinhos. Ela:
- Alguma coisa para comer?
- Para
mim não. E você, Mathieu, come o quê?
- Bem...
Bem... Vai
ser... Vai ser, vai ser, vai ser..., um Bauru. Isso mesmo: quero um Bauru. Sai? – quis saber o rapaz com um dos cotovelos
apoiado no balcão.
- Claro.
Bauru na chapa - grita a atendente com humor, olhando para entrada da cozinha
do restaurante.
Mathieu
contempla o rosto imperioso da garçonete. E acrescenta, rapidamente:
- Por
favor, no lugar das rodelas de tomate, peça ao chapeiro para acrescentar dois
ovos fritos entre o queijo e o rosbife.
- Ovos no
Bauru?! – estranha a empregada, sem entender.
José Renato
ri com ironia. Ela finaliza:
- Tudo
bem, preparamos o sanduiche num minuto. Sai no capricho.
-
Preocupe não, mocinha, coisa de mineiro. Trem para reforçar a albumina que,
digerida com o café, estimula a cafeína a usar melhor a energia dos músculos. O
lanche fica bem mais substancioso – brinca o professor.
A jovem
de cabelos claros, enrolados em coque sob um quepe, lança um olhar curioso para
o rapaz, concordando:
- O
freguês é quem manda.
Enquanto
anotava o pedido, de repente, Mathieu ergue para ela o olhar e, em tom discreto,
de novo refaz o pedido:
- Por
obséquio, querida, cancele os ovos. Melhor sem eles, ‘né?
- Não quer
mais os ovos no Bauru, moço?
- Não.
Pode retirar.
A
garçonete abaixa os olhos e observa:
- Tudo
bem. Anotado, conforme manda o freguês.
Mathieu
agradece. O professor, com um movimento de cabeça, volta a gracejar:
- Ô cara,
deixe de embaraçar as bolas!
- Tem
razão. Tem razão. Querida, olhe aqui: traga somente o café.
- Não
quer mais o lanche, moço?
-
Suspenda, por favor.
- Sem
problemas. Sem problemas.
- Melhor
assim – confirma Mathieu.
- Café na
xícara ou no copo? – pergunta apressada a servidora.
- Para
mim, na xícara – adianta José Renato.
O rapaz
pisca um olho para a moça, numa tentativa de puxar mais conversa. E pronuncia
em tom suave:
- O meu,
no copo, com açúcar e afeto. Pode ser?
- Sirvo
já – responde a mocinha sem se encabular, e vai atender outros fregueses.
O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:
O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:
- A soma
dos quadrados dos catetos dá o quadrado da hipotenusa. Esqueceu-se dessa
regrinha em geometria?
- Teorema
de Pitágoras?
-
Perfeito.
-
Cassete! Não me lembro de nada – sacode a testa o rapaz. - Em matemática nunca
fui bom aluno, tinha até dificuldades de ligar dois pontos em uma linha reta.
Risos.
José Renato:
-
Discalculia!
- Por que
está me dizendo isso?
-
Colocadas dessa maneira, as palavras expressam disposição de quem diz. Mas
quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado. Desenvolvendo a
equação, obtém...
- Arre!
- Ora,
Mathieu, fique sabendo que sem matemática, a filosofia e a religião não
existiriam.
- Que tem
a religião a ver com aritmética?
- Muito.
O número zero foi inventado pelos indianos como interpretação matemática de
suas crenças, alertando de que o nada é tudo. Cá no ocidente tínhamos medo do
nada, do infinito. Por isso botamos um Deus para preenchê-lo. Brilhante ideia,
não?
- É.
- De qualquer
maneira, todas as ciências usam a matemática para se comunicar. A matemática e
a psicologia marcam atitudes humanas no dia a dia das pessoas. A filosofia
apura.
- Putz!
-
Portanto, se você é daqueles que não gostam da geometria, não sabe o que perde.
Ela impera há mais de 2.500 anos com Pitágoras, confirmando a propriedade dos
números. Além do mais, a prática de
exercícios matemáticos melhora as conexões entre os neurônios, faz bem para o
cérebro. Sem dúvida, a matemática é uma coisa muito séria, divertida também.
- Acho
ótimo.
- Tanto é
assim que, filósofos e cientistas de todos os tempos são unânimes em celebrar a
importância da matemática como base e motor do conhecimento. Segundo Stendhal,
a matemática não tem espaço para
hipocrisia e imprecisão – finaliza o professor, rindo.
Mathieu
em tom de surpresa:
- Vem cá,
Zé. Insinua que estou fazendo jogo de conquista com essa jovem?
- Conheço
sua fama e as manobras para atrair uma garota para seu bico – afirma o amigo em
tom de brincadeira.
-
Maldoso!
- Veste
saia, usa brincos e não é padre você está pegando.
- Que
isso, cara!
- Pelo
que vejo, nos tempos de hoje, a paquera pode acontecer até num cafezinho entre
consumidor e garçonete.
- Depende
da química, claro.
José
Renato sorri. Logo, recheia seu prognóstico com raciocínio emprestado a mestres
da psicoterapia:
- O certo
é que a neurociência diz que temos dentro do cérebro um conjunto de estruturas
delicadas a sinalizar tudo isso. Tem lá meios de registrar quando as coisas
boas são esperadas. Enfim, é o papel do sistema de motivação e recompensa. Use
e abuse.
- A mim
importa pouco qual lado da mente acende, quando tenho em vista uma bela fêmea
para nutrir meus sonhos ordinários.
- Não
emenda mesmo!
- Nem
quero. Vivo o dia de hoje como se fosse o primeiro, como se fosse o último,
como se foi o único.
-
Entendo, claro.
- Meu
negócio é ficar numa boa. Comigo vale tudo, a mulher pode fazer o que ela
quiser comigo: apertar, torcer. Enfim, usar como desejar. Sou suficientemente
flexível.
Risos.
Nesse instante, a moça serve-lhes a bebida. O professor sopra sobre a xícara,
mexe com a colher e toma o primeiro gole de café com a fumacinha subindo,
embaçando seus óculos.
- Forte,
do jeito que eu gosto. Saboroso!
-
Agradecida, doutor – a garçonete, com um sorriso aberto e franco, enxuga a mão
em seu avental e estende-a sobre o balcão, gesticulando serenamente.
- Não é à
toa que, antes do primeiro gole, deve-se mexer bem para abrir o buquê e
misturar o açúcar ao café. Faz bem para a alma – ressalta o professor antes da
moça sair.
Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:
Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:
- Uma
graça! Pela aparência, não deve ter mais do que uns vinte anos. Mexeu comigo.
- Estou
vendo.
- Meio
arredia, mas...
- Cônscia
de seus deveres – assegura José Renato. - Ou acha que ela iria deixar o serviço
para seguir cativa de sua cobiça?
O rapaz
leva o copo aos lábios e bebe um pouco do café.
- Não
precisava de tanto.
- O que
você queria de uma jovem de avental, trabalhando atrás do balcão de uma lanchonete?
-
Degustá-la! – brinca o rapaz, sorrindo.
- Se ela
der chance, claro.
- A
conjunção ‘se’ não compartilha do meu dicionário.
- Não?
- Sou
positivista, sempre. Meu caro, a alegria e a esperança nasceram comigo.
Risos.
José Renato:
- Certo
perdeste o senso, como diria Olavo Bilac.
- Não,
não perdi. Gosto de mulher que se aparenta frágil, mas com o olhar forte e
decidido, por isso...
- Sonho
de todo sedutor que só vê a xícara, não o café.
- É?
- Você
não tem jeito. Continua com o vírus da malandragem bem encubado, não é?
- Acho
que é vocação mesmo. Comigo vale tudo.
- Claro.
- A
fantasia, professor, é o elemento do amor que move o sangue para o lugar certo.
Por cima, esvazia a mente. O negócio é saber aproveitar o momento.
- Claro.
- Ensina
Fernando Pessoa fazer cada minuto valer a
pena, uma vez que não temos a noção de quantos ainda nos restam. Somos
instantes, portanto..., portando aproveitar o agora.
- Está
certo.
Pausa.
Mathieu não se intimida:
- Há de
convir que, pelo enigma do seu olhar, essa ‘teteia’ deve ser bem mais branda
fora do balcão. De virar a cabeça de qualquer cristão.
Com
gestos incisivos e tom quase sádico, o professor:
- Isso é
outro capítulo, meu caro. A gente nasce sem pedir e morre sem querer. Portanto,
aproveite o intervalo como achar que deve e escreva a vida de seu jeito. Lá
fora, o palco é todo seu. Faça seu teste-drive
como achar que deve.
O rapaz,
cheio de si, não comenta. José Renato:
- O
desafio, ilustre companheiro, é manter a locomotiva nos trilhos sem soltar tanta
fumaça. Portanto, cuida em não fazer chorar uma mulher, pois dizem que Deus
conta suas lágrimas.
-
Imagino.
José
Renato não ria. Limitava-se apontar seu maxilar contraído em direção ao jovem.
- Bem,
isso não é assunto meu. Prenez Soin de
Vous.
Rua da Bahia
DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
- Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.
Rua da Bahia
DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
- Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.
- Sério?
- Cada um
a seu modo, revelando a exuberância cultural da Metrópole.
-
Interessante!
- Com gumex
nos cabelos, sapatos de verniz nos pés, sempre mastigando semente de
cravo-da-índia para refrescar o hálito, eles se agrupavam nas imediações
desses bares para altos papos. Também para apreciar as moçoilas descer e subir
a Rua da Bahia, onde o charme flertava com a elegância a todo o momento. Era
muito chique!
- Posso
imaginar.
- A rua
da Bahia ainda torna a atmosfera de Belo Horizonte muito especial,
diuturnamente, visitada por jornalistas, intelectuais e políticos. Aqui estão
as redações dos principais jornais da cidade com sua fertilidade editorial,
como também os hotéis, cafés, restaurantes, clubes e um comércio super ativo.
- Eu sei.
- Pedro
Nava foi um dos maiores amantes da Rua da Bahia. Para ele havia a Bahia da
manhã, a do dia, a do entardecer, a da noite, a da madrugada de voltar da zona
boêmia ou a da madrugada para embarcar no trem Vera Cruz até a estação de Dom
Pedro II, que fervilhava de belorizontinos para curtir nosso Rio de muitos
janeiros. A Cidade Maravilhosa.
Risos.
Mathieu:
- Bom,
hein?
- Nava
fazia parte da turma dos Nefelibatas.
-
Nefelibatas?
-
Nefelibata foi um termo usado por Lima Barreto no livro Os Bruzundangas, para
designar literatos alambicados que desprezavam os processos formais de
construção de um texto poético.
- Ah, é?
- Mais ou
menos nos moldes dos fanáticos Majas, grupo de jovens revoltosos com as
tradições na Espanha ultraconservadora e moralista dos séculos 18 e 19.
- Legal.
- Pelos
anos de 1920, durante o dia, eles frequentavam as lanchonetes para tomar café
com broa de fubá e craqueneis, atualizar a conversa na geografia literária,
relaxar ou, simplesmente, para um abraço solidário de passagem.
-
Entendo.
- À noite
era comum encontrar os intelectuais da cidade em uma mesa do Café Celeste ou do
Estrela, bares existentes desde os primeiros anos desse século, quando os cafés
começaram a ser vistos como o centro da vida social de Belo Horizonte. Sem
falar que eram os fóruns onde a vanguarda das artes em Minas ia trocar ideias.
- Legal.
- O
destino e afinidades tratavam de aproximá-los para degustar uma boa cerveja,
doses de licor de anis coberto de escachas, de Otongin, de Kummel, de conhaque
Louis XIII, servidas aos vintanistas com camaradagem pelos garçons Bazzoni e
Epitácio.
Depois de
uma tragada no cigarro, Mathieu pergunta curioso:
- Quer
dizer que as conquistas amorosas sempre fizeram parte da Rua da Bahia?
- Sem
dúvida. Celebrada como a principal e mais elegante artéria da cidade era o lado
mais descolado de Belo Horizonte, ligando a Estação Ferroviária ao Palácio da
Liberdade. Por isso mesmo o local fervia de belas moças e, de plantão, havia um
bando de rapazes a arrastar-lhes asas. Todos eles com traquejo verbal, gomalina
nos cabelos ou chapéu na cabeça, calçados ponta de agulha nos pés e a infalível
flor no peito do paletó. Tudo de acordo com o figurino sugerido pelo Jornal das
Moças, que também circulava em Belo Horizonte.
- Pelo
jeito que você fala, eram mesmo encantadoras.
-
Belíssimas! Entre as ‘deidades’, assim chamadas as moçoilas fashion da cidade, destacavam o perfil
das morenas de olhos claros, boca encarnada e cabelos escuros com mechas
esvoaçantes, trajando segundo a moda europeia do pós-guerra. Algumas desfilavam
na onda dos ‘Jonne-Cap’ no topo da cabeça. Chique, muito chique!
- Jonne-Cap?
- Era o
nome dos gorros versáteis, que se
curvavam a todos os caprichos de um dedo de mulher, como escreveu Drummond
numa de suas crônicas. O trem era comprado no Magazin Parc Royal, a maior e
melhor casa do Brasil para difundir a moda afrancesada em Belo Horizonte. Glamour acima de tudo!
- Dá para
imaginar, claro.
- Os
mancebos nutriam verdadeiro fascínio por essas moças. Tudo muito contido,
nada da ambição desenfreada de hoje. Naquele tempo, a abóbada celeste era azul,
os anjos tocavam harpas e a troca de olhares dava a entender que o amor seria
eterno. Eram todas donzelas, prendadas.
- Aposto
que você conquistava o coração de todas?
Com uma
gargalhada de saudosismo, José Renato conta:
- Nesse
particular, ai de mim! Sempre fui meio contido, arredio, ermitão. Introvertido. Sei lá, bastante tímido
mesmo.
-
Caramba!
- Na
frente delas, ficava nervoso e confuso, sem saber como me colocar. Perdidão
mesmo, travado! Pior
que não conseguia destravar na hora do papo, principalmente, quando ficava
interessado em alguém.
- Olha
só!
- Ainda
sou meio inibido para certas coisas. Apesar de ter um metabolismo muito legal,
nunca fui atirado ao ponto de acompanhar as anotações taquigráficas da
juventude vivaz da minha época. Muito menos, da moçada atual que exige pressa
nas mudanças.
- Outro
contexto, outro comportamento, ´né?
- Posso
dizer que a literatura me ajudou muito a fazer amizades pelo mundo. E por causa
dela as pessoas se aproximam de mim.
- Claro.
Pausa,
José Renato:
- O certo
é que a Rua da Bahia respira história. Muito cedo, aqui se concentraram lojas
elegantes, alfaiatarias e charutarias nos moldes europeus, contribuindo para a
Capital perder aquele ar provinciano - afiança o professor, apontando o dedo em
direção ao outro lado da rua. Ali funcionava a Sorveteria Sibéria, famosa pelo
picolé envolvido em chocolate, como também pelo refresco Bellini e frappée de
coco. Uma delícia!
- Legal.
- De
longe, a Sibéria era a mais requisitada. Concorria com o Restaurante Colosso e
o Bar do Ponto, onde costumavam frequentar as pessoas da elite mineira, cujos
hábitos e gostos se afrancesavam cada vez mais. Também eram afamados os bares
do Meira, do Machado e do Monsã. Um pouco mais abaixo, o Tip-Top, desfrutado
por cabeças coroadas que não dispensavam jantares com vinhaça italiana e
francesa.
- Conheço
a casa. Muito boa – aplaude Mathieu.
- Mathieu, sabe qual foi o primeiro bar que marcou a vida noturna
da Capital de Minas?
- Não.
- Segundo o professor Abílio Barreto, em seu livro Memória
Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, pouco mais de quatro meses da
inauguração da Nova Capital, começou a funcionar o Café Mineiro.
- Onde era?
- Na Rua Guajajaras, entre a Avenida João Pinheiro e Rua
Sergipe. Inaugurado em 24 de julho de 1897, ao som de músicos tocando valsas
melancólicas e polkas saltitantes.
Tudo em grande estilo.
- Formidável.
- Formidável.
José
Renato solta um suspiro de quem lastima, direciona o olhar para outra direção e
confessa:
- Tempos
memoráveis, Mathieu. As pessoas que caminhavam na rua trocavam cumprimentos,
sem a menor cerimônia. Ainda me lembro das longas voltas no bondinho Ceará.
Nele embarcavam corações apaixonados com seus caderninhos de anotações
literárias pelos trilhos da Capital. Muito divertido!
-
Verdade?
- Passear
no bondinho era objeto de desejo da moçada de todas as classes sociais,
principalmente, entre a turma mais ligada na mania de trocar versos. Ali se
curtia os maiores poetas do mundo. Ah! E nos dias de grandes festas na Capital,
durante o percurso era comum ver um grupo de românticos jogarem panfletos com
poesias pelas ruas da cidade.
-
Caramba!
- Empolgação
juvenil, sabe como é?
- Não
acha que, até como atração turística, seria bem-vindo o bondinho nos dias de
hoje?
- Sem
chance, Mathieu. Embora fosse parte da paisagem urbana a marinete da amizade,
do riso descontraído e alegre e das grandes emoções, passou e não deixou
bilhete de volta. Dela, restou apenas doces recordações.
- Ora, se
tanta coisa vai e volta no tempo, por que não o bondinho?
- Nunca
mais teremos o bonde histórico, circulando de novo nas ruas de Belo Horizonte,
mesmo sabendo que a cidade perdeu muito de seu charme.
- Acha?
- Tenho
certeza. Estabelecendo uma conversa entre o passado e o presente, quietinho lá
no Museu Abílio Barreto, ele virou uma lembrança silenciosa de Belo horizonte
de outros tempos. Entrou de vez no conjunto de fatos passados, como um veículo
utilitário que atravessou o mar, venceu barreiras e, durante anos, trouxe muita
alegria para a nossa gente.
- Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.
- Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.
- Pois é.
Sem balanço, ele leva algumas pessoas a puxar pelas boas lembranças,
entrelaçadas na história urbana da Capital mineira - memória por trás de
memórias. Aos mais novos, ele mostra como era o nosso transporte coletivo na
primeira metade do século 20.
- Faz
sentido.
- Longe
do furor do centro urbano, o Abílio, guarda reminiscências de Belo Horizonte
desde a antiga Vila Curral Del Rei. O casarão secular de dois pavimentos,
isolado em um lugar pouco habitado da zona sul da Capital, era sede da Fazenda
do Leitão. Restaurado nos anos 1940 foi convertido em museu para exercer o
papel de conservar parte significativa da dinâmica sócio histórica da cidade,
ligando os belorizontinos do mundo moderno com um passado não tão distante.
- Palmas
ao bondinho! – anima Mathieu.
- Todos
que se davam ao luxo de ter uma Kodak a tiracolo, e pediam alguém para clicar
sua pose ao lado da marinete, devem guardar a foto com saudades, porque a
imagem daquele momento ficará na memória como breve sessão de nostalgia. Fotos
são espelhos de leituras particulares, não é mesmo?
- Claro,
claro. É pela lembrança e pela imaginação que o passado ganha significado
maior.
- Belo
Horizonte era bem menor, pouco mais de 200 mil habitantes. O casario existente,
quase todo desenhado em estilo neoclássico e neogótico, agora vem cedendo
espaço para construções imensas, mais parecidas a monumentos para serem vistas
de qualquer ponto da cidade – observa o Professor.
- Pior
que é assim mesmo.
- É por
isso que a cidade antiga vem perdendo seu espaço nessa mecânica do tempo. Tudo
como se fosse uma espécie de ‘Capitanias Hereditárias’ de uma época que não
traz mais valor nenhum. Sem respeito e remorsos, a beleza das antigas
construções é transformada em pó para dar lugar aos edifícios cada vez mais
altos.
- Incoerência.
- Nossa
cidade vem crescendo, mas de certa forma diminui; circulamos em áreas cada vez
mais restritas. E não é por causa da repressão política, ao menos não só por
causa dela.
- Entendo.
- Nem o
requintado Grande Hotel, predileto dos coronéis, escapou das picaretas da
demolição. No seu lugar, veja lá o Malletão, do Alair Couto, na esquina da Rua
da Bahia com Avenida Augusto de Lima arranhando o céu.
- É uma pena!
- Mais um
episódio que simboliza o ritmo acelerado de construções insurgentes que vão
apagando a nossa memória urbana, sem unir o novo à tradição. Não demora, até o
conjunto Sulacap Sulamérica, de 1946, poderá ser literalmente tombado.
- Difícil
de acreditar, mas pode sim – pronuncia o rapaz com segurança.
Pausa.
José Renato:
-
Invariavelmente, mudou para a meninada que brincava com seus velocípedes nos
passeios públicos, cobertos de pétalas do Ipê Roxo que todo ano floriam entre
agosto e setembro. As ruas eram boas, de todo mundo.
- Everybody street!
- Mudou
para a rapaziada que levava uma vida mais leve, que fumava o Lorde Clube e
tinha à cabeceira da cama um rádio Pilot para ouvir canções românticas de
madrugada.
Pausa.
Mathieu:
- Outro
Brasil, cara! Outra realidade!
- Arre! A
sensação que tenho é que as cidades não vão parar nunca de piorar para quem
vive nelas - rezinga José Renato, meio atônito.
- Qualquer
cidade, nos tempos de hoje, está sujeita a transformações. Desagradáveis,
talvez, mas não há como mudar o rumo desses ventos que sopram a favor do,
“entre aspas”, progresso a todo custa.
-
Correto. Eu que tenho que mudar a maneira de pensar uma cidade em tempos
modernos, que sofre infinita metamorfose no seu dia a dia. Você está certo.
Certíssimo.
Mercado Cultural
EM CONVERSA ANIMADA sobre coisas da vida e da cidade, os amigos demoram um pouco mais em frente à Lanchonete Nacional, até que o professor toma o jovem pelo braço, dizendo:
- Está na
hora. Vamos embora antes que comece a chover.
- Ã-Hã.
- Ia me esquecendo.
Viajo para Fortaleza semana que vem.
- Passeio
ou trabalho? – indaga Mathieu interessado.
- Participo de um seminário a convite da Abid.
- Abid?
- Associação
Brasileira de Decoradores.
- Ah,
sei!
- Promove
o Simpósio Internacional de Decoração e Artes Plásticas nos dias 15, 16 e 17 de
dezembro. Sou um dos palestrantes.
-
Parabéns.
-
Obrigado.
- Mesmo
com as recentes manobras políticas da Ditadura, cuspindo ideologia reacionária,
vai se arriscar a sair da cidade?
- É uma
coisa que não me incomoda tanto.
- Não?
- Nada disso
me perturba, nem penso. Não sou subversivo, mas, um confesso intelectual de
direita com projetos que têm a intenção de explorar a relação do cidadão
brasileiro com a cultura. Nesse sentido, falo o que eu quero e não sigo fórmula
de comportamento político, mesmo dentro da Universidade. Estou bem desse jeito.
- Para
você parece coisa à toa. Não é. A publicação do AI-5, que vem pleno de prepotência
e do pior jogo político de cartas marcadas, torna o Brasil cada vez mais
policiado, dando carta branca aos milicos a cometer truculências sociais sem precedentes.
É o que a gente está vendo.
- É?
- É
sério, o cerco se fecha cada vez mais em torno de todo mundo que é contra o
regime militar. Muitas vezes, sobra para quem não é contra também. É de
assombrar.
- A
sensação que sinto, Mathieu, é a de já ter visto a mesma situação em um Brasil
de outros tempos, bem antes. Isso mesmo, repete o tempo do ‘Estado Novo’ com as
mesmas ideias de 30 anos atrás.
- Hein?
- Nada
mais é do que a volta dos que nunca se foram, dos velhos torturadores de um
regime totalitário burro e falido. Em meu modo de ver, aplica-se aos militares
do golpe de 64 a frase de Talleyrand-Périgord sobre o retorno dos Burbons ao
poder: não aprenderam nada e não esqueceram
nada.
Risos.
Mathieu:
- Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.
- Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.
- Fique
tranquilo.
- A
atmosfera política, realmente, permanece muito tensa, gerando indignação e
transtornos à população. Momento é bem conturbado.
Pausa.
José Renato em tom irônico:
-
Mathieu, esse arrocho todo dos milicos não passa de mais uma crônica
maquiavélica, endossada pelo Tio Sam. O intuito é inibir o povo de lutar contra
a ditadura militar, claro. Repito: lembra-me a famigerada repressão getulista,
mais ou menos a mesma coisa. Para o Exército Brasileiro o futuro é repetir o
passado, em que a ignorância batalha para derrotar a inteligência.
- Claro.
- Novela
reprisada que faz parte de um período que o brasileiro não quer mais saber, até
porque a tortura de presos políticos começou na Ditadura Vargas.
- Não
sei. Não sei. Sinto cheiro de pólvora no ar. Sair por aí é uma manobra
arriscada. Pedro Aleixo, certa vez, disse que o perigo de toda ditadura é o
guarda da esquina. Disso estamos careca de saber.
-
Então... Então é só evitar os guardas!
- Ora,
Zé, qualquer um pode ser abordado por agentes da polícia repressora a qualquer
momento, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Ir e vir no Brasil de hoje
anda cada vez mais desconfortante. A barra pesa cada dia mais. É como brincar
com fogo perto de material combustível.
Risos.
José Renato:
- Jogo de
poder, não vê? Repito: encenação para espalhar medo entre o povo. Mas, não me
tira o sono, porque eu quero é fazer meu trabalho em paz. Não vou parar por uma
crise política.
- Não
acha que coisa mais grave pode acontecer?
- Não.
Acho que não. Olha, tudo isso por causa do desmiolado e estrábico Jânio Quadros
que, ao renunciar de seu mandato de Presidente da República, provocou o colapso
político que levou o Brasil a mergulhar nessa ditadura. O que mais me incomoda
é ver que Marechais e Coronéis, indumentados de fardas engomadas, estrelas
douradas e prateadas no peito, estão com tudo nas mãos, circulando pelas hostes
do poder.
- Com
certeza.
- Quer um
conselho, Mathieu?
- Fala.
- Deixe
as coisas como estão. Em breve esse governo tomba e o regime democrático será
ressuscitado, pode crer. A poeira abaixa, e tudo volta como antes no quartel de
Abrantes, restaurando um Brasil para todo mundo.
- Sei
não! – hesita o rapaz.
- Todo
poder está sujeito ao declínio. Vox
Populi, vox Dei. Não existe nenhuma lei natural que preserve, eternamente,
os mais poderosos no topo. A ditadura no país já durou seu tempo, está na fase
de expiração, vivendo seus últimos estertores. O Brasil merece mais.
Mathieu
balança a cabeça, concordando;
- É
provável. Muito bem. Muito bem. Então me fala o que propõe o evento?
- A
proposta do encontro é promover um diálogo aberto entre design arquitetônico e artista plástico, pensando a obra de arte
como parte da economia criativa, que sempre envolveu altas cifras nos países
adiantados.
- Bom.
- Nada
melhor do que um certame desses para oferecer oportunidades de discutir temas
assim, não é mesmo?
-
Certamente.
- Nem
mais adequado, claro. As natas da intelligentsia
e do empreendedorismo cultural brasileiro estarão presentes, participando dos
debates.
- Legal.
- Eu acho
muito importante promover debates entre as pessoas envolvidas no mercado das
artes, colhem-se bons frutos – garante José Renato.
- Sim, claro.
- O
mercado, Mathieu, nunca esteve tão pujante, qualquer bobagem vende – critica o
Professor.
- Efeito
colateral do fenômeno?
- Vamos
discutir isso também, está na pauta.
- Quem é
o comprador de arte no Brasil?
- Hoje,
podemos afirmar com segurança que há uma elite consumidora de obras, que se
espalha pelas grandes capitais do país. Os bancos e instituições relacionadas,
principalmente.
- Boa
notícia. A vida com arte é mais atraente.
Pausa.
José Renato:
- A
partir de uma visão eurocêntrica, cito como exemplo os painéis encomendados
pelos bancos brasileiros, que mostram que a arte pode ser produzida de forma
mais objetiva, sem deixar de despertar fortes emoções a sensibilizar o povo em
logradouros públicos.
- Sem
dúvida.
- Portinari
sempre fez isso. Ganhou dinheiro para aproximar a grande arte do cotidiano das
cidades ao produzir murais que dizem muito de nosso imaginário e nossa história.
Yara Tupinambá também acumula sucesso nesse seguimento, acreditando que a
aproximação do povo com as artes é importante para o desenvolvimento humano e
para mudar o visual das cidades.
-
Parabéns. Num país ainda carente de estímulos a ações culturais e educacionais,
eventos como esses ajudam a promover o diálogo entre o público e as
manifestações artísticas, sem contraindicações.
-
Evidente. Os murais estão naquela linha de arte acessível e, nesse sentido,
representam a melhor maneira de comunicar com o grande público, de aproximar a
arte da enorme massa de seres humanos.
- Nada
melhor.
Pausa.
José Renato:
- De modo
geral, poucos afeitos a inovações, os nossos artistas avaliam essa relação de
mercado com certa desconfiança, imaginando que o sistema de resultados é, fundamentalmente,
o lucro. Para muitos, mesmo mergulhados em expressivas privações econômicas,
não se faz arte em função do público e a liberdade de criação ainda é
considerada ponto inegociável.
- Eu sei.
-
Demonstram medo de que uma tela, determinada pela vocação e fruto de meses de
empenho à perfeição e à criatividade, seja destinada a entrar no limbo das
chamadas ‘artes decorativas’, tornando-se mero objeto de arranjo em mansões de
leigos. Meio complicado, mas a Abid tem enfrentado os desafios com bons
efeitos, cuidando de quebrar regras medievais e, ao mesmo tempo, manter as
tradições culturais - assinala José Renato.
- Ótimo.
- Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.
- Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.
- Sim.
- Por
isso mesmo, a intenção do Seminário é investir numa mudança de olhar e de
tratamento do fazer intelectual, revendo o colóquio entre passado, presente e
futuro da criação. O momento é bom. Parece que a economia brasileira está mesmo
em cima dos trilhos. Basta ver os índices que apontam crescimento do Produto
Interno Bruto, cada vez mais acelerado – avalia o professor.
- Para lá
de ambicioso!
-
Portanto, se o progresso no país continua a todo vapor, a arte precisa
encontrar todos os meios de conviver com esse desenvolvimento, não acha?
Claro.
Claro.
- Passa
da hora do artista plástico brasileiro mudar o conceito de que arte é um artigo
seleto que só pode ser comprado por quem acumula conhecimento prévio sobre
ele. Isso já era. Hoje em dia, o que está em jogo é mundialização da arte
produzida no Brasil.
- Sei
como é.
- Repito.
Em época de milagre econômico, bons ventos sopram a favor de nossa geração de
pincéis, unindo artistas, marchands e decoradores por todo o Brasil. A ocasião
é ímpar. O movimento em alta nas Galerias comprova a sensação de euforia no
mercado de arte brasileiro, nutrida por membros de uma classe média ascendente,
composta por profissões valorizadas como médicos, advogados, professores que
aceitam o regime sem muita restrição.
-
Verdade.
-
Sinaliza que o mercado financeiro no Brasil aquecido, contribui para aumentar o
número de neomilionários com apetite insaciável pelo aprimoramento social.
Diante disso, baseada numa projeção otimista para curto, médio e longo prazo,
cresce a competição pela aquisição de obras de arte também fora do eixo Rio e
São Paulo, revelando um nascente e potencial grupo de apreciadores de cultura
que bate na porta das Galerias de Arte. São os novos consumidores, atraídos
pelas possibilidades de investimento ou até pela busca de status intelectual.
- O que
não é mal.
-
Certamente. Reúne gente que amealhou um patrimônio vultoso, anda de Mercedes
importada e, de repente, se dá conta de que não tem uma única tela de valor em
casa.
- Isso
mesmo.
- Em
suma, é aquele sujeito sem bagagem cultural nem gosto estético definido, mas
consciente de que sua posição social exige que tenha obras de arte ao seu
redor. Então, ele passa a comprar. Só que, infelizmente, tende a fazer aquisições
sem critério, na base de indicações de amigos, ou de nome de artista que está
na moda.
Risos.
Mathieu:
-
Inquietação política numa ponta, expectativa de um mercado mais robusto para a
economia cultural na outra.
- Até que
enfim as artes plásticas estão encontrando seu lugar no mercado com grande
potencial financeiro, mesmo que alavancadas pela voracidade de interesses nesse
mundo capitalista – garante José Renato, sorrindo.
Longe de casa
MATHIEU RETIRA DO BOLSO DA CAMISA um palito de cigarro, que logo acende. Em seguida, pergunta curioso:
- E aí, Zé, conhece Fortaleza?
– Não.
Segundo a Mirador é uma das Capitais mais sedutoras do Nordeste com suas praias
paradisíacas, além de ser um lugar com raízes históricas importantes. A cidade oferece
um pouco de tudo para deixar boas lembranças em qualquer um, confere?
Mathieu
suspira:
- Atrativos
imperdíveis, em cada esquina uma descoberta. A capital cearense atrai turistas
pela arquitetura colonial e pela tropicalidade de seu litoral, onde se vê cenas
bucólicas como a dos barcos partindo para a pesca artesanal.
- Bom
saber.
- Quem
conhece a costa brasileira sabe que ela reúne o que há de mais bonito nos
litorais do planeta, tamanha a generosidade da natureza com nosso Brasil.
- Sem
dúvida.
- Vai se
divertir muito, cara. Em nenhum outro lugar do mundo o sol aparece de forma tão
generosa como lá, de janeiro a dezembro. Atrai turistas de todos os quadrantes
do planeta e, evidente, os paulistas com seus pulôveres amarrados nos ombros.
José
Renato festeja:
- Ora,
salve!
- Nada
falta. Boa comida nos restaurantes e boates com lindas mulheres, preparadas
para receber bem a horda de turistas que desembarca ali o ano inteiro. As
garotas dão o tom da festa, pondo os excursionistas em tentação, com adrenalina
lá em cima – enfatiza o rapaz, entusiasmado.
- Sério?
- Faz
parte do pacote para quem quer conhecer a Capital do Nordeste de um jeito off e muito mais divertido. E se
preferir mais aromas no ar, a cidade oferece eventos privés para fechar a noite com e um jantar especial, bem ao gosto
do cliente.
- Tem?
- Divertimento à francesa, bem à vontade. É a
sensação do momento!
José
Renato, forjando um sorriso tímido, diz:
-
Ai, meu Deus, me sinto velho para tanto!
- Que
nada, está em forma, cara.
- Passei
da idade para excessos, Mathieu. No próximo mês completo 50 anos - calcula o
amigo com brilho nos olhos. - Aquela explosão hormonal já diminuiu bastante!
- E daí?
- Estraga
qualquer um. Na virada dos 40 para os 50 anos é natural que os homens ficam
mais contidos, a energia já não é a mesma. Por isso mesmo não vejo com tanta
serenidade o passar dos anos.
- Deixa
de bobeira, cara!
- A
partir daí é a Lei da Entropia que passa a dar as cartas, ao assegurar que a energia de um corpo tende a se degenerar e
com isso a desordem do sistema aumenta. Arre! É isso.
-
Bobagens!
- Enfim,
tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído.
Enfim, tudo foi feito para acabar um dia.
- Ô, Zé!
Pausa. O
professor, puxando com os dedos a pele do rosto, admite:
- Nessa
corrida da vida tudo passa tão depressa, não é mesmo? Quando a gente se dá
conta, o tempo já passou e a velhice entra em cena, jogando cada vez mais pesado.
O tempo é implacável, meu caro!
- É.
- Pega
mesmo o corpo a decompor, como dizia Villa-Lobos. Eis aí a razão de tudo: a
velhice.
- Sim,
mas...
- Nossas
respostas ficam mais lentas para tudo. Tanto que, às vezes, quando o trem é
chamado para a ação e costuma recusar..., a fazer corpo mole. Até parece que os 50 representam a idade em que os homens, oficialmente,
atingem o ápice das inibições!
- Háháhá!
- É sério.
Os primeiros sintomas de velhice no homem começam a surgir quando o sangue
começa a ter dificuldades para ir ao lugar certo, o sorriso fica mais raro e
ácido no rosto e você se acha pouco divertido. Sem falar que deseja dormir
mais, ter a própria cadeira e suas passadas são marcadas por um ritmo menos
acelerado.
- Ainda
está com a bola toda, cara. Com disposição de fazer inveja a qualquer um de
nós.
José
Renato ri por sua vez, penhorado.
- Bondade
sua. Meu mundo está cada dia mais resumido ao egocentrismo. Não que eu queira,
mas é a engrenagem que segrega o homem na medida em que a idade avança.
Portando, não contesto Pedro Nava que vive dizendo que ficar velho é uma merda.
- Nada
disso. O corpo pode envelhecer, mas isso não é motivo para a mente e a alma
seguirem o mesmo trajeto.
- É.
Pausa.
Mathieu:
- No
livro A Velhice, Simone de Beauvoir dá a receita para uma pessoa estender as
características da mocidade um pouco mais adiante. Para ela o corpo envelhece
sem a sua permissão, claro. Mas a alma só envelhece se você permitir. Ressalta
a figura do Ageless.
- Sem idade?
- Sem idade?
-
Exatamente.
- Na
medida do possível, me cuido. Leio bastante. Uso a leitura como instrumento
para estimular o cérebro a combater doenças de memória. Por outro lado, pratico
Cooper para recuperar a mobilidade
dos músculos adormecidos, manter a forma, porque quem não se move vai empinando
mais e mais.
- Coisa
boa, cara.
- Faço
isso quase todo dia bem cedinho. Caminho pelo menos por uma hora, porque a maior fonte de vitamina D é a luz do astro rei para combater osteoporose, além de ajudar a preservar os
neurônios. Sol da manhã, claro. Por
cima, procuro alimentar bem, mas com moderação para conservar o ponteiro da
balança no lugar certo. E o colesterol ruim nas nuvens.
Risos.
Mathieu:
-
Maravilha. Hoje, um cara com cinquenta anos não se comporta mais como um de 50
anos atrás. Ele chega nessa idade sonhando com mais vinte pela frente, cheio de
munição na agulha e tinta sobrando na caneta Park 51 para registrar outros
parágrafos no seu diário. Enfim, ainda está com muito chão no seu caminho e
muita lenha para queimar. A ciência garante que o futuro é
brilhante para os homens na sua idade, pode crer.
- Assim
espero.
- Curtir
uma loucurinha de vez em quando não fere o juízo de ninguém. Além de manter a
chama acesa, alivia o estresse, recarrega as baterias, desanuvia a cabeça e
lava a alma. Portanto, brincar de turista numa noite de calor nordestino é
viver o verão de perto. Não tem preço. Vai por mim, conheço a ‘parada’ em
Fortaleza: nada que fira ou salte à vista de uma escapada lúdica.
Com um
gesto fraterno, o professor passa seu braço direito em volta dos ombros de
Mathieu.
- Estou
mesmo precisando dar uma trégua nessa correria toda. Trabalho a mil por hora,
seis dias na semana e, às vezes, aos domingos e feriados também.
- Pois
então, aproveita. Não é exagero dizer que o cérebro masculino se abranda
perante a luz de uma ninfa graciosa – quanto mais quente melhor. Enfim, elas
não estão ali somente para se vender, mas também para proporcionar algo que dê
prazer ao corpo e aconchego ao espírito de quem está tão só na noite de uma
cidade estranha. Certo?
Risos.
Erguendo os olhos, promete José Renato com simpatia:
- Ando
quieto de mulheres. Mas, vou pensar com carinho no seu caso. Na volta eu lhe
conto minhas estripulias em noites extremas. Fique tranquilo.
- Bom
mesmo. Caso contrário, se não encontrar espaço em sua atribulada rotina de
trabalho para relaxar, vai acabar tendo que tirar uns dias de folga no Polo
Norte para espantar o estresse e esfriar a cabeça. Ou...
- Ou?
- Ter que
abraçar a impotência como uma forma de vida.
- A
última coisa que eu quero. Na minha faixa já coleciono soldados mortos que
ficaram pelo caminho. Nem pensar.
- Pois
então...
O
professor joga a ponta de cigarro na sarjeta, concordando:
- Sabe
que está coberto de razão. A vida quer saber o que você quer dela, não é? Eu
quero viver. Tenho mais é que fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não
tenho a mínima noção de quantos ainda me restam pela frente.
- Assim
que se fala, amigo. A vida é curta. Se der, curta um casinho desse uma vez na
vida, mal não faz. E seja feliz.
- É.
- Como
Clarice, não queira ter a terrível
limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
- Claro.
Claro.
- Tudo o
que uma boate dessas pode prometer é que suas garotas vão envolver você numa
insinuante fragrância. O resto é por sua conta.
- Claro.
Depois de
uma longa tragada no cigarro, Mathieu:
- Muito
bem, Zé, quando parte?
- Sábado
que vem. Saio do Aeroporto da Pampulha. Deixe-me ver o horário – José Renato
tira do bolso do paletó o bilhete de embarque e se atrapalha com a leitura -
Ai, meu Deus, esses bilhetes! O problema é que... Olha o tamanhinho das letras!
Deixe-me ver... Deixe-me ver... Achei
- Que horas?
- Embarco oito da noite.
- Vou com
você.
- Para
Fortaleza?
- Não.
Não. Até o aeroporto.
O
professor contempla o rapaz com uma espécie de admiração, toca novamente seu
ombro com a mão, dizendo
- Com
prazer. Antes, quero um favor seu.
- Sim.
-
Probleminha doméstico, coisa que você tira de letra.
- Claro.
- Desejo
que durma lá em casa, enquanto estiver fora.
Se não atrapalhar muito, é claro.
- Dormir
no seu apartamento?
José
Renato leva uma mão ao ouvido.
- Mas, se
não puder não se incomode que não ficarei chateado. Sei que um jovem como você
deve estar cheio de planos para o fim de semana.
- Nada
disso, vou sim.
- Suzana
morre de medo de passar a noite só com a criança. Fobia mesmo. Faz isso por
mim, por nós?
- Pode ir
descansado.
- Então,
está combinado?
- Sim.
-
Obrigado.
- Por
nada.
- Ela
também gosta muito de você – assegura o professor em tom confessional. - Muito
bem, que tal almoçarmos na quinta-feira?
- Me liga
que a gente combina - concorda o rapaz, depois de dar duas tapinhas nas costas
de José Renato.
Anoitecia.
Nuvens cinzentas ainda rondavam baixo. José Renato movimenta a cabeça várias
vezes, espalhando uma leve onda de perfume que exalava de sua barba muito
asseada.
- Agora,
vamos embora.
- Então até a vista –
despede-se o rapaz, sorridente.
José
Renato hesita um segundo, depois percebe que não tinha nada mais a dizer, mas
ainda estende o maço de cigarros oferecendo a Mathieu um palito. Ele não
recusa.
-
Obrigado.
- Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.
Nota: Welington Almeida Pinto (1949) é autor de vários livros, entre
eles, ‘Numa Noite em 68’, ‘Nathalie’ e ‘Santos-Dumont, no Coração da
Humanidade’. Mora em Belo Horizonte, Brasil.- Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.
Cinco da
tarde, 07 de dezembro, 1968. Sábado de céu escuro, para virar. Um ar úmido
pairava sobre a cidade e o vento rumorejava nas árvores, anunciando chuva. Após
a reunião na Academia Mineira de Letras, os amigos José Renato e Mathieu deixam
a sede da instituição e, como de costume, tomam a Rua da Bahia em direção à
Lanchonete Nacional.
Chegando
ao local, ainda debaixo da marquise, o professor puxa o maço de cigarros no
bolso e oferece um ao amigo.
- Ótimo.
Vai bem com o café.
- Melhor
entrar logo, antes que comece a chover – alerta José Renato, olhando para cima.
- Claro.
- Pelo
jeito vai descer muita água. Olha o céu?
-
Shiiiiii!!! Fim de semana com chuva atrapalha qualquer programa – reclama o
rapaz.
Risos.
José Renato:
- Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.
- Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.
- Tão
romântico assim?
- Claro.
- É cedo.
- É cedo.
- Acha?
- Ainda
não estou a fim de estabelecer relações fixas com ninguém.
- Não?
-
Seduzido por esse artifício, não tenho dificuldades para tocar a vida desse
jeito. Por enquanto, acho a liberdade mais excitante.
- É?
- Assim
vivo os prazeres da matéria e continuo com a vida ditada por mim mesmo, sem ter
que dar satisfação a ninguém.
José
Renato, depois de uma gargalhada sonora:
- Que
folga é essa, desdenha das famílias?
- Não,
nada disso.
- Parece.
- De
acordo com minha mãe, tenho vocação para solteirice sem jamais deixar de ser um
eterno pretendente. Olá, mamãe!
- Ora, rapaz, casamento faz parte do social. É
a necessidade de viver a dois.
-
Conversa fiada.
- Não é
não. Os gnósticos da Alexandria até criaram uma esposa para Cristo, imaginando
enriquecer as teorias que pregavam sobre o casamento. Para eles os espíritos
evoluídos tinham que viver em casais, nunca sozinhos. Na concepção da
confraria, a humanidade é como pássaro: uma asa é o homem e a outra a mulher.
- Bem, pode até ser. Mas...
- Bem, pode até ser. Mas...
-
Indiferente ao Gnosticismo, em
países pós-modernos da Europa Central, tentaram mudar o rumo do matrimônio,
acabar com ele. A sociedade pensava que, quando tudo fosse permitido, as
pessoas seriam mais felizes. Não foi o caso. Logo as relações monogâmicas
voltaram a ser o ideal perseguido pela maioria dos jovens, que sentia falta de
alguém para dividir a vida, um valorizando a presença do outro.
- Sei!
- A
partir daí, surgiram novos formatos de união, claro, quebrando o modelo ‘juntos
para sempre’. Ou melhor, de dormir em ‘conchinhas’, agarradinhos o resto da
vida. Em troca, prevaleceu a ‘teoria da satisfação’ como nova maneira de viver
a dois, de pensar o relacionamento, dentro daquele princípio de que nenhuma
sociedade é mais do que os laços de suas famílias. Voz do povo – conclui Jose
Renato.
- Teoria
da satisfação?
- Um
algoritmo que maximiza as chances de uma pessoa achar sua alma gêmea e,
sobretudo, diminuir o risco de se dar mal na escolha. A ideia se fundamenta num
conceito chamado satisficing, mistura
de satisfação com suficiência, baseada naquela máxima de Friedrich Nietzsche: nunca suponha igualdade de sentimentos,
portanto, o tempo que você quiser nós vamos dormir juntos. A fórmula inclui
amizade, diálogo, projetos em comum e fidelidade. Ou melhor: um dando ao outro
aquilo que falta, entretanto sem aquela de paixão desenfreada, mas que não
deixa de ser um amor romântico. O negócio é ficar numa boa.
Mathieu
em tom divertindo:
-
Atmosfera romântica em nome do conforto social, dentro e fora e casa?
- Pode
ser.
- Mesmo
com o receituário nas mãos o bolo costuma solar, porque amar nada mais é do que
ser cumplice do sonho alheio! Ora, Zé, são normas imperativas que também
reduzem o casamento à escravidão. Pelo que vejo, o sexo para eles passa a ser exercícios
carnais que impõem sacrifícios espirituais. Pode até ser um belo caso de amor,
mas..., não, não me convence.
- Se
assim pensa.
- Você
não acha que é ser civilizado demais?
- Penso
que desse jeito o casal se estranha menos – observa José Renato.
- Sei não.
É mais inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de ter
alguém do lado, segurando a onda.
- Talvez.
- O amor
proposto pelos europeus é da fusão, coisa que tem grandes chances de
desaparecer no mundo pós-moderno. Esse lance de um parceiro único
satisfazer..., sei não?!..., bate de frente com os anseios atuais da juventude
que busca a individualidade. Acredito que daqui a algumas décadas menos pessoas
vão querer se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas.
- É.
-
Dostoievski já dizia que o casamento é a morte para qualquer alma,
portanto prossigo disponível às parceiras fortuitas para eventuais namoricos. O
livre-arbítrio do coração é tudo para aproveitar todos os momentos da vida,
certo?
- Quiçá!
- Que
venham senhoritas, senhoras e viúvas!
O
professor com aspecto artificial de seriedade, indaga:
- Uai, e
as separadas?
Mathieu
estala os dedos duas vezes.
- Encaro
na maior. Aconteceu..., entram na roda. A mulher separada é uma boa jogada,
sim. A aposta mais certa quando se está com fome, mas pode sempre reservar uma
surpresa agradável. Enfim, todas estão no ‘pedaço’ para viverem novas e grandes
emoções.
- Pelo
jeito, tem um pedacinho de você para todas elas?
- Ora,
Zé, quem não gostaria de ficar de braços dados com mulheres que,
temporariamente, fossem sua?
- É.
- Uma é
boa. Duas, melhor ainda. Três, ou mais, nunca são demais, viu?
- Pelo
que vejo, em pouco tempo de conversa todas elas se tornam, tecnicamente,
amantes.
- Quase
sempre.
- Sexo
para você é uma agradável brincadeira, não é mesmo?
- Sinal
dos tempos. O mundo hoje joga assim.
- Estou
vendo.
- Sou
liberal. Mente aberta, o fato é esse.
-
Raciocina que o amor se resume numa curva bem feita, num toque e no impulso de
unir corpos calorosos, não é mesmo?
-
Uai! - exclama o rapaz, dando uma risada divertida.
- Sua
filosofia é curtir. Aproveitar ao máximo as oportunidades e as novidades que pintam
no seu trajeto; namora, como nunca, sem se prender a ninguém. Verdadeiro freelance do sexo?
- Bem...
- Pode-se
dizer que, como Pascal, o hábito é a segunda natureza?
- Talvez.
- Dessa
forma, a impressão que fica é a que você lida com o sexo como se fosse um
objeto único em busca da satisfação da libido.
- Bem,
bem...
- Não é
isso?
- Faço
parte do costume daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e
o dia de hoje é presente. Portanto, vamos viver o dia a dia com os pés no
presente. Certo?
- Ótimo.
- Procuro
seguir ao pé da letra a cartilha de Clarice Lispector: ... Não sou do óbvio. Sou da subjetividade. Não sou do texto, mas do
subtexto. Não sou da linha. Sou das entrelinhas. É isso.
Risos.
José Renato:
- O que a
gente não deve é se tornar cativo das impressões prazerosas que a devassidão
envolve. Cuidado, hein?
- Claro.
Um dia, quem sabe, mudo de opinião. Não penso envelhecer sozinho, porque, na
vida precisamos de alguém até para pedir socorro na hora do aperto. Engraçado,
‘né?
- Então
pretende casar um dia?
- Mesmo
sabendo que viver sob o mesmo teto o tempo estraga qualquer relação, não digo
que nunca faria isso. Vai chegar uma hora em que a gente tem que colocar o pé
no freio, porque não penso ficar velho dormindo no mesmo travesseiro. Mas, como
não tenho o casamento por destino a curto ou médio prazo, o peixe continua
solto. Vivo bem sozinho com a metade das despesas, e o dobro de entretimento.
Risos.
José Renato:
- Não
tiro sua razão. A liberdade de comportamento que o mundo vem conquistando joga
a favor da geração mais nova, que não quer envolvimento muito sério.
- É isso,
professor. Não tenho o casamento como regra obrigatória mas, depois dos trinta,
quando o cérebro entrar na idade da razão, vou começar a pensar em um relacionamento
estável, certo de que a escolha pode facilitar a caminhada da existência.
- Desde
que, juntos, tenham afinidades nas passadas, claro. O caminho de cada um é
feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende das pessoas que
vão com a gente.
- Sem
dúvida.
-
Evidente que é assim.
- Pausa.
Mathieu:
- Pelo
que vejo, a vida muda em muitos aspectos com o passar dos anos, não desse modo?
- Muda,
sim. Muda muito.
- Quem
sabe encontro uma Simone, como Jean-Paul Sartre encontrou. Cada um com sua
pauta, claro. Cada um na sua.
José
Renato, depois uma longa tragada no cigarro, ressalta:
- Olha,
hoje têm biógrafos do casal, contestando essa relação engajada desse casal. Reúnem
boa documentação para mostrar que, na vida real, a coisa não foi bem assim. Na
verdade, eles se equilibravam o tempo
todo, entre escolhas e consequências.
- Hum?
- Revelam
que Simone manipulava a imagem que gostaria que o mundo tivesse. E, ela mesma,
da relação dos dois com a política, com o sexo e entre si. Por aí.
- Nunca
li nada a respeito – observa o rapaz surpreso.
- Simone
mentia e Sartre consentia para alimentar uma ciranda amorosa, estruturada numa
suposta paz no casamento aberto, com seus romances paralelos. O pensador, como
todo mundo sabe, era mestre em seduzir as amantes da esposa.
-
Nathalie Sorokine?
- Uma
delas, sim. Nathalie se tornou amante de Simone aos 17 anos, fato que levou sua
família a acusar a existencialista de sedução de menores.
- Sério?
- Outra revelação importante é do jornalista
Jaques-Laurent Bosti, amante de Simone por um bom tempo. Ele declarou que ela era uma mentirosa compulsiva, longe de
ser uma mulher autêntica, mas uma astuciosa atriz interpretando o papel da
senhora Jean-Paul Sartre. Enganava não só as amantes que alcovitavam para o marido,
como também os seus próprios biógrafos. Foi uma grande articulista.
-
Esperta, hein?
- Na
verdade, Simone incorporou seu projeto intelectual a uma vida afetiva longa
que, de fato, revolucionou costumes no mundo todo. Mas que, conforme os
biógrafos, a feriu como a mais tradicional das mulheres traídas.
- Nunca
imaginei tamanha farsa?!
José
Renato move a cabeça em sinal de aprovação, toma o amigo pelo braço e os dois
entram e param juntos ao balcão da lanchonete. A garçonete, logo pergunta com
seus grandes olhos pretos e determinados:
- Boa
tarde, o que vão beber?
O
professor pede dois cafezinhos. Ela:
- Alguma coisa para comer?
- Para
mim não. E você, Mathieu, come o quê?
- Bem...
Bem... Vai
ser... Vai ser, vai ser, vai ser..., um Bauru. Isso mesmo: quero um Bauru. Sai? – quis saber o rapaz com um dos cotovelos
apoiado no balcão.
- Claro.
Bauru na chapa - grita a atendente com humor, olhando para entrada da cozinha
do restaurante.
Mathieu
contempla o rosto imperioso da garçonete. E acrescenta, rapidamente:
- Por
favor, no lugar das rodelas de tomate, peça ao chapeiro para acrescentar dois
ovos fritos entre o queijo e o rosbife.
- Ovos no
Bauru?! – estranha a empregada, sem entender.
José Renato
ri com ironia. Ela finaliza:
- Tudo
bem, preparamos o sanduiche num minuto. Sai no capricho.
-
Preocupe não, mocinha, coisa de mineiro. Trem para reforçar a albumina que,
digerida com o café, estimula a cafeína a usar melhor a energia dos músculos. O
lanche fica bem mais substancioso – brinca o professor.
A jovem
de cabelos claros, enrolados em coque sob um quepe, lança um olhar curioso para
o rapaz, concordando:
- O
freguês é quem manda.
Enquanto
anotava o pedido, de repente, Mathieu ergue para ela o olhar e, em tom discreto,
de novo refaz o pedido:
- Por obséquio,
querida, cancele os ovos. Melhor sem eles, ‘né?
- Não quer
mais os ovos no Bauru, moço?
- Não.
Pode retirar.
A
garçonete abaixa os olhos e observa:
- Tudo
bem. Anotado, conforme manda o freguês.
Mathieu
agradece. O professor, com um movimento de cabeça, volta a gracejar:
- Ô cara,
deixe de embaraçar as bolas!
- Tem
razão. Tem razão. Querida, olhe aqui: traga somente o café.
- Não
quer mais o lanche, moço?
-
Suspenda, por favor.
- Sem
problemas. Sem problemas.
- Melhor
assim – confirma Mathieu.
- Café na
xícara ou no copo? – pergunta apressada a servidora.
- Para
mim, na xícara – adianta José Renato.
O rapaz
pisca um olho para a moça, numa tentativa de puxar mais conversa. E pronuncia
em tom suave:
- O meu,
no copo, com açúcar e afeto. Pode ser?
- Sirvo
já – responde a mocinha sem se encabular, e vai atender outros fregueses.
O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:
O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:
- A soma
dos quadrados dos catetos dá o quadrado da hipotenusa. Esqueceu-se dessa
regrinha em geometria?
- Teorema
de Pitágoras?
-
Perfeito.
-
Cassete! Não me lembro de nada – sacode a testa o rapaz. - Em matemática nunca
fui bom aluno, tinha até dificuldades de ligar dois pontos em uma linha reta.
Risos.
José Renato:
-
Discalculia!
- Por que
está me dizendo isso?
-
Colocadas dessa maneira, as palavras expressam disposição de quem diz. Mas
quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado. Desenvolvendo a
equação, obtém...
- Arre!
- Ora,
Mathieu, fique sabendo que sem matemática, a filosofia e a religião não
existiriam.
- Que tem
a religião a ver com aritmética?
- Muito.
O número zero foi inventado pelos indianos como interpretação matemática de
suas crenças, alertando de que o nada é tudo. Cá no ocidente tínhamos medo do
nada, do infinito. Por isso botamos um Deus para preenchê-lo. Brilhante ideia,
não?
- É.
- De
qualquer maneira, todas as ciências usam a matemática para se comunicar. A
matemática e a psicologia marcam atitudes humanas no dia a dia das pessoas. A
filosofia apura.
- Putz!
-
Portanto, se você é daqueles que não gostam da geometria, não sabe o que perde.
Ela impera há mais de 2.500 anos com Pitágoras, confirmando a propriedade dos
números. Além do mais, a prática de exercícios
matemáticos melhora as conexões entre os neurônios, faz bem para o cérebro. Sem
dúvida, a matemática é uma coisa muito séria, divertida também – finaliza o
professor, rindo.
Mathieu
em tom de surpresa:
- Vem cá,
Zé. Insinua que estou fazendo jogo de conquista com essa jovem?
- Conheço
sua fama e as manobras para atrair uma garota para seu bico – afirma o amigo em
tom de brincadeira.
-
Maldoso!
- Veste
saia, usa brincos e não é padre você está pegando.
- Que
isso, cara!
- Pelo
que vejo, nos tempos de hoje, a paquera pode acontecer até num cafezinho entre
consumidor e garçonete.
- Depende
da química, claro.
José
Renato sorri. Logo, recheia seu prognóstico com raciocínio emprestado a mestres
da psicoterapia:
- O certo
é que a neurociência diz que temos dentro do cérebro um conjunto de estruturas
delicadas a sinalizar tudo isso. Tem lá meios de registrar quando as coisas
boas são esperadas. Enfim, é o papel do sistema de motivação e recompensa. Use
e abuse.
- A mim
importa pouco qual lado da mente acende, quando tenho em vista uma bela fêmea
para nutrir meus sonhos ordinários.
- Não
emenda mesmo!
- Nem
quero. Vivo o dia de hoje como se fosse o primeiro, como se fosse o último,
como se foi o único.
-
Entendo, claro.
- Meu
negócio é ficar numa boa. Comigo vale tudo, a mulher pode fazer o que ela
quiser comigo: apertar, torcer. Enfim, usar como desejar. Sou suficientemente
flexível.
Risos.
Nesse instante, a moça serve-lhes a bebida. O professor sopra sobre a xícara,
mexe com a colher e toma o primeiro gole de café com a fumacinha subindo,
embaçando seu óculos.
- Forte,
do jeito que eu gosto. Saboroso!
-
Agradecida, doutor – a garçonete, com um sorriso aberto e franco, enxuga a mão
em seu avental e estende-a sobre o balcão, gesticulando serenamente.
- Não é à
toa que, antes do primeiro gole, deve-se mexer bem para abrir o buquê e
misturar o açúcar ao café. Faz bem para a alma – ressalta o professor antes da
moça sair.
Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:
Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:
- Uma
graça! Pela aparência, não deve ter mais do que uns vinte anos. Mexeu comigo.
- Estou
vendo.
- Meio
arredia, mas...
- Cônscia
de seus deveres – assegura José Renato. - Ou acha que ela iria deixar o serviço
para seguir cativa de sua cobiça?
O rapaz
leva o copo aos lábios e bebe um pouco do café.
- Não
precisava de tanto.
- O que
você queria de uma jovem de avental, trabalhando atrás do balcão de uma
lanchonete?
-
Degustá-la! – brinca o rapaz, sorrindo.
- Se ela
desse chances, claro.
- A
conjunção ‘se’ não compartilha do meu dicionário.
- Não?
- Sou
positivista, sempre. Meu caro, a alegria e a esperança nasceram comigo.
Risos.
José Renato:
- Certo
perdeste o senso, como diria Olavo Bilac.
- Não,
não perdi. Gosto de mulher que se aparenta frágil, mas com o olhar forte e
decidido, por isso...
- Sonho
de todo sedutor que só vê a xícara, não o café.
- É?
- Você
não tem jeito. Continua com o vírus da malandragem bem encubado, não é?
- Acho
que é vocação mesmo. Comigo vale tudo.
- Claro.
- A
fantasia, professor, é o elemento do amor que move o sangue para o lugar certo.
Por cima, esvazia a mente. O negócio é saber aproveitar o momento.
- Claro.
- Ensina
Fernando Pessoa fazer cada minuto valer a
pena, uma vez que não temos a noção de quantos ainda nos restam. Somos
instantes, portanto..., portando aproveitar o agora.
- Está
certo.
Pausa.
Mathieu não se intimida:
- Há de
convir que, pelo enigma do seu olhar, essa ‘teteia’ deve ser bem mais branda
fora do balcão. De virar a cabeça de qualquer cristão.
Com
gestos incisivos e tom quase sádico, o professor:
- Isso é
outro capítulo, meu caro. A gente nasce sem pedir e morre sem querer. Portanto,
aproveite o intervalo como achar que deve e escreva a vida de seu jeito. Lá
fora, o palco é todo seu. Faça seu teste-drive
como achar que deve.
O rapaz,
cheio de si, não comenta. José Renato:
- O
desafio, ilustre companheiro, é manter a locomotiva nos trilhos sem soltar tanta
fumaça. Portanto, cuida em não fazer chorar uma mulher, pois dizem que Deus
conta suas lágrimas.
- Imagino.
José
Renato não ria. Limitava-se apontar seu maxilar contraído em direção ao jovem.
- Bem,
isso não é assunto meu. Prenez Soin de
Vous.
Rua da Bahia
DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
- Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.
Rua da Bahia
DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
- Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.
- Sério?
- Cada um
a seu modo, revelando a exuberância cultural da Metrópole.
-
Interessante!
- Com
gumex nos cabelos, sapatos de verniz nos pés, sempre mastigando semente de
cravo-da-índia para refrescar o hálito, eles se agrupavam nas imediações
desses bares para altos papos. Também para apreciar as moçoilas descer e subir
a Rua da Bahia, onde o charme flertava com a elegância a todo o momento. Era
muito chique!
- Posso
imaginar.
- A rua
da Bahia ainda torna a atmosfera de Belo Horizonte muito especial,
diuturnamente, visitada por jornalistas, intelectuais e políticos. Aqui estão
as redações dos principais jornais da cidade com sua fertilidade editorial,
como também os hotéis, cafés, restaurantes, clubes e um comércio super ativo.
- Eu sei.
- Pedro
Nava foi um dos maiores amantes da Rua da Bahia. Para ele havia a Bahia da
manhã, a do dia, a do entardecer, a da noite, a da madrugada de voltar da zona
boêmia ou a da madrugada para embarcar no trem Vera Cruz até a estação de Dom
Pedro II, que fervilhava de belorizontinos para curtir nosso Rio de muitos
janeiros. A Cidade Maravilhosa.
Risos.
Mathieu:
- Bom,
hein?
- Nava
fazia parte da turma dos Nefelibatas.
-
Nefelibatas?
-
Nefelibata foi um termo usado por Lima Barreto no livro Os Bruzundangas, para
designar literatos alambicados que desprezavam os processos formais de
construção de um texto poético.
- Ah, é?
- Mais ou
menos nos moldes dos fanáticos Majas, grupo de jovens revoltosos com as
tradições na Espanha ultraconservadora e moralista dos séculos 18 e 19.
- Legal.
- Pelos
anos de 1920, durante o dia, eles frequentavam as lanchonetes para tomar café
com broa de fubá e craqueneis, atualizar a conversa na geografia literária,
relaxar ou, simplesmente, para um abraço solidário de passagem.
-
Entendo.
- À noite
era comum encontrar os intelectuais da cidade em uma mesa do Café Celeste ou do
Estrela, bares existentes desde os primeiros anos desse século, quando os cafés
começaram a ser vistos como o centro da vida social de Belo Horizonte. Sem
falar que eram os fóruns onde a vanguarda das artes em Minas ia trocar ideias.
- Legal.
- O
destino e afinidades tratavam de aproximá-los para degustar uma boa cerveja,
doses de licor de anis coberto de escachas, de Otongin, de Kummel, de conhaque
Louis XIII, servidas aos vintanistas com camaradagem pelos garçons Bazzoni e
Epitácio.
Depois de
uma tragada no cigarro, Mathieu pergunta curioso:
- Quer
dizer que as conquistas amorosas sempre fizeram parte da Rua da Bahia?
- Sem
dúvida. Celebrada como a principal e mais elegante artéria da cidade era o lado
mais descolado de Belo Horizonte, ligando a Estação Ferroviária ao Palácio da
Liberdade. Por isso mesmo o local fervia de belas moças e, de plantão, havia um
bando de rapazes a arrastar-lhes asas. Todos eles com traquejo verbal, gomalina
nos cabelos ou chapéu na cabeça, calçados ponta de agulha nos pés e a infalível
flor no peito do paletó. Tudo de acordo com o figurino sugerido pelo Jornal das
Moças, que também circulava em Belo Horizonte.
- Pelo
jeito que você fala, eram mesmo encantadoras.
-
Belíssimas! Entre as ‘deidades’, assim chamadas as moçoilas fashion da cidade, destacavam o perfil
das morenas de olhos claros, boca encarnada e cabelos escuros com mechas
esvoaçantes, trajando segundo a moda europeia do pós-guerra. Algumas desfilavam
na onda dos ‘Jonne-Cap’ no topo da cabeça. Chique, muito chique!
- Jonne-Cap?
- Era o
nome dos gorros versáteis, que se
curvavam a todos os caprichos de um dedo de mulher, como escreveu Drummond
numa de suas crônicas. O trem era comprado no Magazin Parc Royal, a maior e
melhor casa do Brasil para difundir a moda afrancesada em Belo Horizonte. Glamour acima de tudo!
- Dá para
imaginar, claro.
- Os
mancebos nutriam verdadeiro fascínio por essas moças. Tudo muito contido,
nada da ambição desenfreada de hoje. Naquele tempo, a abóbada celeste era azul,
os anjos tocavam harpas e a troca de olhares dava a entender que o amor seria
eterno. Eram todas donzelas, prendadas.
- Aposto
que você conquistava o coração de todas?
Com uma
gargalhada de saudosismo, José Renato conta:
- Nesse
particular, ai de mim! Sempre fui meio contido, arredio, ermitão. Introvertido. Sei lá, bastante tímido
mesmo.
-
Caramba!
- Na
frente delas, ficava nervoso e confuso, sem saber como me colocar. Perdidão
mesmo, travado! Pior
que não conseguia destravar na hora do papo, principalmente, quando ficava
interessado em alguém.
- Olha
só!
- Ainda
sou meio inibido para certas coisas. Apesar de ter um metabolismo muito legal,
nunca fui atirado ao ponto de acompanhar as anotações taquigráficas da
juventude vivaz da minha época. Muito menos, da moçada atual que exige pressa
nas mudanças.
- Outro
contexto, outro comportamento, ´né?
- Posso
dizer que a literatura me ajudou muito a fazer amizades pelo mundo. E por causa
dela as pessoas se aproximam de mim.
- Claro.
Pausa,
José Renato:
- O certo
é que a Rua da Bahia respira história. Muito cedo, aqui se concentraram lojas
elegantes, alfaiatarias e charutarias nos moldes europeus, contribuindo para a
Capital perder aquele ar provinciano - afiança o professor, apontando o dedo em
direção ao outro lado da rua. Ali funcionava a Sorveteria Sibéria, famosa pelo
picolé envolvido em chocolate, como também pelo refresco Bellini e o frappée de coco. Uma delícia!
- Legal.
- De
longe, a Sibéria era a mais requisitada. Concorria com o Restaurante Colosso e
o Bar do Ponto, onde costumavam frequentar as pessoas da elite mineira, cujos
hábitos e gostos se afrancesavam cada vez mais. Também eram afamados os bares
do Meira, do Machado e do Monsã. Um pouco mais abaixo, o Tip-Top, desfrutado
por cabeças coroadas que não dispensavam jantares com vinhaça italiana e
francesa.
- Conheço
a casa. Muito boa – aplaude Mathieu.
- Mathieu, sabe qual foi o primeiro bar que marcou a vida
noturna da Capital de Minas?
- Não.
- Segundo o professor Abílio Barreto, em seu livro Memória
Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, pouco mais de quatro meses da
inauguração da Nova Capital, começou a funcionar o Café Mineiro.
- Onde era?
- Na Rua Guajajaras, entre a Avenida João Pinheiro e Rua
Sergipe. Inaugurado em 24 de julho de 1897, ao som de músicos tocando valsas
melancólicas e polkas saltitantes.
Tudo em grande estilo.
- Formidável.
- Formidável.
José
Renato solta um suspiro de quem lastima, direciona o olhar para outra direção e
confessa:
- Tempos
memoráveis, Mathieu. As pessoas que caminhavam na rua trocavam cumprimentos,
sem a menor cerimônia. Ainda me lembro das longas voltas no bondinho Ceará.
Nele embarcavam corações apaixonados com seus caderninhos de anotações
literárias pelos trilhos da Capital. Muito divertido!
-
Verdade?
- Passear
no bondinho era objeto de desejo da moçada de todas as classes sociais,
principalmente, entre a turma mais ligada na mania de trocar versos. Ali se
curtia os maiores poetas do mundo. Ah! E nos dias de grandes festas na Capital,
durante o percurso era comum ver um grupo de românticos jogarem panfletos com
poesias pelas ruas da cidade.
-
Caramba!
- Empolgação
juvenil, sabe como é?
- Não
acha que, até como atração turística, seria bem-vindo o bondinho nos dias de
hoje?
- Sem
chance, Mathieu. Embora fosse parte da paisagem urbana a marinete da amizade,
do riso descontraído e alegre e das grandes emoções, passou e não deixou
bilhete de volta. Dela, restou apenas doces recordações.
- Ora, se
tanta coisa vai e volta no tempo, por que não o bondinho?
- Nunca
mais teremos o bonde histórico, circulando de novo nas ruas de Belo Horizonte,
mesmo sabendo que a cidade perdeu muito de seu charme.
- Acha?
- Tenho
certeza. Estabelecendo uma conversa entre o passado e o presente, quietinho lá
no Museu Abílio Barreto, ele virou uma lembrança silenciosa de Belo horizonte
de outros tempos. Entrou de vez no conjunto de fatos passados, como um veículo
utilitário que atravessou o mar, venceu barreiras e, durante anos, trouxe muita
alegria para a nossa gente.
- Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.
- Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.
- Pois é.
Sem balanço, ele leva algumas pessoas a puxar pelas boas lembranças,
entrelaçadas na história urbana da Capital mineira - memória por trás de
memórias. Aos mais novos, ele mostra como era o nosso transporte coletivo na
primeira metade do século 20.
- Faz
sentido.
- Longe
do furor do centro urbano, o Abílio, guarda reminiscências de Belo Horizonte
desde a antiga Vila Curral Del Rei. O casarão secular de dois pavimentos,
isolado em um lugar pouco habitado da zona sul da Capital, era sede da Fazenda
do Leitão. Restaurado nos anos 1940 foi convertido em museu para exercer o
papel de conservar parte significativa da dinâmica sócio histórica da cidade,
ligando os belorizontinos do mundo moderno com um passado não tão distante.
- Palmas
ao bondinho! – anima Mathieu.
- Todos
que se davam ao luxo de ter uma Kodak a tiracolo, e pediam alguém para clicar
sua pose ao lado da marinete, devem guardar a foto com saudades, porque a
imagem daquele momento ficará na memória como breve sessão de nostalgia. É pela
imaginação e pela lembrança que o passado ganha significado maior, não é mesmo?
-
Evidente.
- Belo
Horizonte era bem menor, pouco mais de 200 mil habitantes. O casario existente,
quase todo desenhado em estilo neoclássico e neogótico, agora vem cedendo
espaço para construções imensas, mais parecidas a monumentos para serem vistas
de qualquer ponto da cidade – observa o Professor.
- Pior
que é assim mesmo.
- É por
isso que a cidade antiga vem perdendo seu espaço nessa mecânica do tempo. Tudo
como se fosse uma espécie de ‘Capitanias Hereditárias’ de uma época que não traz
mais valor nenhum. Sem respeito e remorsos, a beleza das antigas construções é
transformada em pó para dar lugar aos edifícios cada vez mais altos.
- Incoerência.
- Nem o
requintado Grande Hotel, predileto dos coronéis, escapou das picaretas da
demolição. No seu lugar, veja lá o Malletão, do Alair Couto, na esquina da Rua
da Bahia com Avenida Augusto de Lima arranhando o céu.
- É uma pena!
- Mais um
episódio que simboliza o ritmo acelerado de construções insurgentes que vão
apagando a nossa memória urbana, sem unir o novo à tradição. Não demora, até o
conjunto Sulacap Sulamérica, de 1946, poderá ser literalmente tombado.
- Difícil
de acreditar, mas pode sim – pronuncia o rapaz com segurança.
Pausa.
José Renato:
-
Invariavelmente, mudou para a meninada que brincava com seus velocípedes nos
passeios públicos, cobertos de pétalas do Ipê Roxo que todo ano floriam entre
agosto e setembro. As ruas eram boas, de todo mundo.
- Everybody street!
- Mudou
para a rapaziada que levava uma vida mais leve, que fumava o Lorde Clube e
tinha à cabeceira da cama um rádio Pilot para ouvir canções românticas de
madrugada.
Pausa.
Mathieu:
- Outro
Brasil, cara! Outra realidade!
- Arre! A
sensação que tenho é que as cidades não vão parar nunca de piorar para quem
vive nelas - rezinga José Renato, meio atônito.
- Qualquer
cidade, nos tempos de hoje, está sujeita a transformações. Desagradáveis,
talvez, mas não há como mudar o rumo desses ventos que sopram a favor do,
“entre aspas”, progresso a todo custa.
- Correto.
Eu que tenho que mudar a maneira de pensar uma cidade em tempos modernos, que
sofre infinita metamorfose no seu dia a dia. Você está certo. Certíssimo.
Mercado Cultural
EM CONVERSA ANIMADA sobre coisas da vida e da cidade, os amigos demoram um pouco mais em frente à Lanchonete Nacional, até que o professor toma o jovem pelo braço, dizendo:
- Está na
hora. Vamos embora antes que comece a chover.
- Ã-Hã.
- Ia me
esquecendo. Viajo para Fortaleza semana que vem.
- Passeio
ou trabalho? – indaga Mathieu interessado.
- Participo de um seminário a convite da Abid.
- Abid?
- Associação
Brasileira de Decoradores.
- Ah,
sei!
- Promove
o Simpósio Internacional de Decoração e Artes Plásticas nos dias 15, 16 e 17 de
dezembro. Sou um dos palestrantes.
-
Parabéns.
-
Obrigado.
- Mesmo
com as recentes manobras políticas da Ditadura, cuspindo ideologia reacionária,
vai se arriscar a sair da cidade?
- É uma
coisa que não me incomoda tanto.
- Não?
- Nada disso
me perturba, nem penso. Não sou subversivo, mas, um confesso intelectual de
direita com projetos que têm a intenção de explorar a relação do cidadão
brasileiro com a cultura. Nesse sentido, falo o que eu quero e não sigo fórmula
de comportamento político, mesmo dentro da Universidade. Estou bem desse jeito.
- Para
você parece coisa à toa. Não é. A publicação do AI-5 torna o Brasil cada vez
mais policiado, dando carta branca aos milicos a cometer truculências sociais
sem precedentes. É o que a gente está vendo.
- É?
- É
sério, o cerco se fecha cada vez mais em torno de todo mundo que é contra o
regime militar. Muitas vezes, sobra para quem não é contra também. É de
assombrar.
- A
sensação que sinto, Mathieu, é a de já ter visto a mesma situação em um Brasil
de outros tempos, bem antes. Isso mesmo, repete o tempo do ‘Estado Novo’ com as
mesmas ideias de 30 anos atrás.
- Hein?
- Nada
mais é do que a volta dos que nunca se foram, dos velhos torturadores de um
regime totalitário burro e falido. Em meu modo de ver, aplica-se aos militares
do golpe de 64 a frase de Talleyrand-Périgord sobre o retorno dos Burbons ao
poder: não aprenderam nada e não esqueceram
nada.
Risos.
Mathieu:
- Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.
- Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.
- Fique
tranquilo.
- A
atmosfera política, realmente, permanece muito tensa, gerando indignação e
transtornos à população. Momento é bem conturbado.
Pausa.
José Renato em tom irônico:
-
Mathieu, esse arrocho todo dos milicos não passa de mais uma crônica
maquiavélica, endossada pelo Tio Sam. O intuito é inibir o povo de lutar contra
a ditadura militar, claro. Repito: lembra-me a famigerada repressão getulista,
mais ou menos a mesma coisa. Para o Exército Brasileiro o futuro é repetir o
passado, em que a ignorância batalha para derrotar a inteligência.
- Claro.
- Novela
reprisada que faz parte de um período que o brasileiro não quer mais saber, até
porque a tortura de presos políticos começou na Ditadura Vargas.
- Não
sei. Não sei. Sinto cheiro de pólvora no ar. Sair por aí é uma manobra
arriscada. Pedro Aleixo, certa vez, disse que o perigo de toda ditadura é o
guarda da esquina. Disso estamos careca de saber.
-
Então... Então é só evitar os guardas!
- Ora,
Zé, qualquer um pode ser abordado por agentes da polícia repressora a qualquer
momento, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Ir e vir no Brasil de hoje anda
cada vez mais desconfortante. A barra pesa cada dia mais. É como brincar com
fogo perto de material combustível.
Risos.
José Renato:
- Jogo de
poder, não vê? Repito: encenação para espalhar medo entre o povo. Mas, não me
tira o sono, porque eu quero é fazer meu trabalho em paz. Não vou parar por uma
crise política.
- Não
acha que coisa mais grave pode acontecer?
- Não.
Acho que não. Olha, tudo isso por causa do desmiolado e estrábico Jânio Quadros
que, ao renunciar de seu mandato de Presidente da República, provocou o colapso
político que levou o Brasil a mergulhar nessa ditadura. O que mais me incomoda
é ver que Marechais e Coronéis, indumentados de fardas engomadas, estrelas
douradas e prateadas no peito, estão com tudo nas mãos, circulando pelas hostes
do poder.
- Com
certeza.
- Quer um
conselho, Mathieu?
- Fala.
- Deixe
as coisas como estão. Em breve esse governo tomba e o regime democrático será
ressuscitado, pode crer. A poeira abaixa, e tudo volta como antes no quartel de
Abrantes, restaurando um Brasil para todo mundo.
- Sei
não! – hesita o rapaz.
- Todo
poder está sujeito ao declínio. Vox
Populi, vox Dei. Não existe nenhuma lei natural que preserve, eternamente,
os mais poderosos no topo. A ditadura no país já durou seu tempo, está na fase
de expiração, vivendo seus últimos estertores. O Brasil merece mais.
Mathieu
balança a cabeça, concordando;
- É
provável. Muito bem. Muito bem. Então me fala o que propõe o evento?
- A
proposta do encontro é promover um diálogo aberto entre design arquitetônico e artista plástico, pensando a obra de arte
como parte da economia criativa, que sempre envolveu altas cifras nos países
adiantados.
- Bom.
- Nada
melhor do que um certame desses para oferecer oportunidades de discutir temas
assim, não é mesmo?
-
Certamente.
- Nem
mais adequado, claro. As natas da intelligentsia
e do empreendedorismo cultural brasileiro estarão presentes, participando dos
debates.
- Legal.
- Eu acho
muito importante promover debates entre as pessoas envolvidas no mercado das
artes, colhem-se bons frutos – garante José Renato.
- Sim,
claro.
- O
mercado, Mathieu, nunca esteve tão pujante, qualquer bobagem vende – critica o
Professor.
- Efeito
colateral do fenômeno?
- Vamos
discutir isso também, está na pauta.
- Quem é
o comprador de arte no Brasil?
- Hoje,
podemos afirmar com segurança que há uma elite consumidora de obras, que se
espalha pelas grandes capitais do país. Os bancos e instituições relacionadas,
principalmente.
- Boa
notícia. A vida com arte é mais atraente.
Pausa.
José Renato:
- A
partir de uma visão eurocêntrica, cito como exemplo os painéis encomendados
pelos bancos brasileiros, que mostram que a arte pode ser produzida de forma
mais objetiva, sem deixar de despertar fortes emoções a sensibilizar o povo em
logradouros públicos.
- Sem
dúvida.
- Portinari
sempre fez isso. Ganhou dinheiro para aproximar a grande arte do cotidiano das
cidades ao produzir murais que dizem muito de nosso imaginário e nossa história.
Yara Tupinambá também acumula sucesso nesse seguimento, acreditando que a
aproximação do povo com as artes é importante para o desenvolvimento humano e
para mudar o visual das cidades.
-
Parabéns. Num país ainda carente de estímulos a ações culturais e educacionais,
eventos como esses ajudam a promover o diálogo entre o público e as
manifestações artísticas, sem contraindicações.
-
Evidente. Os murais estão naquela linha de arte acessível e, nesse sentido,
representam a melhor maneira de comunicar com o grande público, de aproximar a
arte da enorme massa de seres humanos.
- Nada
melhor.
Pausa.
José Renato:
- De modo
geral, poucos afeitos a inovações, os nossos artistas avaliam essa relação de
mercado com certa desconfiança, imaginando que o sistema de resultados é, fundamentalmente,
o lucro. Para muitos, mesmo mergulhados em expressivas privações econômicas,
não se faz arte em função do público e a liberdade de criação ainda é
considerada ponto inegociável.
- Eu sei.
-
Demonstram medo de que uma tela, determinada pela vocação e fruto de meses de
empenho à perfeição e à criatividade, seja destinada a entrar no limbo das
chamadas ‘artes decorativas’, tornando-se mero objeto de arranjo em mansões de
leigos. Meio complicado, mas a Abid tem enfrentado os desafios com bons
efeitos, cuidando de quebrar regras medievais e, ao mesmo tempo, manter as
tradições culturais - assinala José Renato.
- Ótimo.
- Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.
- Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.
- Sim.
- Por
isso mesmo, a intenção do Seminário é investir numa mudança de olhar e de
tratamento do fazer intelectual, revendo o colóquio entre passado, presente e
futuro da criação. O momento é bom. Parece que a economia brasileira está mesmo
em cima dos trilhos. Basta ver os índices que apontam crescimento do Produto
Interno Bruto, cada vez mais acelerado – avalia o professor.
- Para lá
de ambicioso!
-
Portanto, se o progresso no país continua a todo vapor, a arte precisa
encontrar todos os meios de conviver com esse desenvolvimento, não acha?
Claro.
Claro.
- Passa
da hora do artista plástico brasileiro mudar o conceito de que arte é um artigo
seleto que só pode ser comprado por quem acumula conhecimento prévio sobre
ele. Isso já era. Hoje em dia, o que está em jogo é mundialização da arte
produzida no Brasil.
- Sei
como é.
- Repito.
Em época de milagre econômico, bons ventos sopram a favor de nossa geração de
pincéis, unindo artistas, marchands e decoradores por todo o Brasil. A ocasião
é ímpar. O movimento em alta nas Galerias comprova a sensação de euforia no
mercado de arte brasileiro, nutrida por membros de uma classe média ascendente,
composta por profissões valorizadas como médicos, advogados, professores que
aceitam o regime sem muita restrição.
-
Verdade.
-
Sinaliza que o mercado financeiro no Brasil aquecido, contribui para aumentar o
número de neomilionários com apetite insaciável pelo aprimoramento social.
Diante disso, baseada numa projeção otimista para curto, médio e longo prazo,
cresce a competição pela aquisição de obras de arte também fora do eixo Rio e
São Paulo, revelando um nascente e potencial grupo de apreciadores de cultura
que bate na porta das Galerias de Arte. São os novos consumidores, atraídos
pelas possibilidades de investimento ou até pela busca de status intelectual.
- O que
não é mal.
-
Certamente. Reúne gente que amealhou um patrimônio vultoso, anda de Mercedes
importada e, de repente, se dá conta de que não tem uma única tela de valor em
casa.
- Isso
mesmo.
- Em
suma, é aquele sujeito sem bagagem cultural nem gosto estético definido, mas
consciente de que sua posição social exige que tenha obras de arte ao seu
redor. Então, ele passa a comprar. Só que, infelizmente, tende a fazer
aquisições sem critério, na base de indicações de amigos, ou de nome de artista
que está na moda.
Risos.
Mathieu:
-
Inquietação política numa ponta, expectativa de um mercado mais robusto para a
economia cultural na outra.
- Até que
enfim as artes plásticas estão encontrando seu lugar no mercado com grande
potencial financeiro, mesmo que alavancadas pela voracidade de interesses nesse
mundo capitalista – garante José Renato, sorrindo.
Longe de casa
MATHIEU RETIRA DO BOLSO DA CAMISA um palito de cigarro, que logo acende. Em seguida, pergunta curioso:
- E aí, Zé, conhece Fortaleza?
– Não.
Segundo a Mirador é uma das Capitais mais sedutoras do Nordeste com suas praias
paradisíacas, além de ser um lugar com raízes históricas importantes. A cidade oferece
um pouco de tudo para deixar boas lembranças em qualquer um, confere?
Mathieu
suspira:
- Atrativos
imperdíveis, em cada esquina uma descoberta. A capital cearense atrai turistas
pela arquitetura colonial e pela tropicalidade de seu litoral, onde se vê cenas
bucólicas como a dos barcos partindo para a pesca artesanal.
- Bom
saber.
- Quem
conhece a costa brasileira sabe que ela reúne o que há de mais bonito nos
litorais do planeta, tamanha a generosidade da natureza com nosso Brasil.
- Sem
dúvida.
- Vai se
divertir muito, cara. Em nenhum outro lugar do mundo o sol aparece de forma tão
generosa como lá, de janeiro a dezembro. Atrai turistas de todos os quadrantes
do planeta e, evidente, os paulistas com seus pulôveres amarrados nos ombros.
José
Renato festeja:
- Ora,
salve!
- Nada
falta. Boa comida nos restaurantes e boates com lindas mulheres, preparadas
para receber bem a horda de turistas que desembarca ali o ano inteiro. As
garotas dão o tom da festa, pondo os excursionistas em tentação, com adrenalina
lá em cima – enfatiza o rapaz, entusiasmado.
- Sério?
- Faz
parte do pacote para quem quer conhecer a Capital do Nordeste de um jeito off e muito mais divertido. E se
preferir mais aromas no ar, a cidade oferece eventos privés para fechar a noite com e um jantar especial, bem ao gosto
do cliente.
- Tem?
- Divertimento à francesa, bem à vontade. É a
sensação do momento!
José
Renato, forjando um sorriso tímido, diz:
-
Ai, meu Deus, me sinto velho para tanto!
- Que
nada, está em forma, cara.
- Passei
da idade para excessos, Mathieu. No próximo mês completo 50 anos - calcula o
amigo com brilho nos olhos. - Aquela explosão hormonal já diminuiu bastante!
- E daí?
- Estraga
qualquer um. Na virada dos 40 para os 50 anos é natural que os homens ficam
mais contidos, a energia já não é a mesma. Por isso mesmo não vejo com tanta
serenidade o passar dos anos.
- Deixa
de bobeira, cara!
- A
partir daí é a Lei da Entropia que passa a dar as cartas, ao assegurar que a energia de um corpo tende a se degenerar e
com isso a desordem do sistema aumenta. Arre! É isso.
-
Bobagens!
- Enfim,
tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído.
Enfim, tudo foi feito para acabar um dia.
- Ô, Zé!
Pausa. O
professor, puxando com os dedos a pele do rosto, admite:
- Nessa
corrida da vida tudo passa tão depressa, não é mesmo? Quando a gente se dá
conta, o tempo já passou e a velhice entra em cena, jogando cada vez mais pesado.
O tempo é implacável, meu caro!
- É.
- Pega
mesmo o corpo a decompor, como dizia Villa-Lobos. Eis aí a razão de tudo: a
velhice.
- Sim,
mas...
- Nossas
respostas ficam mais lentas para tudo. Tanto que, às vezes, quando o trem é
chamado para a ação e costuma recusar..., a fazer corpo mole. Até parece que os 50 representam a idade em que os homens, oficialmente,
atingem o ápice das inibições!
- Háháhá!
- É sério.
Os primeiros sintomas de velhice no homem começam a surgir quando o sangue
começa a ter dificuldades para ir ao lugar certo, o sorriso fica mais raro e
ácido no rosto e você se acha pouco divertido. Sem falar que deseja dormir
mais, ter a própria cadeira e suas passadas são marcadas por um ritmo menos
acelerado.
- Ainda
está com a bola toda, cara. Com disposição de fazer inveja a qualquer um de
nós.
José
Renato ri por sua vez, penhorado.
- Bondade
sua. Meu mundo está cada dia mais resumido ao egocentrismo. Não que eu queira,
mas é a engrenagem que segrega o homem na medida em que a idade avança.
Portando, não contesto Pedro Nava que vive dizendo que ficar velho é uma merda.
- Nada
disso. O corpo pode envelhecer, mas isso não é motivo para a mente e a alma
seguirem o mesmo trajeto.
- É.
Pausa.
Mathieu:
- No
livro A Velhice, Simone de Beauvoir dá a receita para uma pessoa estender as
características da mocidade um pouco mais adiante. Para ela o corpo envelhece
sem a sua permissão, claro. Mas a alma só envelhece se você permitir. Ressalta
a figura do Ageless.
- Sem idade?
- Sem idade?
-
Exatamente.
- Na
medida do possível, me cuido. Leio bastante. Uso a leitura como instrumento
para estimular o cérebro a combater doenças de memória. Por outro lado, pratico
Cooper para recuperar a mobilidade
dos músculos adormecidos, manter a forma, porque quem não se move vai empinando
mais e mais.
- Coisa
boa, cara.
- Faço
isso quase todo dia bem cedinho. Caminho pelo menos por uma hora, porque a maior fonte de vitamina D é a luz do astro rei para combater osteoporose, além de ajudar a preservar os neurônios.
Sol da manhã, claro. Por cima, procuro alimentar bem, mas com
moderação para conservar o ponteiro da balança no lugar certo. E o colesterol
ruim nas nuvens.
Risos.
Mathieu:
-
Maravilha. Hoje, um cara com cinquenta anos não se comporta mais como um de 50
anos atrás. Ele chega nessa idade sonhando com mais vinte pela frente, cheio de
munição na agulha e tinta sobrando na caneta Park 51 para registrar outros
parágrafos no seu diário. Enfim, ainda está com muito chão no seu caminho e
muita lenha para queimar. A ciência garante que o futuro é
brilhante para os homens na sua idade, pode crer.
- Assim
espero.
- Curtir
uma loucurinha de vez em quando não fere o juízo de ninguém. Além de manter a
chama acesa, alivia o estresse, recarrega as baterias, desanuvia a cabeça e
lava a alma. Portanto, brincar de turista numa noite de calor nordestino é
viver o verão de perto. Não tem preço. Vai por mim, conheço a ‘parada’ em
Fortaleza: nada que fira ou salte à vista de uma escapada lúdica.
Com um
gesto fraterno, o professor passa seu braço direito em volta dos ombros de
Mathieu.
- Estou
mesmo precisando dar uma trégua nessa correria toda. Trabalho a mil por hora,
seis dias na semana e, às vezes, aos domingos e feriados também.
- Pois
então, aproveita. Não é exagero dizer que o cérebro masculino se abranda
perante a luz de uma ninfa graciosa – quanto mais quente melhor. Enfim, elas
não estão ali somente para se vender, mas também para proporcionar algo que dê
prazer ao corpo e aconchego ao espírito de quem está tão só na noite de uma
cidade estranha. Certo?
Risos.
Erguendo os olhos, promete José Renato com simpatia:
- Ando
quieto de mulheres. Mas, vou pensar com carinho no seu caso. Na volta eu lhe
conto minhas estripulias em noites extremas. Fique tranquilo.
- Bom
mesmo. Caso contrário, se não encontrar espaço em sua atribulada rotina de
trabalho para relaxar, vai acabar tendo que tirar uns dias de folga no Polo
Norte para espantar o estresse e esfriar a cabeça. Ou...
- Ou?
- Ter que
abraçar a impotência como uma forma de vida.
- A
última coisa que eu quero. Na minha faixa já coleciono soldados mortos que
ficaram pelo caminho. Nem pensar.
- Pois
então...
O
professor joga a ponta de cigarro na sarjeta, concordando:
- Sabe
que está coberto de razão. A vida quer saber o que você quer dela, não é? Eu
quero viver. Tenho mais é que fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não tenho
a mínima noção de quantos ainda me restam pela frente.
- Assim
que se fala, amigo. A vida é curta. Se der, curta um casinho desse uma vez na
vida, mal não faz. E seja feliz.
- É.
- Como
Clarice, não queira ter a terrível
limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
- Claro.
Claro.
- Tudo o
que uma boate dessas pode prometer é que suas garotas vão envolver você numa
insinuante fragrância. O resto é por sua conta.
- Claro.
Depois de
uma longa tragada no cigarro, Mathieu:
- Muito
bem, Zé, quando parte?
- Sábado
que vem. Saio do Aeroporto da Pampulha. Deixe-me ver o horário – José Renato
tira do bolso do paletó o bilhete de embarque e se atrapalha com a leitura -
Ai, meu Deus, esses bilhetes! O problema é que... Olha o tamanhinho das letras!
Deixe-me ver... Deixe-me ver... Achei
- Que horas?
- Embarco oito da noite.
- Vou com
você.
- Para
Fortaleza?
- Não.
Não. Até o aeroporto.
O
professor contempla o rapaz com uma espécie de admiração, toca novamente seu
ombro com a mão, dizendo
- Com
prazer. Antes, quero um favor seu.
- Sim.
-
Probleminha doméstico, coisa que você tira de letra.
- Claro.
- Desejo
que durma lá em casa, enquanto estiver fora.
Se não atrapalhar muito, é claro.
- Dormir
no seu apartamento?
José
Renato leva uma mão ao ouvido.
- Mas, se
não puder não se incomode que não ficarei chateado. Sei que um jovem como você
deve estar cheio de planos para o fim de semana.
- Nada
disso, vou sim.
- Suzana
morre de medo de passar a noite só com a criança. Fobia mesmo. Faz isso por mim,
por nós?
- Pode ir
descansado.
- Então,
está combinado?
- Sim.
-
Obrigado.
- Por
nada.
- Ela
também gosta muito de você – assegura o professor em tom confessional. - Muito
bem, que tal almoçarmos na quinta-feira?
- Me liga
que a gente combina - concorda o rapaz, depois de dar duas tapinhas nas costas
de José Renato.
Anoitecia.
Nuvens cinzentas ainda rondavam baixo. José Renato movimenta a cabeça várias
vezes, espalhando uma leve onda de perfume que exalava de sua barba muito
asseada.
- Agora,
vamos embora.
- Então até a vista –
despede-se o rapaz, sorridente.
José
Renato hesita um segundo, depois percebe que não tinha nada mais a dizer, mas
ainda estende o maço de cigarros oferecendo a Mathieu um palito. Ele não
recusa.
-
Obrigado.
- Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.
- Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.

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