Tuesday, August 05, 2014

10/X – PALAVRAS DE UMA CIDADE LATINA



*

 
Maria Almeida Soares(D) com amiga em Belo Horizonte. 
 
Welington Almeida Pinto

                    História em 4 blocos, tendo José Renato e Mathieu como protagonistas.


                    História narrada em 4 blocos, tendo José Renato e Mathieu como protagonistas.
 
Cinco da tarde, 07 de dezembro, 1968. Sábado de céu escuro, para virar. Um ar úmido pairava sobre a cidade e o vento rumorejava nas árvores, anunciando chuva. Após a reunião na Academia Mineira de Letras, os amigos José Renato e Mathieu deixam a sede da instituição e, como de costume, tomam a Rua da Bahia em direção à Lanchonete Nacional.
Chegando ao local, ainda debaixo da marquise, o professor puxa o maço de cigarros no bolso e oferece um ao amigo.
- Ótimo. Vai bem com o café.
- Melhor entrar logo, antes que comece a chover – alerta José Renato, olhando para cima.
- Claro.
- Pelo jeito vai descer muita água. Olha o céu?
- Shiiiiii!!! Fim de semana com chuva atrapalha qualquer programa – reclama o rapaz.
Risos. José Renato:

          - Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.
- Tão romântico assim?
- Claro.
           - É cedo.
- Acha?
- Ainda não estou a fim de estabelecer relações fixas com ninguém.
- Não?
- Seduzido por esse artifício, não tenho dificuldades para tocar a vida desse jeito. Por enquanto, acho a liberdade mais excitante.
- É?
- Assim vivo os prazeres da matéria e continuo com a vida ditada por mim mesmo, sem ter que dar satisfação a ninguém.
José Renato, depois de uma gargalhada sonora:
- Que folga é essa, desdenha das famílias?
- Não, nada disso.
- Parece.
- De acordo com minha mãe, tenho vocação para solteirice sem jamais deixar de ser um eterno pretendente. Olá, mamãe!
 - Ora, rapaz, casamento faz parte do social. É a necessidade de viver a dois.
- Conversa fiada.
- Não é não. Os gnósticos da Alexandria até criaram uma esposa para Cristo, imaginando enriquecer as teorias que pregavam sobre o casamento. Para eles os espíritos evoluídos tinham que viver em casais, nunca sozinhos. Na concepção da confraria, a humanidade é como pássaro: uma asa é o homem e a outra a mulher.
           - Bem, pode até ser. Mas...
- Indiferente ao Gnosticismo, em países pós-modernos da Europa Central, tentaram mudar o rumo do matrimônio, acabar com ele. A sociedade pensava que, quando tudo fosse permitido, as pessoas seriam mais felizes. Não foi o caso. Logo as relações monogâmicas voltaram a ser o ideal perseguido pela maioria dos jovens, que sentia falta de alguém para dividir a vida, um valorizando a presença do outro.
- Sei!
- A partir daí, surgiram novos formatos de união, claro, quebrando o modelo ‘juntos para sempre’. Ou melhor, de dormir em ‘conchinhas’, agarradinhos o resto da vida. Em troca, prevaleceu a ‘teoria da satisfação’ como nova maneira de viver a dois, de pensar o relacionamento, dentro daquele princípio de que nenhuma sociedade é mais do que os laços de suas famílias. Voz do povo – conclui Jose Renato.
- Teoria da satisfação?
- Um algoritmo que maximiza as chances de uma pessoa achar sua alma gêmea e, sobretudo, diminuir o risco de se dar mal na escolha. A ideia se fundamenta num conceito chamado satisficing, mistura de satisfação com suficiência, baseada naquela máxima de Friedrich Nietzsche: nunca suponha igualdade de sentimentos, portanto, o tempo que você quiser nós vamos dormir juntos. A fórmula inclui amizade, diálogo, projetos em comum e fidelidade. Ou melhor: um dando ao outro aquilo que falta, entretanto sem aquela de paixão desenfreada, mas que não deixa de ser um amor romântico. O negócio é ficar numa boa.
Mathieu em tom divertindo:
- Atmosfera romântica em nome do conforto social, dentro e fora e casa?
- Pode ser.
- Mesmo com o receituário nas mãos o bolo costuma solar, porque amar nada mais é do que ser cumplice do sonho alheio! Ora, Zé, são normas imperativas que também reduzem o casamento à escravidão. Pelo que vejo, o sexo para eles passa a ser exercícios carnais que impõem sacrifícios espirituais. Pode até ser um belo caso de amor, mas..., não, não me convence.
- Se assim pensa.
- Você não acha que é ser civilizado demais?
- Penso que desse jeito o casal se estranha menos – observa José Renato.
- Sei não. É mais inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de ter alguém do lado, segurando a onda.
- Talvez.
- O amor proposto pelos europeus é da fusão, coisa que tem grandes chances de desaparecer no mundo pós-moderno. Esse lance de um parceiro único satisfazer..., sei não?!..., bate de frente com os anseios atuais da juventude que busca a individualidade. Acredito que daqui a algumas décadas menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas.
- É.
- Dostoievski já dizia que o casamento é a morte para qualquer alma, portanto prossigo disponível às parceiras fortuitas para eventuais namoricos. O livre-arbítrio do coração é tudo para aproveitar todos os momentos da vida, certo?
- Quiçá!
- Que venham senhoritas, senhoras e viúvas!
O professor com aspecto artificial de seriedade, indaga:
- Uai, e as separadas?
Mathieu estala os dedos duas vezes.
- Encaro na maior. Aconteceu..., entram na roda. A mulher separada é uma boa jogada, sim. A aposta mais certa quando se está com fome, mas pode sempre reservar uma surpresa agradável. Enfim, todas estão no ‘pedaço’ para viverem novas e grandes emoções.
- Pelo jeito, tem um pedacinho de você para todas elas?
- Ora, Zé, quem não gostaria de ficar de braços dados com mulheres que, temporariamente, fossem sua?
- É.
- Uma é boa. Duas, melhor ainda. Três, ou mais, nunca são demais, viu?
- Pelo que vejo, em pouco tempo de conversa todas elas se tornam, tecnicamente, amantes.
- Quase sempre.
- Sexo para você é uma agradável brincadeira, não é mesmo?
- Sinal dos tempos. O mundo hoje joga assim.
- Estou vendo.
- Sou liberal. Mente aberta, o fato é esse.
- Raciocina que o amor se resume numa curva bem feita, num toque e no impulso de unir corpos calorosos, não é mesmo?
 - Uai! - exclama o rapaz, dando uma risada divertida.
- Sua filosofia é curtir. Aproveitar ao máximo as oportunidades e as novidades que pintam no seu trajeto; namora, como nunca, sem se prender a ninguém. Verdadeiro freelance do sexo?
- Bem...
- Pode-se dizer que, como Pascal, o hábito é a segunda natureza?
- Talvez.
- Dessa forma, a impressão que fica é a que você lida com o sexo como se fosse um objeto único em busca da satisfação da libido.
- Bem, bem...
- Não é isso?
- Faço parte do costume daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e o dia de hoje é presente. Portanto, vamos viver o dia a dia com os pés no presente. Certo?
- Ótimo.
- Procuro seguir ao pé da letra a cartilha de Clarice Lispector: ... Não sou do óbvio. Sou da subjetividade. Não sou do texto, mas do subtexto. Não sou da linha. Sou das entrelinhas. É isso.
Risos. José Renato:
- O que a gente não deve é se tornar cativo das impressões prazerosas que a devassidão envolve. Cuidado, hein?
- Claro. Um dia, quem sabe, mudo de opinião. Não penso envelhecer sozinho, porque, na vida precisamos de alguém até para pedir socorro na hora do aperto. Engraçado, ‘né?
- Então pretende casar um dia?
- Mesmo sabendo que viver sob o mesmo teto o tempo estraga qualquer relação, não digo que nunca faria isso. Vai chegar uma hora em que a gente tem que colocar o pé no freio, porque não penso ficar velho dormindo no mesmo travesseiro. Mas, como não tenho o casamento por destino a curto ou médio prazo, o peixe continua solto. Vivo bem sozinho com a metade das despesas, e o dobro de entretimento.
Risos. José Renato:
- Não tiro sua razão. A liberdade de comportamento que o mundo vem conquistando joga a favor da geração mais nova, que não quer envolvimento muito sério.
- É isso, professor. Não tenho o casamento como regra obrigatória mas, depois dos trinta, quando o cérebro entrar na idade da razão, vou começar a pensar em um relacionamento estável, certo de que a escolha pode facilitar a caminhada da existência. 
- Desde que, juntos, tenham afinidades nas passadas, claro. O caminho de cada um é feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende das pessoas que vão com a gente.
- Sem dúvida.
- Evidente que é assim.
- Pausa. Mathieu:
- Pelo que vejo, a vida muda em muitos aspectos com o passar dos anos, não desse modo?
- Muda, sim. Muda muito.
- Quem sabe encontro uma Simone, como Jean-Paul Sartre encontrou. Cada um com sua pauta, claro. Cada um na sua.
José Renato, depois uma longa tragada no cigarro, ressalta:
- Olha, hoje têm biógrafos do casal, contestando essa relação engajada desse casal. Reúnem boa documentação para mostrar que, na vida real, a coisa não foi bem assim. Na verdade, eles se equilibravam o tempo todo, entre escolhas e consequências.
- Hum?
- Revelam que Simone manipulava a imagem que gostaria que o mundo tivesse. E, ela mesma, da relação dos dois com a política, com o sexo e entre si. Por aí.
- Nunca li nada a respeito – observa o rapaz surpreso.
- Simone mentia e Sartre consentia para alimentar uma ciranda amorosa, estruturada numa suposta paz no casamento aberto, com seus romances paralelos. O pensador, como todo mundo sabe, era mestre em seduzir as amantes da esposa. 
- Nathalie Sorokine?
- Uma delas, sim. Nathalie se tornou amante de Simone aos 17 anos, fato que levou sua família a acusar a existencialista de sedução de menores.
- Sério?
 - Outra revelação importante é do jornalista Jaques-Laurent Bosti, amante de Simone por um bom tempo. Ele declarou que ela era uma mentirosa compulsiva, longe de ser uma mulher autêntica, mas uma astuciosa atriz interpretando o papel da senhora Jean-Paul Sartre. Enganava não só as amantes que alcovitavam para o marido, como também os seus próprios biógrafos. Foi uma grande articulista.
- Esperta, hein?
- Na verdade, Simone incorporou seu projeto intelectual a uma vida afetiva longa que, de fato, revolucionou costumes no mundo todo. Mas que, conforme os biógrafos, a feriu como a mais tradicional das mulheres traídas.
- Nunca imaginei tamanha farsa?!
José Renato move a cabeça em sinal de aprovação, toma o amigo pelo braço e os dois entram e param juntos ao balcão da lanchonete. A garçonete, logo pergunta com seus grandes olhos pretos e determinados:
- Boa tarde, o que vão beber?
O professor pede dois cafezinhos. Ela:
 - Alguma coisa para comer?
- Para mim não. E você, Mathieu, come o quê?
- Bem... Bem... Vai ser... Vai ser, vai ser, vai ser..., um Bauru. Isso mesmo: quero um Bauru. Sai? – quis saber o rapaz com um dos cotovelos apoiado no balcão.
- Claro. Bauru na chapa - grita a atendente com humor, olhando para entrada da cozinha do restaurante.
Mathieu contempla o rosto imperioso da garçonete. E acrescenta, rapidamente:
- Por favor, no lugar das rodelas de tomate, peça ao chapeiro para acrescentar dois ovos fritos entre o queijo e o rosbife.
- Ovos no Bauru?! – estranha a empregada, sem entender.
José Renato ri com ironia. Ela finaliza:
- Tudo bem, preparamos o sanduiche num minuto. Sai no capricho.
- Preocupe não, mocinha, coisa de mineiro. Trem para reforçar a albumina que, digerida com o café, estimula a cafeína a usar melhor a energia dos músculos. O lanche fica bem mais substancioso – brinca o professor.
A jovem de cabelos claros, enrolados em coque sob um quepe, lança um olhar curioso para o rapaz, concordando:
- O freguês é quem manda.
Enquanto anotava o pedido, de repente, Mathieu ergue para ela o olhar e, em tom discreto, de novo refaz o pedido:
- Por obséquio, querida, cancele os ovos. Melhor sem eles, ‘né?
- Não quer mais os ovos no Bauru, moço?
- Não. Pode retirar.
A garçonete abaixa os olhos e observa:
- Tudo bem. Anotado, conforme manda o freguês.
Mathieu agradece. O professor, com um movimento de cabeça, volta a gracejar:
- Ô cara, deixe de embaraçar as bolas!
- Tem razão. Tem razão. Querida, olhe aqui: traga somente o café.
- Não quer mais o lanche, moço?
- Suspenda, por favor.
- Sem problemas. Sem problemas.
- Melhor assim – confirma Mathieu.
- Café na xícara ou no copo? – pergunta apressada a servidora.
- Para mim, na xícara – adianta José Renato.
O rapaz pisca um olho para a moça, numa tentativa de puxar mais conversa. E pronuncia em tom suave:
- O meu, no copo, com açúcar e afeto. Pode ser?
- Sirvo já – responde a mocinha sem se encabular, e vai atender outros fregueses.
             O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:
- A soma dos quadrados dos catetos dá o quadrado da hipotenusa. Esqueceu-se dessa regrinha em geometria?
- Teorema de Pitágoras?
- Perfeito.
- Cassete! Não me lembro de nada – sacode a testa o rapaz. - Em matemática nunca fui bom aluno, tinha até dificuldades de ligar dois pontos em uma linha reta.
Risos. José Renato:
- Discalculia!
- Por que está me dizendo isso?
- Colocadas dessa maneira, as palavras expressam disposição de quem diz. Mas quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado. Desenvolvendo a equação, obtém...
- Arre!
- Ora, Mathieu, fique sabendo que sem matemática, a filosofia e a religião não existiriam.
- Que tem a religião a ver com aritmética?
- Muito. O número zero foi inventado pelos indianos como interpretação matemática de suas crenças, alertando de que o nada é tudo. Cá no ocidente tínhamos medo do nada, do infinito. Por isso botamos um Deus para preenchê-lo. Brilhante ideia, não?
- É.
- De qualquer maneira, todas as ciências usam a matemática para se comunicar. A matemática e a psicologia marcam atitudes humanas no dia a dia das pessoas. A filosofia apura.
- Putz!
- Portanto, se você é daqueles que não gostam da geometria, não sabe o que perde. Ela impera há mais de 2.500 anos com Pitágoras, confirmando a propriedade dos números.  Além do mais, a prática de exercícios matemáticos melhora as conexões entre os neurônios, faz bem para o cérebro. Sem dúvida, a matemática é uma coisa muito séria, divertida também.
- Acho ótimo.
- Tanto é assim que, filósofos e cientistas de todos os tempos são unânimes em celebrar a importância da matemática como base e motor do conhecimento. Segundo Stendhal, a matemática não tem espaço para hipocrisia e imprecisão – finaliza o professor, rindo.
Mathieu em tom de surpresa:
- Vem cá, Zé. Insinua que estou fazendo jogo de conquista com essa jovem?
- Conheço sua fama e as manobras para atrair uma garota para seu bico – afirma o amigo em tom de brincadeira.
- Maldoso!
- Veste saia, usa brincos e não é padre você está pegando.
- Que isso, cara!
- Pelo que vejo, nos tempos de hoje, a paquera pode acontecer até num cafezinho entre consumidor e garçonete.
- Depende da química, claro.
José Renato sorri. Logo, recheia seu prognóstico com raciocínio emprestado a mestres da psicoterapia:
- O certo é que a neurociência diz que temos dentro do cérebro um conjunto de estruturas delicadas a sinalizar tudo isso. Tem lá meios de registrar quando as coisas boas são esperadas. Enfim, é o papel do sistema de motivação e recompensa. Use e abuse.
- A mim importa pouco qual lado da mente acende, quando tenho em vista uma bela fêmea para nutrir meus sonhos ordinários.
- Não emenda mesmo!
- Nem quero. Vivo o dia de hoje como se fosse o primeiro, como se fosse o último, como se foi o único.
- Entendo, claro.
- Meu negócio é ficar numa boa. Comigo vale tudo, a mulher pode fazer o que ela quiser comigo: apertar, torcer. Enfim, usar como desejar. Sou suficientemente flexível.
Risos. Nesse instante, a moça serve-lhes a bebida. O professor sopra sobre a xícara, mexe com a colher e toma o primeiro gole de café com a fumacinha subindo, embaçando seus óculos.
- Forte, do jeito que eu gosto. Saboroso!
- Agradecida, doutor – a garçonete, com um sorriso aberto e franco, enxuga a mão em seu avental e estende-a sobre o balcão, gesticulando serenamente.
- Não é à toa que, antes do primeiro gole, deve-se mexer bem para abrir o buquê e misturar o açúcar ao café. Faz bem para a alma – ressalta o professor antes da moça sair.
            Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:
- Uma graça! Pela aparência, não deve ter mais do que uns vinte anos. Mexeu comigo.
- Estou vendo.
- Meio arredia, mas...
- Cônscia de seus deveres – assegura José Renato. - Ou acha que ela iria deixar o serviço para seguir cativa de sua cobiça?
O rapaz leva o copo aos lábios e bebe um pouco do café.
- Não precisava de tanto.
- O que você queria de uma jovem de avental, trabalhando atrás do balcão de uma lanchonete?
- Degustá-la! – brinca o rapaz, sorrindo.
- Se ela der chance, claro.
- A conjunção ‘se’ não compartilha do meu dicionário.
- Não?
- Sou positivista, sempre. Meu caro, a alegria e a esperança nasceram comigo.
Risos. José Renato:
- Certo perdeste o senso, como diria Olavo Bilac.
- Não, não perdi. Gosto de mulher que se aparenta frágil, mas com o olhar forte e decidido, por isso...
- Sonho de todo sedutor que só vê a xícara, não o café.
- É?
- Você não tem jeito. Continua com o vírus da malandragem bem encubado, não é?
- Acho que é vocação mesmo. Comigo vale tudo.
- Claro.
- A fantasia, professor, é o elemento do amor que move o sangue para o lugar certo. Por cima, esvazia a mente. O negócio é saber aproveitar o momento.
- Claro.
- Ensina Fernando Pessoa fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não temos a noção de quantos ainda nos restam. Somos instantes, portanto..., portando aproveitar o agora.
- Está certo.
Pausa. Mathieu não se intimida:
- Há de convir que, pelo enigma do seu olhar, essa ‘teteia’ deve ser bem mais branda fora do balcão. De virar a cabeça de qualquer cristão.
Com gestos incisivos e tom quase sádico, o professor:
- Isso é outro capítulo, meu caro. A gente nasce sem pedir e morre sem querer. Portanto, aproveite o intervalo como achar que deve e escreva a vida de seu jeito. Lá fora, o palco é todo seu. Faça seu teste-drive como achar que deve.
O rapaz, cheio de si, não comenta. José Renato:
- O desafio, ilustre companheiro, é manter a locomotiva nos trilhos sem soltar tanta fumaça. Portanto, cuida em não fazer chorar uma mulher, pois dizem que Deus conta suas lágrimas.
- Imagino.
José Renato não ria. Limitava-se apontar seu maxilar contraído em direção ao jovem.
- Bem, isso não é assunto meu. Prenez Soin de Vous.






Rua da Bahia


DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
          - Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.
- Sério?
- Cada um a seu modo, revelando a exuberância cultural da Metrópole.
- Interessante!
- Com gumex nos cabelos, sapatos de verniz nos pés, sempre mastigando semente de cravo-da-índia para refrescar o hálito, eles se agrupavam nas imediações desses bares para altos papos. Também para apreciar as moçoilas descer e subir a Rua da Bahia, onde o charme flertava com a elegância a todo o momento. Era muito chique!
- Posso imaginar.
- A rua da Bahia ainda torna a atmosfera de Belo Horizonte muito especial, diuturnamente, visitada por jornalistas, intelectuais e políticos. Aqui estão as redações dos principais jornais da cidade com sua fertilidade editorial, como também os hotéis, cafés, restaurantes, clubes e um comércio super ativo.
- Eu sei.
- Pedro Nava foi um dos maiores amantes da Rua da Bahia. Para ele havia a Bahia da manhã, a do dia, a do entardecer, a da noite, a da madrugada de voltar da zona boêmia ou a da madrugada para embarcar no trem Vera Cruz até a estação de Dom Pedro II, que fervilhava de belorizontinos para curtir nosso Rio de muitos janeiros. A Cidade Maravilhosa.
Risos. Mathieu:
- Bom, hein?
- Nava fazia parte da turma dos Nefelibatas.
- Nefelibatas?
- Nefelibata foi um termo usado por Lima Barreto no livro Os Bruzundangas, para designar literatos alambicados que desprezavam os processos formais de construção de um texto poético.
- Ah, é?
- Mais ou menos nos moldes dos fanáticos Majas, grupo de jovens revoltosos com as tradições na Espanha ultraconservadora e moralista dos séculos 18 e 19.
- Legal.
- Pelos anos de 1920, durante o dia, eles frequentavam as lanchonetes para tomar café com broa de fubá e craqueneis, atualizar a conversa na geografia literária, relaxar ou, simplesmente, para um abraço solidário de passagem.
- Entendo.
- À noite era comum encontrar os intelectuais da cidade em uma mesa do Café Celeste ou do Estrela, bares existentes desde os primeiros anos desse século, quando os cafés começaram a ser vistos como o centro da vida social de Belo Horizonte. Sem falar que eram os fóruns onde a vanguarda das artes em Minas ia trocar ideias.
- Legal.
- O destino e afinidades tratavam de aproximá-los para degustar uma boa cerveja, doses de licor de anis coberto de escachas, de Otongin, de Kummel, de conhaque Louis XIII, servidas aos vintanistas com camaradagem pelos garçons Bazzoni e Epitácio.
Depois de uma tragada no cigarro, Mathieu pergunta curioso:
- Quer dizer que as conquistas amorosas sempre fizeram parte da Rua da Bahia?
- Sem dúvida. Celebrada como a principal e mais elegante artéria da cidade era o lado mais descolado de Belo Horizonte, ligando a Estação Ferroviária ao Palácio da Liberdade. Por isso mesmo o local fervia de belas moças e, de plantão, havia um bando de rapazes a arrastar-lhes asas. Todos eles com traquejo verbal, gomalina nos cabelos ou chapéu na cabeça, calçados ponta de agulha nos pés e a infalível flor no peito do paletó. Tudo de acordo com o figurino sugerido pelo Jornal das Moças, que também circulava em Belo Horizonte. 
- Pelo jeito que você fala, eram mesmo encantadoras.
- Belíssimas! Entre as ‘deidades’, assim chamadas as moçoilas fashion da cidade, destacavam o perfil das morenas de olhos claros, boca encarnada e cabelos escuros com mechas esvoaçantes, trajando segundo a moda europeia do pós-guerra. Algumas desfilavam na onda dos ‘Jonne-Cap’ no topo da cabeça. Chique, muito chique!
- Jonne-Cap?
- Era o nome dos gorros versáteis, que se curvavam a todos os caprichos de um dedo de mulher, como escreveu Drummond numa de suas crônicas. O trem era comprado no Magazin Parc Royal, a maior e melhor casa do Brasil para difundir a moda afrancesada em Belo Horizonte. Glamour acima de tudo!
- Dá para imaginar, claro.
- Os mancebos nutriam verdadeiro fascínio por essas moças.  Tudo muito contido, nada da ambição desenfreada de hoje. Naquele tempo, a abóbada celeste era azul, os anjos tocavam harpas e a troca de olhares dava a entender que o amor seria eterno. Eram todas donzelas, prendadas.
- Aposto que você conquistava o coração de todas?
Com uma gargalhada de saudosismo, José Renato conta:
- Nesse particular, ai de mim!  Sempre fui meio contido, arredio, ermitão. Introvertido. Sei lá, bastante tímido mesmo.
- Caramba!
- Na frente delas, ficava nervoso e confuso, sem saber como me colocar. Perdidão mesmo, travado! Pior que não conseguia destravar na hora do papo, principalmente, quando ficava interessado em alguém.
- Olha só!
- Ainda sou meio inibido para certas coisas. Apesar de ter um metabolismo muito legal, nunca fui atirado ao ponto de acompanhar as anotações taquigráficas da juventude vivaz da minha época. Muito menos, da moçada atual que exige pressa nas mudanças.
- Outro contexto, outro comportamento, ´né?
- Posso dizer que a literatura me ajudou muito a fazer amizades pelo mundo. E por causa dela as pessoas se aproximam de mim.
- Claro.
Pausa, José Renato:
- O certo é que a Rua da Bahia respira história. Muito cedo, aqui se concentraram lojas elegantes, alfaiatarias e charutarias nos moldes europeus, contribuindo para a Capital perder aquele ar provinciano - afiança o professor, apontando o dedo em direção ao outro lado da rua. Ali funcionava a Sorveteria Sibéria, famosa pelo picolé envolvido em chocolate, como também pelo refresco Bellini e frappée de coco. Uma delícia!
- Legal.
- De longe, a Sibéria era a mais requisitada. Concorria com o Restaurante Colosso e o Bar do Ponto, onde costumavam frequentar as pessoas da elite mineira, cujos hábitos e gostos se afrancesavam cada vez mais. Também eram afamados os bares do Meira, do Machado e do Monsã. Um pouco mais abaixo, o Tip-Top, desfrutado por cabeças coroadas que não dispensavam jantares com vinhaça italiana e francesa.
- Conheço a casa. Muito boa – aplaude Mathieu.
- Mathieu, sabe qual foi o primeiro bar que marcou a vida noturna da Capital de Minas?
- Não.
- Segundo o professor Abílio Barreto, em seu livro Memória Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, pouco mais de quatro meses da inauguração da Nova Capital, começou a funcionar o Café Mineiro.
- Onde era?
- Na Rua Guajajaras, entre a Avenida João Pinheiro e Rua Sergipe. Inaugurado em 24 de julho de 1897, ao som de músicos tocando valsas melancólicas e polkas saltitantes. Tudo em grande estilo.
          - Formidável.
José Renato solta um suspiro de quem lastima, direciona o olhar para outra direção e confessa:
- Tempos memoráveis, Mathieu. As pessoas que caminhavam na rua trocavam cumprimentos, sem a menor cerimônia. Ainda me lembro das longas voltas no bondinho Ceará. Nele embarcavam corações apaixonados com seus caderninhos de anotações literárias pelos trilhos da Capital. Muito divertido!
- Verdade?
- Passear no bondinho era objeto de desejo da moçada de todas as classes sociais, principalmente, entre a turma mais ligada na mania de trocar versos. Ali se curtia os maiores poetas do mundo. Ah! E nos dias de grandes festas na Capital, durante o percurso era comum ver um grupo de românticos jogarem panfletos com poesias pelas ruas da cidade.
- Caramba!
- Empolgação juvenil, sabe como é?
- Não acha que, até como atração turística, seria bem-vindo o bondinho nos dias de hoje?
- Sem chance, Mathieu. Embora fosse parte da paisagem urbana a marinete da amizade, do riso descontraído e alegre e das grandes emoções, passou e não deixou bilhete de volta. Dela, restou apenas doces recordações.
- Ora, se tanta coisa vai e volta no tempo, por que não o bondinho?
- Nunca mais teremos o bonde histórico, circulando de novo nas ruas de Belo Horizonte, mesmo sabendo que a cidade perdeu muito de seu charme.
- Acha?
- Tenho certeza. Estabelecendo uma conversa entre o passado e o presente, quietinho lá no Museu Abílio Barreto, ele virou uma lembrança silenciosa de Belo horizonte de outros tempos. Entrou de vez no conjunto de fatos passados, como um veículo utilitário que atravessou o mar, venceu barreiras e, durante anos, trouxe muita alegria para a nossa gente.
           - Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.
- Pois é. Sem balanço, ele leva algumas pessoas a puxar pelas boas lembranças, entrelaçadas na história urbana da Capital mineira - memória por trás de memórias. Aos mais novos, ele mostra como era o nosso transporte coletivo na primeira metade do século 20.
- Faz sentido.
- Longe do furor do centro urbano, o Abílio, guarda reminiscências de Belo Horizonte desde a antiga Vila Curral Del Rei. O casarão secular de dois pavimentos, isolado em um lugar pouco habitado da zona sul da Capital, era sede da Fazenda do Leitão. Restaurado nos anos 1940 foi convertido em museu para exercer o papel de conservar parte significativa da dinâmica sócio histórica da cidade, ligando os belorizontinos do mundo moderno com um passado não tão distante.
- Palmas ao bondinho! – anima Mathieu.
- Todos que se davam ao luxo de ter uma Kodak a tiracolo, e pediam alguém para clicar sua pose ao lado da marinete, devem guardar a foto com saudades, porque a imagem daquele momento ficará na memória como breve sessão de nostalgia. Fotos são espelhos de leituras particulares, não é mesmo?
- Claro, claro. É pela lembrança e pela imaginação que o passado ganha significado maior.
- Belo Horizonte era bem menor, pouco mais de 200 mil habitantes. O casario existente, quase todo desenhado em estilo neoclássico e neogótico, agora vem cedendo espaço para construções imensas, mais parecidas a monumentos para serem vistas de qualquer ponto da cidade – observa o Professor.
- Pior que é assim mesmo.
- É por isso que a cidade antiga vem perdendo seu espaço nessa mecânica do tempo. Tudo como se fosse uma espécie de ‘Capitanias Hereditárias’ de uma época que não traz mais valor nenhum. Sem respeito e remorsos, a beleza das antigas construções é transformada em pó para dar lugar aos edifícios cada vez mais altos.
  - Incoerência.
- Nossa cidade vem crescendo, mas de certa forma diminui; circulamos em áreas cada vez mais restritas. E não é por causa da repressão política, ao menos não só por causa dela.
- Entendo.
- Nem o requintado Grande Hotel, predileto dos coronéis, escapou das picaretas da demolição. No seu lugar, veja lá o Malletão, do Alair Couto, na esquina da Rua da Bahia com Avenida Augusto de Lima arranhando o céu.
   - É uma pena!
- Mais um episódio que simboliza o ritmo acelerado de construções insurgentes que vão apagando a nossa memória urbana, sem unir o novo à tradição. Não demora, até o conjunto Sulacap Sulamérica, de 1946, poderá ser literalmente tombado.
- Difícil de acreditar, mas pode sim – pronuncia o rapaz com segurança.
Pausa. José Renato:
- Invariavelmente, mudou para a meninada que brincava com seus velocípedes nos passeios públicos, cobertos de pétalas do Ipê Roxo que todo ano floriam entre agosto e setembro. As ruas eram boas, de todo mundo.
- Everybody street!
- Mudou para a rapaziada que levava uma vida mais leve, que fumava o Lorde Clube e tinha à cabeceira da cama um rádio Pilot para ouvir canções românticas de madrugada.
Pausa. Mathieu:
- Outro Brasil, cara! Outra realidade!
- Arre! A sensação que tenho é que as cidades não vão parar nunca de piorar para quem vive nelas - rezinga José Renato, meio atônito.
- Qualquer cidade, nos tempos de hoje, está sujeita a transformações. Desagradáveis, talvez, mas não há como mudar o rumo desses ventos que sopram a favor do, “entre aspas”, progresso a todo custa.
- Correto. Eu que tenho que mudar a maneira de pensar uma cidade em tempos modernos, que sofre infinita metamorfose no seu dia a dia. Você está certo. Certíssimo.







Mercado Cultural

EM CONVERSA ANIMADA sobre coisas da vida e da cidade, os amigos demoram um pouco mais em frente à Lanchonete Nacional, até que o professor toma o jovem pelo braço, dizendo:
- Está na hora. Vamos embora antes que comece a chover.
- Ã-Hã.
- Ia me esquecendo. Viajo para Fortaleza semana que vem.
- Passeio ou trabalho? – indaga Mathieu interessado.
 - Participo de um seminário a convite da Abid.
- Abid?
- Associação Brasileira de Decoradores.
- Ah, sei!
- Promove o Simpósio Internacional de Decoração e Artes Plásticas nos dias 15, 16 e 17 de dezembro. Sou um dos palestrantes.
- Parabéns.
- Obrigado.
- Mesmo com as recentes manobras políticas da Ditadura, cuspindo ideologia reacionária, vai se arriscar a sair da cidade?
- É uma coisa que não me incomoda tanto.
- Não?
- Nada disso me perturba, nem penso. Não sou subversivo, mas, um confesso intelectual de direita com projetos que têm a intenção de explorar a relação do cidadão brasileiro com a cultura. Nesse sentido, falo o que eu quero e não sigo fórmula de comportamento político, mesmo dentro da Universidade. Estou bem desse jeito.
- Para você parece coisa à toa. Não é. A publicação do AI-5, que vem pleno de prepotência e do pior jogo político de cartas marcadas, torna o Brasil cada vez mais policiado, dando carta branca aos milicos a cometer truculências sociais sem precedentes. É o que a gente está vendo.
- É?
- É sério, o cerco se fecha cada vez mais em torno de todo mundo que é contra o regime militar. Muitas vezes, sobra para quem não é contra também. É de assombrar.
- A sensação que sinto, Mathieu, é a de já ter visto a mesma situação em um Brasil de outros tempos, bem antes. Isso mesmo, repete o tempo do ‘Estado Novo’ com as mesmas ideias de 30 anos atrás.
- Hein?
- Nada mais é do que a volta dos que nunca se foram, dos velhos torturadores de um regime totalitário burro e falido. Em meu modo de ver, aplica-se aos militares do golpe de 64 a frase de Talleyrand-Périgord sobre o retorno dos Burbons ao poder: não aprenderam nada e não esqueceram nada.
Risos. Mathieu:
           - Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.
- Fique tranquilo.
- A atmosfera política, realmente, permanece muito tensa, gerando indignação e transtornos à população. Momento é bem conturbado.
Pausa. José Renato em tom irônico:
- Mathieu, esse arrocho todo dos milicos não passa de mais uma crônica maquiavélica, endossada pelo Tio Sam. O intuito é inibir o povo de lutar contra a ditadura militar, claro. Repito: lembra-me a famigerada repressão getulista, mais ou menos a mesma coisa. Para o Exército Brasileiro o futuro é repetir o passado, em que a ignorância batalha para derrotar a inteligência.
- Claro.
- Novela reprisada que faz parte de um período que o brasileiro não quer mais saber, até porque a tortura de presos políticos começou na Ditadura Vargas.
- Não sei. Não sei. Sinto cheiro de pólvora no ar. Sair por aí é uma manobra arriscada. Pedro Aleixo, certa vez, disse que o perigo de toda ditadura é o guarda da esquina. Disso estamos careca de saber.
- Então... Então é só evitar os guardas!
- Ora, Zé, qualquer um pode ser abordado por agentes da polícia repressora a qualquer momento, 24 horas por dia, 365 dias por ano.  Ir e vir no Brasil de hoje anda cada vez mais desconfortante. A barra pesa cada dia mais. É como brincar com fogo perto de material combustível.
Risos. José Renato:
- Jogo de poder, não vê? Repito: encenação para espalhar medo entre o povo. Mas, não me tira o sono, porque eu quero é fazer meu trabalho em paz. Não vou parar por uma crise política.
- Não acha que coisa mais grave pode acontecer?
- Não. Acho que não. Olha, tudo isso por causa do desmiolado e estrábico Jânio Quadros que, ao renunciar de seu mandato de Presidente da República, provocou o colapso político que levou o Brasil a mergulhar nessa ditadura. O que mais me incomoda é ver que Marechais e Coronéis, indumentados de fardas engomadas, estrelas douradas e prateadas no peito, estão com tudo nas mãos, circulando pelas hostes do poder.
- Com certeza.
- Quer um conselho, Mathieu?
- Fala.
- Deixe as coisas como estão. Em breve esse governo tomba e o regime democrático será ressuscitado, pode crer. A poeira abaixa, e tudo volta como antes no quartel de Abrantes, restaurando um Brasil para todo mundo.
- Sei não! – hesita o rapaz.
- Todo poder está sujeito ao declínio. Vox Populi, vox Dei. Não existe nenhuma lei natural que preserve, eternamente, os mais poderosos no topo. A ditadura no país já durou seu tempo, está na fase de expiração, vivendo seus últimos estertores. O Brasil merece mais.
Mathieu balança a cabeça, concordando;
- É provável. Muito bem. Muito bem. Então me fala o que propõe o evento?
- A proposta do encontro é promover um diálogo aberto entre design arquitetônico e artista plástico, pensando a obra de arte como parte da economia criativa, que sempre envolveu altas cifras nos países adiantados.
- Bom.
- Nada melhor do que um certame desses para oferecer oportunidades de discutir temas assim, não é mesmo?
- Certamente.
- Nem mais adequado, claro. As natas da intelligentsia e do empreendedorismo cultural brasileiro estarão presentes, participando dos debates.
- Legal.
- Eu acho muito importante promover debates entre as pessoas envolvidas no mercado das artes, colhem-se bons frutos – garante José Renato.
- Sim, claro.
- O mercado, Mathieu, nunca esteve tão pujante, qualquer bobagem vende – critica o Professor.
- Efeito colateral do fenômeno?
- Vamos discutir isso também, está na pauta.
- Quem é o comprador de arte no Brasil?
- Hoje, podemos afirmar com segurança que há uma elite consumidora de obras, que se espalha pelas grandes capitais do país. Os bancos e instituições relacionadas, principalmente.
- Boa notícia. A vida com arte é mais atraente.
Pausa. José Renato:
- A partir de uma visão eurocêntrica, cito como exemplo os painéis encomendados pelos bancos brasileiros, que mostram que a arte pode ser produzida de forma mais objetiva, sem deixar de despertar fortes emoções a sensibilizar o povo em logradouros públicos.
- Sem dúvida.
- Portinari sempre fez isso. Ganhou dinheiro para aproximar a grande arte do cotidiano das cidades ao produzir murais que dizem muito de nosso imaginário e nossa história. Yara Tupinambá também acumula sucesso nesse seguimento, acreditando que a aproximação do povo com as artes é importante para o desenvolvimento humano e para mudar o visual das cidades.
- Parabéns. Num país ainda carente de estímulos a ações culturais e educacionais, eventos como esses ajudam a promover o diálogo entre o público e as manifestações artísticas, sem contraindicações.
- Evidente. Os murais estão naquela linha de arte acessível e, nesse sentido, representam a melhor maneira de comunicar com o grande público, de aproximar a arte da enorme massa de seres humanos.
- Nada melhor.
Pausa. José Renato:
- De modo geral, poucos afeitos a inovações, os nossos artistas avaliam essa relação de mercado com certa desconfiança, imaginando que o sistema de resultados é, fundamentalmente, o lucro. Para muitos, mesmo mergulhados em expressivas privações econômicas, não se faz arte em função do público e a liberdade de criação ainda é considerada ponto inegociável.
- Eu sei.
- Demonstram medo de que uma tela, determinada pela vocação e fruto de meses de empenho à perfeição e à criatividade, seja destinada a entrar no limbo das chamadas ‘artes decorativas’, tornando-se mero objeto de arranjo em mansões de leigos. Meio complicado, mas a Abid tem enfrentado os desafios com bons efeitos, cuidando de quebrar regras medievais e, ao mesmo tempo, manter as tradições culturais - assinala José Renato.
- Ótimo.
          - Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.
- Sim.
- Por isso mesmo, a intenção do Seminário é investir numa mudança de olhar e de tratamento do fazer intelectual, revendo o colóquio entre passado, presente e futuro da criação. O momento é bom. Parece que a economia brasileira está mesmo em cima dos trilhos. Basta ver os índices que apontam crescimento do Produto Interno Bruto, cada vez mais acelerado – avalia o professor.
- Para lá de ambicioso!
- Portanto, se o progresso no país continua a todo vapor, a arte precisa encontrar todos os meios de conviver com esse desenvolvimento, não acha?
Claro. Claro.
- Passa da hora do artista plástico brasileiro mudar o conceito de que arte é um artigo seleto que só pode ser comprado por quem acumula conhecimento prévio sobre ele.  Isso já era. Hoje em dia, o que está em jogo é mundialização da arte produzida no Brasil.
- Sei como é.
- Repito. Em época de milagre econômico, bons ventos sopram a favor de nossa geração de pincéis, unindo artistas, marchands e decoradores por todo o Brasil. A ocasião é ímpar. O movimento em alta nas Galerias comprova a sensação de euforia no mercado de arte brasileiro, nutrida por membros de uma classe média ascendente, composta por profissões valorizadas como médicos, advogados, professores que aceitam o regime sem muita restrição.
- Verdade.
- Sinaliza que o mercado financeiro no Brasil aquecido, contribui para aumentar o número de neomilionários com apetite insaciável pelo aprimoramento social. Diante disso, baseada numa projeção otimista para curto, médio e longo prazo, cresce a competição pela aquisição de obras de arte também fora do eixo Rio e São Paulo, revelando um nascente e potencial grupo de apreciadores de cultura que bate na porta das Galerias de Arte. São os novos consumidores, atraídos pelas possibilidades de investimento ou até pela busca de status intelectual.
- O que não é mal.
- Certamente. Reúne gente que amealhou um patrimônio vultoso, anda de Mercedes importada e, de repente, se dá conta de que não tem uma única tela de valor em casa.
- Isso mesmo.
- Em suma, é aquele sujeito sem bagagem cultural nem gosto estético definido, mas consciente de que sua posição social exige que tenha obras de arte ao seu redor. Então, ele passa a comprar. Só que, infelizmente, tende a fazer aquisições sem critério, na base de indicações de amigos, ou de nome de artista que está na moda.
Risos. Mathieu:
- Inquietação política numa ponta, expectativa de um mercado mais robusto para a economia cultural na outra.
- Até que enfim as artes plásticas estão encontrando seu lugar no mercado com grande potencial financeiro, mesmo que alavancadas pela voracidade de interesses nesse mundo capitalista – garante José Renato, sorrindo.


 


Longe de casa


MATHIEU RETIRA DO BOLSO DA CAMISA um palito de cigarro, que logo acende. Em seguida, pergunta curioso:
 - E aí, Zé, conhece Fortaleza?
– Não. Segundo a Mirador é uma das Capitais mais sedutoras do Nordeste com suas praias paradisíacas, além de ser um lugar com raízes históricas importantes. A cidade oferece um pouco de tudo para deixar boas lembranças em qualquer um, confere? 
Mathieu suspira:
- Atrativos imperdíveis, em cada esquina uma descoberta. A capital cearense atrai turistas pela arquitetura colonial e pela tropicalidade de seu litoral, onde se vê cenas bucólicas como a dos barcos partindo para a pesca artesanal.
- Bom saber.
- Quem conhece a costa brasileira sabe que ela reúne o que há de mais bonito nos litorais do planeta, tamanha a generosidade da natureza com nosso Brasil.
- Sem dúvida.
- Vai se divertir muito, cara. Em nenhum outro lugar do mundo o sol aparece de forma tão generosa como lá, de janeiro a dezembro. Atrai turistas de todos os quadrantes do planeta e, evidente, os paulistas com seus pulôveres amarrados nos ombros.
José Renato festeja:
- Ora, salve!
- Nada falta. Boa comida nos restaurantes e boates com lindas mulheres, preparadas para receber bem a horda de turistas que desembarca ali o ano inteiro. As garotas dão o tom da festa, pondo os excursionistas em tentação, com adrenalina lá em cima – enfatiza o rapaz, entusiasmado.
- Sério?
- Faz parte do pacote para quem quer conhecer a Capital do Nordeste de um jeito off e muito mais divertido. E se preferir mais aromas no ar, a cidade oferece eventos privés para fechar a noite com e um jantar especial, bem ao gosto do cliente.
            - Tem?
  - Divertimento à francesa, bem à vontade. É a sensação do momento!
José Renato, forjando um sorriso tímido, diz:
 - Ai, meu Deus, me sinto velho para tanto!
- Que nada, está em forma, cara.
- Passei da idade para excessos, Mathieu. No próximo mês completo 50 anos - calcula o amigo com brilho nos olhos. - Aquela explosão hormonal já diminuiu bastante!
- E daí?
- Estraga qualquer um. Na virada dos 40 para os 50 anos é natural que os homens ficam mais contidos, a energia já não é a mesma. Por isso mesmo não vejo com tanta serenidade o passar dos anos.
- Deixa de bobeira, cara!
- A partir daí é a Lei da Entropia que passa a dar as cartas, ao assegurar que a energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta.  Arre! É isso.
- Bobagens!
- Enfim, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído. Enfim, tudo foi feito para acabar um dia.
- Ô, Zé!
Pausa. O professor, puxando com os dedos a pele do rosto, admite:
- Nessa corrida da vida tudo passa tão depressa, não é mesmo? Quando a gente se dá conta, o tempo já passou e a velhice entra em cena, jogando cada vez mais pesado. O tempo é implacável, meu caro!
- É.
- Pega mesmo o corpo a decompor, como dizia Villa-Lobos. Eis aí a razão de tudo: a velhice.
- Sim, mas...
- Nossas respostas ficam mais lentas para tudo. Tanto que, às vezes, quando o trem é chamado para a ação e costuma recusar..., a fazer corpo mole. Até parece que os 50 representam a idade em que os homens, oficialmente, atingem o ápice das inibições!
- Háháhá!
- É sério. Os primeiros sintomas de velhice no homem começam a surgir quando o sangue começa a ter dificuldades para ir ao lugar certo, o sorriso fica mais raro e ácido no rosto e você se acha pouco divertido. Sem falar que deseja dormir mais, ter a própria cadeira e suas passadas são marcadas por um ritmo menos acelerado.
- Ainda está com a bola toda, cara. Com disposição de fazer inveja a qualquer um de nós.
José Renato ri por sua vez, penhorado.
- Bondade sua. Meu mundo está cada dia mais resumido ao egocentrismo. Não que eu queira, mas é a engrenagem que segrega o homem na medida em que a idade avança. Portando, não contesto Pedro Nava que vive dizendo que ficar velho é uma merda.
- Nada disso. O corpo pode envelhecer, mas isso não é motivo para a mente e a alma seguirem o mesmo trajeto.
- É.
Pausa. Mathieu:
- No livro A Velhice, Simone de Beauvoir dá a receita para uma pessoa estender as características da mocidade um pouco mais adiante. Para ela o corpo envelhece sem a sua permissão, claro. Mas a alma só envelhece se você permitir. Ressalta a figura do Ageless.
          - Sem idade?
- Exatamente.
- Na medida do possível, me cuido. Leio bastante. Uso a leitura como instrumento para estimular o cérebro a combater doenças de memória. Por outro lado, pratico Cooper para recuperar a mobilidade dos músculos adormecidos, manter a forma, porque quem não se move vai empinando mais e mais.
- Coisa boa, cara.
- Faço isso quase todo dia bem cedinho. Caminho pelo menos por uma hora, porque a maior fonte de vitamina D é a luz do astro rei para combater osteoporose, além de ajudar a preservar os neurônios. Sol da manhã, claro. Por cima, procuro alimentar bem, mas com moderação para conservar o ponteiro da balança no lugar certo. E o colesterol ruim nas nuvens.
Risos. Mathieu:
- Maravilha. Hoje, um cara com cinquenta anos não se comporta mais como um de 50 anos atrás. Ele chega nessa idade sonhando com mais vinte pela frente, cheio de munição na agulha e tinta sobrando na caneta Park 51 para registrar outros parágrafos no seu diário. Enfim, ainda está com muito chão no seu caminho e muita lenha para queimar. A ciência garante que o futuro é brilhante para os homens na sua idade, pode crer.
- Assim espero.
- Curtir uma loucurinha de vez em quando não fere o juízo de ninguém. Além de manter a chama acesa, alivia o estresse, recarrega as baterias, desanuvia a cabeça e lava a alma. Portanto, brincar de turista numa noite de calor nordestino é viver o verão de perto. Não tem preço. Vai por mim, conheço a ‘parada’ em Fortaleza: nada que fira ou salte à vista de uma escapada lúdica.
Com um gesto fraterno, o professor passa seu braço direito em volta dos ombros de Mathieu.
- Estou mesmo precisando dar uma trégua nessa correria toda. Trabalho a mil por hora, seis dias na semana e, às vezes, aos domingos e feriados também.
- Pois então, aproveita. Não é exagero dizer que o cérebro masculino se abranda perante a luz de uma ninfa graciosa – quanto mais quente melhor. Enfim, elas não estão ali somente para se vender, mas também para proporcionar algo que dê prazer ao corpo e aconchego ao espírito de quem está tão só na noite de uma cidade estranha. Certo?
Risos. Erguendo os olhos, promete José Renato com simpatia:
- Ando quieto de mulheres. Mas, vou pensar com carinho no seu caso. Na volta eu lhe conto minhas estripulias em noites extremas. Fique tranquilo.
- Bom mesmo. Caso contrário, se não encontrar espaço em sua atribulada rotina de trabalho para relaxar, vai acabar tendo que tirar uns dias de folga no Polo Norte para espantar o estresse e esfriar a cabeça. Ou...
- Ou?
- Ter que abraçar a impotência como uma forma de vida.
- A última coisa que eu quero. Na minha faixa já coleciono soldados mortos que ficaram pelo caminho. Nem pensar.
- Pois então...
O professor joga a ponta de cigarro na sarjeta, concordando:
- Sabe que está coberto de razão. A vida quer saber o que você quer dela, não é? Eu quero viver. Tenho mais é que fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não tenho a mínima noção de quantos ainda me restam pela frente.
- Assim que se fala, amigo. A vida é curta. Se der, curta um casinho desse uma vez na vida, mal não faz. E seja feliz.
- É.
- Como Clarice, não queira ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
- Claro. Claro.
- Tudo o que uma boate dessas pode prometer é que suas garotas vão envolver você numa insinuante fragrância. O resto é por sua conta.
- Claro.
Depois de uma longa tragada no cigarro, Mathieu:
- Muito bem, Zé, quando parte?
- Sábado que vem. Saio do Aeroporto da Pampulha. Deixe-me ver o horário – José Renato tira do bolso do paletó o bilhete de embarque e se atrapalha com a leitura - Ai, meu Deus, esses bilhetes! O problema é que... Olha o tamanhinho das letras! Deixe-me ver... Deixe-me ver... Achei
  - Que horas?
  - Embarco oito da noite.
- Vou com você.
- Para Fortaleza?
- Não. Não. Até o aeroporto.
O professor contempla o rapaz com uma espécie de admiração, toca novamente seu ombro com a mão, dizendo
- Com prazer. Antes, quero um favor seu.
- Sim.
- Probleminha doméstico, coisa que você tira de letra.
- Claro.
- Desejo que durma lá em casa, enquanto estiver fora.  Se não atrapalhar muito, é claro.
- Dormir no seu apartamento?
José Renato leva uma mão ao ouvido.
- Mas, se não puder não se incomode que não ficarei chateado. Sei que um jovem como você deve estar cheio de planos para o fim de semana.
- Nada disso, vou sim.
- Suzana morre de medo de passar a noite só com a criança. Fobia mesmo. Faz isso por mim, por nós?
- Pode ir descansado.
- Então, está combinado?
- Sim.
- Obrigado.
- Por nada.
- Ela também gosta muito de você – assegura o professor em tom confessional. - Muito bem, que tal almoçarmos na quinta-feira?
- Me liga que a gente combina - concorda o rapaz, depois de dar duas tapinhas nas costas de José Renato.
Anoitecia. Nuvens cinzentas ainda rondavam baixo. José Renato movimenta a cabeça várias vezes, espalhando uma leve onda de perfume que exalava de sua barba muito asseada.
- Agora, vamos embora.
- Então até a vista – despede-se o rapaz, sorridente.
José Renato hesita um segundo, depois percebe que não tinha nada mais a dizer, mas ainda estende o maço de cigarros oferecendo a Mathieu um palito. Ele não recusa.
- Obrigado.
        - Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
         José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
             Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.
Nota: Welington Almeida Pinto (1949) é autor de vários livros, entre eles, ‘Numa Noite em 68’, ‘Nathalie’ e ‘Santos-Dumont, no Coração da Humanidade’. Mora em Belo Horizonte, Brasil.


 

Cinco da tarde, 07 de dezembro, 1968. Sábado de céu escuro, para virar. Um ar úmido pairava sobre a cidade e o vento rumorejava nas árvores, anunciando chuva. Após a reunião na Academia Mineira de Letras, os amigos José Renato e Mathieu deixam a sede da instituição e, como de costume, tomam a Rua da Bahia em direção à Lanchonete Nacional.

Chegando ao local, ainda debaixo da marquise, o professor puxa o maço de cigarros no bolso e oferece um ao amigo.

- Ótimo. Vai bem com o café.

- Melhor entrar logo, antes que comece a chover – alerta José Renato, olhando para cima.

- Claro.

- Pelo jeito vai descer muita água. Olha o céu?

- Shiiiiii!!! Fim de semana com chuva atrapalha qualquer programa – reclama o rapaz.

Risos. José Renato:

          - Pois então case. Terá companhia para curtir até as gotas de chuva, soando nas vidraças de sua casa.

- Tão romântico assim?

- Claro.
           - É cedo.

- Acha?

- Ainda não estou a fim de estabelecer relações fixas com ninguém.

- Não?

- Seduzido por esse artifício, não tenho dificuldades para tocar a vida desse jeito. Por enquanto, acho a liberdade mais excitante.

- É?

- Assim vivo os prazeres da matéria e continuo com a vida ditada por mim mesmo, sem ter que dar satisfação a ninguém.

José Renato, depois de uma gargalhada sonora:

- Que folga é essa, desdenha das famílias?

- Não, nada disso.

- Parece.

- De acordo com minha mãe, tenho vocação para solteirice sem jamais deixar de ser um eterno pretendente. Olá, mamãe!

 - Ora, rapaz, casamento faz parte do social. É a necessidade de viver a dois.

- Conversa fiada.

- Não é não. Os gnósticos da Alexandria até criaram uma esposa para Cristo, imaginando enriquecer as teorias que pregavam sobre o casamento. Para eles os espíritos evoluídos tinham que viver em casais, nunca sozinhos. Na concepção da confraria, a humanidade é como pássaro: uma asa é o homem e a outra a mulher.
           - Bem, pode até ser. Mas...

- Indiferente ao Gnosticismo, em países pós-modernos da Europa Central, tentaram mudar o rumo do matrimônio, acabar com ele. A sociedade pensava que, quando tudo fosse permitido, as pessoas seriam mais felizes. Não foi o caso. Logo as relações monogâmicas voltaram a ser o ideal perseguido pela maioria dos jovens, que sentia falta de alguém para dividir a vida, um valorizando a presença do outro.

- Sei!

- A partir daí, surgiram novos formatos de união, claro, quebrando o modelo ‘juntos para sempre’. Ou melhor, de dormir em ‘conchinhas’, agarradinhos o resto da vida. Em troca, prevaleceu a ‘teoria da satisfação’ como nova maneira de viver a dois, de pensar o relacionamento, dentro daquele princípio de que nenhuma sociedade é mais do que os laços de suas famílias. Voz do povo – conclui Jose Renato.

- Teoria da satisfação?

- Um algoritmo que maximiza as chances de uma pessoa achar sua alma gêmea e, sobretudo, diminuir o risco de se dar mal na escolha. A ideia se fundamenta num conceito chamado satisficing, mistura de satisfação com suficiência, baseada naquela máxima de Friedrich Nietzsche: nunca suponha igualdade de sentimentos, portanto, o tempo que você quiser nós vamos dormir juntos. A fórmula inclui amizade, diálogo, projetos em comum e fidelidade. Ou melhor: um dando ao outro aquilo que falta, entretanto sem aquela de paixão desenfreada, mas que não deixa de ser um amor romântico. O negócio é ficar numa boa.

Mathieu em tom divertindo:

- Atmosfera romântica em nome do conforto social, dentro e fora e casa?

- Pode ser.

- Mesmo com o receituário nas mãos o bolo costuma solar, porque amar nada mais é do que ser cumplice do sonho alheio! Ora, Zé, são normas imperativas que também reduzem o casamento à escravidão. Pelo que vejo, o sexo para eles passa a ser exercícios carnais que impõem sacrifícios espirituais. Pode até ser um belo caso de amor, mas..., não, não me convence.

- Se assim pensa.

- Você não acha que é ser civilizado demais?

- Penso que desse jeito o casal se estranha menos – observa José Renato.

- Sei não. É mais inteligente quem está junto pelo prazer, não pela necessidade de ter alguém do lado, segurando a onda.

- Talvez.

- O amor proposto pelos europeus é da fusão, coisa que tem grandes chances de desaparecer no mundo pós-moderno. Esse lance de um parceiro único satisfazer..., sei não?!..., bate de frente com os anseios atuais da juventude que busca a individualidade. Acredito que daqui a algumas décadas menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas.

- É.

- Dostoievski já dizia que o casamento é a morte para qualquer alma, portanto prossigo disponível às parceiras fortuitas para eventuais namoricos. O livre-arbítrio do coração é tudo para aproveitar todos os momentos da vida, certo?

- Quiçá!

- Que venham senhoritas, senhoras e viúvas!

O professor com aspecto artificial de seriedade, indaga:

- Uai, e as separadas?

Mathieu estala os dedos duas vezes.

- Encaro na maior. Aconteceu..., entram na roda. A mulher separada é uma boa jogada, sim. A aposta mais certa quando se está com fome, mas pode sempre reservar uma surpresa agradável. Enfim, todas estão no ‘pedaço’ para viverem novas e grandes emoções.

- Pelo jeito, tem um pedacinho de você para todas elas?

- Ora, Zé, quem não gostaria de ficar de braços dados com mulheres que, temporariamente, fossem sua?

- É.

- Uma é boa. Duas, melhor ainda. Três, ou mais, nunca são demais, viu?

- Pelo que vejo, em pouco tempo de conversa todas elas se tornam, tecnicamente, amantes.

- Quase sempre.

- Sexo para você é uma agradável brincadeira, não é mesmo?

- Sinal dos tempos. O mundo hoje joga assim.

- Estou vendo.

- Sou liberal. Mente aberta, o fato é esse.

- Raciocina que o amor se resume numa curva bem feita, num toque e no impulso de unir corpos calorosos, não é mesmo?

 - Uai! - exclama o rapaz, dando uma risada divertida.

- Sua filosofia é curtir. Aproveitar ao máximo as oportunidades e as novidades que pintam no seu trajeto; namora, como nunca, sem se prender a ninguém. Verdadeiro freelance do sexo?

- Bem...

- Pode-se dizer que, como Pascal, o hábito é a segunda natureza?

- Talvez.

- Dessa forma, a impressão que fica é a que você lida com o sexo como se fosse um objeto único em busca da satisfação da libido.

- Bem, bem...

- Não é isso?

- Faço parte do costume daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e o dia de hoje é presente. Portanto, vamos viver o dia a dia com os pés no presente. Certo?

- Ótimo.

- Procuro seguir ao pé da letra a cartilha de Clarice Lispector: ... Não sou do óbvio. Sou da subjetividade. Não sou do texto, mas do subtexto. Não sou da linha. Sou das entrelinhas. É isso.

Risos. José Renato:

- O que a gente não deve é se tornar cativo das impressões prazerosas que a devassidão envolve. Cuidado, hein?

- Claro. Um dia, quem sabe, mudo de opinião. Não penso envelhecer sozinho, porque, na vida precisamos de alguém até para pedir socorro na hora do aperto. Engraçado, ‘né?

- Então pretende casar um dia?

- Mesmo sabendo que viver sob o mesmo teto o tempo estraga qualquer relação, não digo que nunca faria isso. Vai chegar uma hora em que a gente tem que colocar o pé no freio, porque não penso ficar velho dormindo no mesmo travesseiro. Mas, como não tenho o casamento por destino a curto ou médio prazo, o peixe continua solto. Vivo bem sozinho com a metade das despesas, e o dobro de entretimento.

Risos. José Renato:

- Não tiro sua razão. A liberdade de comportamento que o mundo vem conquistando joga a favor da geração mais nova, que não quer envolvimento muito sério.

- É isso, professor. Não tenho o casamento como regra obrigatória mas, depois dos trinta, quando o cérebro entrar na idade da razão, vou começar a pensar em um relacionamento estável, certo de que a escolha pode facilitar a caminhada da existência. 

- Desde que, juntos, tenham afinidades nas passadas, claro. O caminho de cada um é feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende das pessoas que vão com a gente.

- Sem dúvida.

- Evidente que é assim.

- Pausa. Mathieu:

- Pelo que vejo, a vida muda em muitos aspectos com o passar dos anos, não desse modo?

- Muda, sim. Muda muito.

- Quem sabe encontro uma Simone, como Jean-Paul Sartre encontrou. Cada um com sua pauta, claro. Cada um na sua.

José Renato, depois uma longa tragada no cigarro, ressalta:

- Olha, hoje têm biógrafos do casal, contestando essa relação engajada desse casal. Reúnem boa documentação para mostrar que, na vida real, a coisa não foi bem assim. Na verdade, eles se equilibravam o tempo todo, entre escolhas e consequências.

- Hum?

- Revelam que Simone manipulava a imagem que gostaria que o mundo tivesse. E, ela mesma, da relação dos dois com a política, com o sexo e entre si. Por aí.

- Nunca li nada a respeito – observa o rapaz surpreso.

- Simone mentia e Sartre consentia para alimentar uma ciranda amorosa, estruturada numa suposta paz no casamento aberto, com seus romances paralelos. O pensador, como todo mundo sabe, era mestre em seduzir as amantes da esposa. 

- Nathalie Sorokine?

- Uma delas, sim. Nathalie se tornou amante de Simone aos 17 anos, fato que levou sua família a acusar a existencialista de sedução de menores.

- Sério?

 - Outra revelação importante é do jornalista Jaques-Laurent Bosti, amante de Simone por um bom tempo. Ele declarou que ela era uma mentirosa compulsiva, longe de ser uma mulher autêntica, mas uma astuciosa atriz interpretando o papel da senhora Jean-Paul Sartre. Enganava não só as amantes que alcovitavam para o marido, como também os seus próprios biógrafos. Foi uma grande articulista.

- Esperta, hein?

- Na verdade, Simone incorporou seu projeto intelectual a uma vida afetiva longa que, de fato, revolucionou costumes no mundo todo. Mas que, conforme os biógrafos, a feriu como a mais tradicional das mulheres traídas.

- Nunca imaginei tamanha farsa?!

José Renato move a cabeça em sinal de aprovação, toma o amigo pelo braço e os dois entram e param juntos ao balcão da lanchonete. A garçonete, logo pergunta com seus grandes olhos pretos e determinados:

- Boa tarde, o que vão beber?

O professor pede dois cafezinhos. Ela:

 - Alguma coisa para comer?

- Para mim não. E você, Mathieu, come o quê?

- Bem... Bem... Vai ser... Vai ser, vai ser, vai ser..., um Bauru. Isso mesmo: quero um Bauru. Sai? – quis saber o rapaz com um dos cotovelos apoiado no balcão.

- Claro. Bauru na chapa - grita a atendente com humor, olhando para entrada da cozinha do restaurante.

Mathieu contempla o rosto imperioso da garçonete. E acrescenta, rapidamente:

- Por favor, no lugar das rodelas de tomate, peça ao chapeiro para acrescentar dois ovos fritos entre o queijo e o rosbife.

- Ovos no Bauru?! – estranha a empregada, sem entender.

José Renato ri com ironia. Ela finaliza:

- Tudo bem, preparamos o sanduiche num minuto. Sai no capricho.

- Preocupe não, mocinha, coisa de mineiro. Trem para reforçar a albumina que, digerida com o café, estimula a cafeína a usar melhor a energia dos músculos. O lanche fica bem mais substancioso – brinca o professor.

A jovem de cabelos claros, enrolados em coque sob um quepe, lança um olhar curioso para o rapaz, concordando:

- O freguês é quem manda.

Enquanto anotava o pedido, de repente, Mathieu ergue para ela o olhar e, em tom discreto, de novo refaz o pedido:

- Por obséquio, querida, cancele os ovos. Melhor sem eles, ‘né?

- Não quer mais os ovos no Bauru, moço?

- Não. Pode retirar.

A garçonete abaixa os olhos e observa:

- Tudo bem. Anotado, conforme manda o freguês.

Mathieu agradece. O professor, com um movimento de cabeça, volta a gracejar:

- Ô cara, deixe de embaraçar as bolas!

- Tem razão. Tem razão. Querida, olhe aqui: traga somente o café.

- Não quer mais o lanche, moço?

- Suspenda, por favor.

- Sem problemas. Sem problemas.

- Melhor assim – confirma Mathieu.

- Café na xícara ou no copo? – pergunta apressada a servidora.

- Para mim, na xícara – adianta José Renato.

O rapaz pisca um olho para a moça, numa tentativa de puxar mais conversa. E pronuncia em tom suave:

- O meu, no copo, com açúcar e afeto. Pode ser?

- Sirvo já – responde a mocinha sem se encabular, e vai atender outros fregueses.
             O professor, ao perceber a manha do amigo, interveio novamente de forma intelectiva:

- A soma dos quadrados dos catetos dá o quadrado da hipotenusa. Esqueceu-se dessa regrinha em geometria?

- Teorema de Pitágoras?

- Perfeito.

- Cassete! Não me lembro de nada – sacode a testa o rapaz. - Em matemática nunca fui bom aluno, tinha até dificuldades de ligar dois pontos em uma linha reta.

Risos. José Renato:

- Discalculia!

- Por que está me dizendo isso?

- Colocadas dessa maneira, as palavras expressam disposição de quem diz. Mas quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado. Desenvolvendo a equação, obtém...

- Arre!

- Ora, Mathieu, fique sabendo que sem matemática, a filosofia e a religião não existiriam.

- Que tem a religião a ver com aritmética?

- Muito. O número zero foi inventado pelos indianos como interpretação matemática de suas crenças, alertando de que o nada é tudo. Cá no ocidente tínhamos medo do nada, do infinito. Por isso botamos um Deus para preenchê-lo. Brilhante ideia, não?

- É.

- De qualquer maneira, todas as ciências usam a matemática para se comunicar. A matemática e a psicologia marcam atitudes humanas no dia a dia das pessoas. A filosofia apura.

- Putz!

- Portanto, se você é daqueles que não gostam da geometria, não sabe o que perde. Ela impera há mais de 2.500 anos com Pitágoras, confirmando a propriedade dos números.  Além do mais, a prática de exercícios matemáticos melhora as conexões entre os neurônios, faz bem para o cérebro. Sem dúvida, a matemática é uma coisa muito séria, divertida também – finaliza o professor, rindo.

Mathieu em tom de surpresa:

- Vem cá, Zé. Insinua que estou fazendo jogo de conquista com essa jovem?

- Conheço sua fama e as manobras para atrair uma garota para seu bico – afirma o amigo em tom de brincadeira.

- Maldoso!

- Veste saia, usa brincos e não é padre você está pegando.

- Que isso, cara!

- Pelo que vejo, nos tempos de hoje, a paquera pode acontecer até num cafezinho entre consumidor e garçonete.

- Depende da química, claro.

José Renato sorri. Logo, recheia seu prognóstico com raciocínio emprestado a mestres da psicoterapia:

- O certo é que a neurociência diz que temos dentro do cérebro um conjunto de estruturas delicadas a sinalizar tudo isso. Tem lá meios de registrar quando as coisas boas são esperadas. Enfim, é o papel do sistema de motivação e recompensa. Use e abuse.

- A mim importa pouco qual lado da mente acende, quando tenho em vista uma bela fêmea para nutrir meus sonhos ordinários.

- Não emenda mesmo!

- Nem quero. Vivo o dia de hoje como se fosse o primeiro, como se fosse o último, como se foi o único.

- Entendo, claro.

- Meu negócio é ficar numa boa. Comigo vale tudo, a mulher pode fazer o que ela quiser comigo: apertar, torcer. Enfim, usar como desejar. Sou suficientemente flexível.

Risos. Nesse instante, a moça serve-lhes a bebida. O professor sopra sobre a xícara, mexe com a colher e toma o primeiro gole de café com a fumacinha subindo, embaçando seu óculos.

- Forte, do jeito que eu gosto. Saboroso!

- Agradecida, doutor – a garçonete, com um sorriso aberto e franco, enxuga a mão em seu avental e estende-a sobre o balcão, gesticulando serenamente.

- Não é à toa que, antes do primeiro gole, deve-se mexer bem para abrir o buquê e misturar o açúcar ao café. Faz bem para a alma – ressalta o professor antes da moça sair.
            Mathieu, indiferente às observações do amigo, enaltece a funcionária:

- Uma graça! Pela aparência, não deve ter mais do que uns vinte anos. Mexeu comigo.

- Estou vendo.

- Meio arredia, mas...

- Cônscia de seus deveres – assegura José Renato. - Ou acha que ela iria deixar o serviço para seguir cativa de sua cobiça?

O rapaz leva o copo aos lábios e bebe um pouco do café.

- Não precisava de tanto.

- O que você queria de uma jovem de avental, trabalhando atrás do balcão de uma lanchonete?

- Degustá-la! – brinca o rapaz, sorrindo.

- Se ela desse chances, claro.

- A conjunção ‘se’ não compartilha do meu dicionário.

- Não?

- Sou positivista, sempre. Meu caro, a alegria e a esperança nasceram comigo.

Risos. José Renato:

- Certo perdeste o senso, como diria Olavo Bilac.

- Não, não perdi. Gosto de mulher que se aparenta frágil, mas com o olhar forte e decidido, por isso...

- Sonho de todo sedutor que só vê a xícara, não o café.

- É?

- Você não tem jeito. Continua com o vírus da malandragem bem encubado, não é?

- Acho que é vocação mesmo. Comigo vale tudo.

- Claro.

- A fantasia, professor, é o elemento do amor que move o sangue para o lugar certo. Por cima, esvazia a mente. O negócio é saber aproveitar o momento.

- Claro.

- Ensina Fernando Pessoa fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não temos a noção de quantos ainda nos restam. Somos instantes, portanto..., portando aproveitar o agora.

- Está certo.

Pausa. Mathieu não se intimida:

- Há de convir que, pelo enigma do seu olhar, essa ‘teteia’ deve ser bem mais branda fora do balcão. De virar a cabeça de qualquer cristão.

Com gestos incisivos e tom quase sádico, o professor:

- Isso é outro capítulo, meu caro. A gente nasce sem pedir e morre sem querer. Portanto, aproveite o intervalo como achar que deve e escreva a vida de seu jeito. Lá fora, o palco é todo seu. Faça seu teste-drive como achar que deve.

O rapaz, cheio de si, não comenta. José Renato:

- O desafio, ilustre companheiro, é manter a locomotiva nos trilhos sem soltar tanta fumaça. Portanto, cuida em não fazer chorar uma mulher, pois dizem que Deus conta suas lágrimas.

- Imagino.

José Renato não ria. Limitava-se apontar seu maxilar contraído em direção ao jovem.

- Bem, isso não é assunto meu. Prenez Soin de Vous.






Rua da Bahia


DEPOIS DE VIRAR O ÚLTIMO GOLE DE CAFÉ, com um sorriso oscilando entre a ironia e a superioridade, José Renato paga a conta e os dois saem do bar.
          - Mathieu, na minha juventude eu conheci Drummond, Abgar Renault, Pedro Nava, Alberto Campos, Caieiro, Emílio Moura, Milton Campos e outros intelectuais, todos juntos, proseando em rodinhas por essas bandas da Rua da Bahia.

- Sério?

- Cada um a seu modo, revelando a exuberância cultural da Metrópole.

- Interessante!

- Com gumex nos cabelos, sapatos de verniz nos pés, sempre mastigando semente de cravo-da-índia para refrescar o hálito, eles se agrupavam nas imediações desses bares para altos papos. Também para apreciar as moçoilas descer e subir a Rua da Bahia, onde o charme flertava com a elegância a todo o momento. Era muito chique!

- Posso imaginar.

- A rua da Bahia ainda torna a atmosfera de Belo Horizonte muito especial, diuturnamente, visitada por jornalistas, intelectuais e políticos. Aqui estão as redações dos principais jornais da cidade com sua fertilidade editorial, como também os hotéis, cafés, restaurantes, clubes e um comércio super ativo.

- Eu sei.

- Pedro Nava foi um dos maiores amantes da Rua da Bahia. Para ele havia a Bahia da manhã, a do dia, a do entardecer, a da noite, a da madrugada de voltar da zona boêmia ou a da madrugada para embarcar no trem Vera Cruz até a estação de Dom Pedro II, que fervilhava de belorizontinos para curtir nosso Rio de muitos janeiros. A Cidade Maravilhosa.

Risos. Mathieu:

- Bom, hein?

- Nava fazia parte da turma dos Nefelibatas.

- Nefelibatas?

- Nefelibata foi um termo usado por Lima Barreto no livro Os Bruzundangas, para designar literatos alambicados que desprezavam os processos formais de construção de um texto poético.

- Ah, é?

- Mais ou menos nos moldes dos fanáticos Majas, grupo de jovens revoltosos com as tradições na Espanha ultraconservadora e moralista dos séculos 18 e 19.

- Legal.

- Pelos anos de 1920, durante o dia, eles frequentavam as lanchonetes para tomar café com broa de fubá e craqueneis, atualizar a conversa na geografia literária, relaxar ou, simplesmente, para um abraço solidário de passagem.

- Entendo.

- À noite era comum encontrar os intelectuais da cidade em uma mesa do Café Celeste ou do Estrela, bares existentes desde os primeiros anos desse século, quando os cafés começaram a ser vistos como o centro da vida social de Belo Horizonte. Sem falar que eram os fóruns onde a vanguarda das artes em Minas ia trocar ideias.

- Legal.

- O destino e afinidades tratavam de aproximá-los para degustar uma boa cerveja, doses de licor de anis coberto de escachas, de Otongin, de Kummel, de conhaque Louis XIII, servidas aos vintanistas com camaradagem pelos garçons Bazzoni e Epitácio.

Depois de uma tragada no cigarro, Mathieu pergunta curioso:

- Quer dizer que as conquistas amorosas sempre fizeram parte da Rua da Bahia?

- Sem dúvida. Celebrada como a principal e mais elegante artéria da cidade era o lado mais descolado de Belo Horizonte, ligando a Estação Ferroviária ao Palácio da Liberdade. Por isso mesmo o local fervia de belas moças e, de plantão, havia um bando de rapazes a arrastar-lhes asas. Todos eles com traquejo verbal, gomalina nos cabelos ou chapéu na cabeça, calçados ponta de agulha nos pés e a infalível flor no peito do paletó. Tudo de acordo com o figurino sugerido pelo Jornal das Moças, que também circulava em Belo Horizonte. 

- Pelo jeito que você fala, eram mesmo encantadoras.

- Belíssimas! Entre as ‘deidades’, assim chamadas as moçoilas fashion da cidade, destacavam o perfil das morenas de olhos claros, boca encarnada e cabelos escuros com mechas esvoaçantes, trajando segundo a moda europeia do pós-guerra. Algumas desfilavam na onda dos ‘Jonne-Cap’ no topo da cabeça. Chique, muito chique!

- Jonne-Cap?

- Era o nome dos gorros versáteis, que se curvavam a todos os caprichos de um dedo de mulher, como escreveu Drummond numa de suas crônicas. O trem era comprado no Magazin Parc Royal, a maior e melhor casa do Brasil para difundir a moda afrancesada em Belo Horizonte. Glamour acima de tudo!

- Dá para imaginar, claro.

- Os mancebos nutriam verdadeiro fascínio por essas moças.  Tudo muito contido, nada da ambição desenfreada de hoje. Naquele tempo, a abóbada celeste era azul, os anjos tocavam harpas e a troca de olhares dava a entender que o amor seria eterno. Eram todas donzelas, prendadas.

- Aposto que você conquistava o coração de todas?

Com uma gargalhada de saudosismo, José Renato conta:

- Nesse particular, ai de mim!  Sempre fui meio contido, arredio, ermitão. Introvertido. Sei lá, bastante tímido mesmo.

- Caramba!

- Na frente delas, ficava nervoso e confuso, sem saber como me colocar. Perdidão mesmo, travado! Pior que não conseguia destravar na hora do papo, principalmente, quando ficava interessado em alguém.

- Olha só!

- Ainda sou meio inibido para certas coisas. Apesar de ter um metabolismo muito legal, nunca fui atirado ao ponto de acompanhar as anotações taquigráficas da juventude vivaz da minha época. Muito menos, da moçada atual que exige pressa nas mudanças.

- Outro contexto, outro comportamento, ´né?

- Posso dizer que a literatura me ajudou muito a fazer amizades pelo mundo. E por causa dela as pessoas se aproximam de mim.

- Claro.

Pausa, José Renato:

- O certo é que a Rua da Bahia respira história. Muito cedo, aqui se concentraram lojas elegantes, alfaiatarias e charutarias nos moldes europeus, contribuindo para a Capital perder aquele ar provinciano - afiança o professor, apontando o dedo em direção ao outro lado da rua. Ali funcionava a Sorveteria Sibéria, famosa pelo picolé envolvido em chocolate, como também pelo refresco Bellini e o frappée de coco. Uma delícia!

- Legal.

- De longe, a Sibéria era a mais requisitada. Concorria com o Restaurante Colosso e o Bar do Ponto, onde costumavam frequentar as pessoas da elite mineira, cujos hábitos e gostos se afrancesavam cada vez mais. Também eram afamados os bares do Meira, do Machado e do Monsã. Um pouco mais abaixo, o Tip-Top, desfrutado por cabeças coroadas que não dispensavam jantares com vinhaça italiana e francesa.

- Conheço a casa. Muito boa – aplaude Mathieu.

- Mathieu, sabe qual foi o primeiro bar que marcou a vida noturna da Capital de Minas?

- Não.

- Segundo o professor Abílio Barreto, em seu livro Memória Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, pouco mais de quatro meses da inauguração da Nova Capital, começou a funcionar o Café Mineiro.

- Onde era?

- Na Rua Guajajaras, entre a Avenida João Pinheiro e Rua Sergipe. Inaugurado em 24 de julho de 1897, ao som de músicos tocando valsas melancólicas e polkas saltitantes. Tudo em grande estilo.
          - Formidável.

José Renato solta um suspiro de quem lastima, direciona o olhar para outra direção e confessa:

- Tempos memoráveis, Mathieu. As pessoas que caminhavam na rua trocavam cumprimentos, sem a menor cerimônia. Ainda me lembro das longas voltas no bondinho Ceará. Nele embarcavam corações apaixonados com seus caderninhos de anotações literárias pelos trilhos da Capital. Muito divertido!

- Verdade?

- Passear no bondinho era objeto de desejo da moçada de todas as classes sociais, principalmente, entre a turma mais ligada na mania de trocar versos. Ali se curtia os maiores poetas do mundo. Ah! E nos dias de grandes festas na Capital, durante o percurso era comum ver um grupo de românticos jogarem panfletos com poesias pelas ruas da cidade.

- Caramba!

- Empolgação juvenil, sabe como é?

- Não acha que, até como atração turística, seria bem-vindo o bondinho nos dias de hoje?

- Sem chance, Mathieu. Embora fosse parte da paisagem urbana a marinete da amizade, do riso descontraído e alegre e das grandes emoções, passou e não deixou bilhete de volta. Dela, restou apenas doces recordações.

- Ora, se tanta coisa vai e volta no tempo, por que não o bondinho?

- Nunca mais teremos o bonde histórico, circulando de novo nas ruas de Belo Horizonte, mesmo sabendo que a cidade perdeu muito de seu charme.

- Acha?

- Tenho certeza. Estabelecendo uma conversa entre o passado e o presente, quietinho lá no Museu Abílio Barreto, ele virou uma lembrança silenciosa de Belo horizonte de outros tempos. Entrou de vez no conjunto de fatos passados, como um veículo utilitário que atravessou o mar, venceu barreiras e, durante anos, trouxe muita alegria para a nossa gente.
           - Caracas! Jamais pensei que aquele bondinho exposto seria o próprio.

- Pois é. Sem balanço, ele leva algumas pessoas a puxar pelas boas lembranças, entrelaçadas na história urbana da Capital mineira - memória por trás de memórias. Aos mais novos, ele mostra como era o nosso transporte coletivo na primeira metade do século 20.

- Faz sentido.

- Longe do furor do centro urbano, o Abílio, guarda reminiscências de Belo Horizonte desde a antiga Vila Curral Del Rei. O casarão secular de dois pavimentos, isolado em um lugar pouco habitado da zona sul da Capital, era sede da Fazenda do Leitão. Restaurado nos anos 1940 foi convertido em museu para exercer o papel de conservar parte significativa da dinâmica sócio histórica da cidade, ligando os belorizontinos do mundo moderno com um passado não tão distante.

- Palmas ao bondinho! – anima Mathieu.

- Todos que se davam ao luxo de ter uma Kodak a tiracolo, e pediam alguém para clicar sua pose ao lado da marinete, devem guardar a foto com saudades, porque a imagem daquele momento ficará na memória como breve sessão de nostalgia. É pela imaginação e pela lembrança que o passado ganha significado maior, não é mesmo?

- Evidente.

- Belo Horizonte era bem menor, pouco mais de 200 mil habitantes. O casario existente, quase todo desenhado em estilo neoclássico e neogótico, agora vem cedendo espaço para construções imensas, mais parecidas a monumentos para serem vistas de qualquer ponto da cidade – observa o Professor.

- Pior que é assim mesmo.

- É por isso que a cidade antiga vem perdendo seu espaço nessa mecânica do tempo. Tudo como se fosse uma espécie de ‘Capitanias Hereditárias’ de uma época que não traz mais valor nenhum. Sem respeito e remorsos, a beleza das antigas construções é transformada em pó para dar lugar aos edifícios cada vez mais altos.

  - Incoerência.

- Nem o requintado Grande Hotel, predileto dos coronéis, escapou das picaretas da demolição. No seu lugar, veja lá o Malletão, do Alair Couto, na esquina da Rua da Bahia com Avenida Augusto de Lima arranhando o céu.

   - É uma pena!

- Mais um episódio que simboliza o ritmo acelerado de construções insurgentes que vão apagando a nossa memória urbana, sem unir o novo à tradição. Não demora, até o conjunto Sulacap Sulamérica, de 1946, poderá ser literalmente tombado.

- Difícil de acreditar, mas pode sim – pronuncia o rapaz com segurança.

Pausa. José Renato:

- Invariavelmente, mudou para a meninada que brincava com seus velocípedes nos passeios públicos, cobertos de pétalas do Ipê Roxo que todo ano floriam entre agosto e setembro. As ruas eram boas, de todo mundo.

- Everybody street!

- Mudou para a rapaziada que levava uma vida mais leve, que fumava o Lorde Clube e tinha à cabeceira da cama um rádio Pilot para ouvir canções românticas de madrugada.

Pausa. Mathieu:

- Outro Brasil, cara! Outra realidade!

- Arre! A sensação que tenho é que as cidades não vão parar nunca de piorar para quem vive nelas - rezinga José Renato, meio atônito.

- Qualquer cidade, nos tempos de hoje, está sujeita a transformações. Desagradáveis, talvez, mas não há como mudar o rumo desses ventos que sopram a favor do, “entre aspas”, progresso a todo custa.

- Correto. Eu que tenho que mudar a maneira de pensar uma cidade em tempos modernos, que sofre infinita metamorfose no seu dia a dia. Você está certo. Certíssimo.








Mercado Cultural


EM CONVERSA ANIMADA sobre coisas da vida e da cidade, os amigos demoram um pouco mais em frente à Lanchonete Nacional, até que o professor toma o jovem pelo braço, dizendo:

- Está na hora. Vamos embora antes que comece a chover.

- Ã-Hã.

- Ia me esquecendo. Viajo para Fortaleza semana que vem.

- Passeio ou trabalho? – indaga Mathieu interessado.

 - Participo de um seminário a convite da Abid.

- Abid?

- Associação Brasileira de Decoradores.

- Ah, sei!

- Promove o Simpósio Internacional de Decoração e Artes Plásticas nos dias 15, 16 e 17 de dezembro. Sou um dos palestrantes.

- Parabéns.

- Obrigado.

- Mesmo com as recentes manobras políticas da Ditadura, cuspindo ideologia reacionária, vai se arriscar a sair da cidade?

- É uma coisa que não me incomoda tanto.

- Não?

- Nada disso me perturba, nem penso. Não sou subversivo, mas, um confesso intelectual de direita com projetos que têm a intenção de explorar a relação do cidadão brasileiro com a cultura. Nesse sentido, falo o que eu quero e não sigo fórmula de comportamento político, mesmo dentro da Universidade. Estou bem desse jeito.

- Para você parece coisa à toa. Não é. A publicação do AI-5 torna o Brasil cada vez mais policiado, dando carta branca aos milicos a cometer truculências sociais sem precedentes. É o que a gente está vendo.

- É?

- É sério, o cerco se fecha cada vez mais em torno de todo mundo que é contra o regime militar. Muitas vezes, sobra para quem não é contra também. É de assombrar.

- A sensação que sinto, Mathieu, é a de já ter visto a mesma situação em um Brasil de outros tempos, bem antes. Isso mesmo, repete o tempo do ‘Estado Novo’ com as mesmas ideias de 30 anos atrás.

- Hein?

- Nada mais é do que a volta dos que nunca se foram, dos velhos torturadores de um regime totalitário burro e falido. Em meu modo de ver, aplica-se aos militares do golpe de 64 a frase de Talleyrand-Périgord sobre o retorno dos Burbons ao poder: não aprenderam nada e não esqueceram nada.

Risos. Mathieu:
           - Nesse momento, Zé, todo cuidado é pouco. A situação só piora.

- Fique tranquilo.

- A atmosfera política, realmente, permanece muito tensa, gerando indignação e transtornos à população. Momento é bem conturbado.

Pausa. José Renato em tom irônico:

- Mathieu, esse arrocho todo dos milicos não passa de mais uma crônica maquiavélica, endossada pelo Tio Sam. O intuito é inibir o povo de lutar contra a ditadura militar, claro. Repito: lembra-me a famigerada repressão getulista, mais ou menos a mesma coisa. Para o Exército Brasileiro o futuro é repetir o passado, em que a ignorância batalha para derrotar a inteligência.

- Claro.

- Novela reprisada que faz parte de um período que o brasileiro não quer mais saber, até porque a tortura de presos políticos começou na Ditadura Vargas.

- Não sei. Não sei. Sinto cheiro de pólvora no ar. Sair por aí é uma manobra arriscada. Pedro Aleixo, certa vez, disse que o perigo de toda ditadura é o guarda da esquina. Disso estamos careca de saber.

- Então... Então é só evitar os guardas!

- Ora, Zé, qualquer um pode ser abordado por agentes da polícia repressora a qualquer momento, 24 horas por dia, 365 dias por ano.  Ir e vir no Brasil de hoje anda cada vez mais desconfortante. A barra pesa cada dia mais. É como brincar com fogo perto de material combustível.

Risos. José Renato:

- Jogo de poder, não vê? Repito: encenação para espalhar medo entre o povo. Mas, não me tira o sono, porque eu quero é fazer meu trabalho em paz. Não vou parar por uma crise política.

- Não acha que coisa mais grave pode acontecer?

- Não. Acho que não. Olha, tudo isso por causa do desmiolado e estrábico Jânio Quadros que, ao renunciar de seu mandato de Presidente da República, provocou o colapso político que levou o Brasil a mergulhar nessa ditadura. O que mais me incomoda é ver que Marechais e Coronéis, indumentados de fardas engomadas, estrelas douradas e prateadas no peito, estão com tudo nas mãos, circulando pelas hostes do poder.

- Com certeza.

- Quer um conselho, Mathieu?

- Fala.

- Deixe as coisas como estão. Em breve esse governo tomba e o regime democrático será ressuscitado, pode crer. A poeira abaixa, e tudo volta como antes no quartel de Abrantes, restaurando um Brasil para todo mundo.

- Sei não! – hesita o rapaz.

- Todo poder está sujeito ao declínio. Vox Populi, vox Dei. Não existe nenhuma lei natural que preserve, eternamente, os mais poderosos no topo. A ditadura no país já durou seu tempo, está na fase de expiração, vivendo seus últimos estertores. O Brasil merece mais.

Mathieu balança a cabeça, concordando;

- É provável. Muito bem. Muito bem. Então me fala o que propõe o evento?

- A proposta do encontro é promover um diálogo aberto entre design arquitetônico e artista plástico, pensando a obra de arte como parte da economia criativa, que sempre envolveu altas cifras nos países adiantados.

- Bom.

- Nada melhor do que um certame desses para oferecer oportunidades de discutir temas assim, não é mesmo?

- Certamente.

- Nem mais adequado, claro. As natas da intelligentsia e do empreendedorismo cultural brasileiro estarão presentes, participando dos debates.

- Legal.

- Eu acho muito importante promover debates entre as pessoas envolvidas no mercado das artes, colhem-se bons frutos – garante José Renato.

- Sim, claro.

- O mercado, Mathieu, nunca esteve tão pujante, qualquer bobagem vende – critica o Professor.

- Efeito colateral do fenômeno?

- Vamos discutir isso também, está na pauta.

- Quem é o comprador de arte no Brasil?

- Hoje, podemos afirmar com segurança que há uma elite consumidora de obras, que se espalha pelas grandes capitais do país. Os bancos e instituições relacionadas, principalmente.

- Boa notícia. A vida com arte é mais atraente.

Pausa. José Renato:

- A partir de uma visão eurocêntrica, cito como exemplo os painéis encomendados pelos bancos brasileiros, que mostram que a arte pode ser produzida de forma mais objetiva, sem deixar de despertar fortes emoções a sensibilizar o povo em logradouros públicos.

- Sem dúvida.

- Portinari sempre fez isso. Ganhou dinheiro para aproximar a grande arte do cotidiano das cidades ao produzir murais que dizem muito de nosso imaginário e nossa história. Yara Tupinambá também acumula sucesso nesse seguimento, acreditando que a aproximação do povo com as artes é importante para o desenvolvimento humano e para mudar o visual das cidades.

- Parabéns. Num país ainda carente de estímulos a ações culturais e educacionais, eventos como esses ajudam a promover o diálogo entre o público e as manifestações artísticas, sem contraindicações.

- Evidente. Os murais estão naquela linha de arte acessível e, nesse sentido, representam a melhor maneira de comunicar com o grande público, de aproximar a arte da enorme massa de seres humanos.

- Nada melhor.

Pausa. José Renato:

- De modo geral, poucos afeitos a inovações, os nossos artistas avaliam essa relação de mercado com certa desconfiança, imaginando que o sistema de resultados é, fundamentalmente, o lucro. Para muitos, mesmo mergulhados em expressivas privações econômicas, não se faz arte em função do público e a liberdade de criação ainda é considerada ponto inegociável.

- Eu sei.

- Demonstram medo de que uma tela, determinada pela vocação e fruto de meses de empenho à perfeição e à criatividade, seja destinada a entrar no limbo das chamadas ‘artes decorativas’, tornando-se mero objeto de arranjo em mansões de leigos. Meio complicado, mas a Abid tem enfrentado os desafios com bons efeitos, cuidando de quebrar regras medievais e, ao mesmo tempo, manter as tradições culturais - assinala José Renato.

- Ótimo.
          - Desde a antiguidade, imbuídos pela sensibilidade, os romanos ricos e intelectualizados tinham o hábito de criar um ambiente de sonho em suas casas, tudo decorado com móveis confortáveis e obras de arte espalhadas pelos cantos. Um objeto combinando com o outro.

- Sim.

- Por isso mesmo, a intenção do Seminário é investir numa mudança de olhar e de tratamento do fazer intelectual, revendo o colóquio entre passado, presente e futuro da criação. O momento é bom. Parece que a economia brasileira está mesmo em cima dos trilhos. Basta ver os índices que apontam crescimento do Produto Interno Bruto, cada vez mais acelerado – avalia o professor.

- Para lá de ambicioso!

- Portanto, se o progresso no país continua a todo vapor, a arte precisa encontrar todos os meios de conviver com esse desenvolvimento, não acha?

Claro. Claro.

- Passa da hora do artista plástico brasileiro mudar o conceito de que arte é um artigo seleto que só pode ser comprado por quem acumula conhecimento prévio sobre ele.  Isso já era. Hoje em dia, o que está em jogo é mundialização da arte produzida no Brasil.

- Sei como é.

- Repito. Em época de milagre econômico, bons ventos sopram a favor de nossa geração de pincéis, unindo artistas, marchands e decoradores por todo o Brasil. A ocasião é ímpar. O movimento em alta nas Galerias comprova a sensação de euforia no mercado de arte brasileiro, nutrida por membros de uma classe média ascendente, composta por profissões valorizadas como médicos, advogados, professores que aceitam o regime sem muita restrição.

- Verdade.

- Sinaliza que o mercado financeiro no Brasil aquecido, contribui para aumentar o número de neomilionários com apetite insaciável pelo aprimoramento social. Diante disso, baseada numa projeção otimista para curto, médio e longo prazo, cresce a competição pela aquisição de obras de arte também fora do eixo Rio e São Paulo, revelando um nascente e potencial grupo de apreciadores de cultura que bate na porta das Galerias de Arte. São os novos consumidores, atraídos pelas possibilidades de investimento ou até pela busca de status intelectual.

- O que não é mal.

- Certamente. Reúne gente que amealhou um patrimônio vultoso, anda de Mercedes importada e, de repente, se dá conta de que não tem uma única tela de valor em casa.

- Isso mesmo.

- Em suma, é aquele sujeito sem bagagem cultural nem gosto estético definido, mas consciente de que sua posição social exige que tenha obras de arte ao seu redor. Então, ele passa a comprar. Só que, infelizmente, tende a fazer aquisições sem critério, na base de indicações de amigos, ou de nome de artista que está na moda.

Risos. Mathieu:

- Inquietação política numa ponta, expectativa de um mercado mais robusto para a economia cultural na outra.

- Até que enfim as artes plásticas estão encontrando seu lugar no mercado com grande potencial financeiro, mesmo que alavancadas pela voracidade de interesses nesse mundo capitalista – garante José Renato, sorrindo.




 



Longe de casa


MATHIEU RETIRA DO BOLSO DA CAMISA um palito de cigarro, que logo acende. Em seguida, pergunta curioso:

 - E aí, Zé, conhece Fortaleza?

– Não. Segundo a Mirador é uma das Capitais mais sedutoras do Nordeste com suas praias paradisíacas, além de ser um lugar com raízes históricas importantes. A cidade oferece um pouco de tudo para deixar boas lembranças em qualquer um, confere? 

Mathieu suspira:

- Atrativos imperdíveis, em cada esquina uma descoberta. A capital cearense atrai turistas pela arquitetura colonial e pela tropicalidade de seu litoral, onde se vê cenas bucólicas como a dos barcos partindo para a pesca artesanal.

- Bom saber.

- Quem conhece a costa brasileira sabe que ela reúne o que há de mais bonito nos litorais do planeta, tamanha a generosidade da natureza com nosso Brasil.

- Sem dúvida.

- Vai se divertir muito, cara. Em nenhum outro lugar do mundo o sol aparece de forma tão generosa como lá, de janeiro a dezembro. Atrai turistas de todos os quadrantes do planeta e, evidente, os paulistas com seus pulôveres amarrados nos ombros.

José Renato festeja:

- Ora, salve!

- Nada falta. Boa comida nos restaurantes e boates com lindas mulheres, preparadas para receber bem a horda de turistas que desembarca ali o ano inteiro. As garotas dão o tom da festa, pondo os excursionistas em tentação, com adrenalina lá em cima – enfatiza o rapaz, entusiasmado.

- Sério?

- Faz parte do pacote para quem quer conhecer a Capital do Nordeste de um jeito off e muito mais divertido. E se preferir mais aromas no ar, a cidade oferece eventos privés para fechar a noite com e um jantar especial, bem ao gosto do cliente.

            - Tem?

  - Divertimento à francesa, bem à vontade. É a sensação do momento!

José Renato, forjando um sorriso tímido, diz:

 - Ai, meu Deus, me sinto velho para tanto!

- Que nada, está em forma, cara.

- Passei da idade para excessos, Mathieu. No próximo mês completo 50 anos - calcula o amigo com brilho nos olhos. - Aquela explosão hormonal já diminuiu bastante!

- E daí?

- Estraga qualquer um. Na virada dos 40 para os 50 anos é natural que os homens ficam mais contidos, a energia já não é a mesma. Por isso mesmo não vejo com tanta serenidade o passar dos anos.

- Deixa de bobeira, cara!

- A partir daí é a Lei da Entropia que passa a dar as cartas, ao assegurar que a energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta.  Arre! É isso.

- Bobagens!

- Enfim, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído. Enfim, tudo foi feito para acabar um dia.

- Ô, Zé!

Pausa. O professor, puxando com os dedos a pele do rosto, admite:

- Nessa corrida da vida tudo passa tão depressa, não é mesmo? Quando a gente se dá conta, o tempo já passou e a velhice entra em cena, jogando cada vez mais pesado. O tempo é implacável, meu caro!

- É.

- Pega mesmo o corpo a decompor, como dizia Villa-Lobos. Eis aí a razão de tudo: a velhice.

- Sim, mas...

- Nossas respostas ficam mais lentas para tudo. Tanto que, às vezes, quando o trem é chamado para a ação e costuma recusar..., a fazer corpo mole. Até parece que os 50 representam a idade em que os homens, oficialmente, atingem o ápice das inibições!

- Háháhá!

- É sério. Os primeiros sintomas de velhice no homem começam a surgir quando o sangue começa a ter dificuldades para ir ao lugar certo, o sorriso fica mais raro e ácido no rosto e você se acha pouco divertido. Sem falar que deseja dormir mais, ter a própria cadeira e suas passadas são marcadas por um ritmo menos acelerado.

- Ainda está com a bola toda, cara. Com disposição de fazer inveja a qualquer um de nós.

José Renato ri por sua vez, penhorado.

- Bondade sua. Meu mundo está cada dia mais resumido ao egocentrismo. Não que eu queira, mas é a engrenagem que segrega o homem na medida em que a idade avança. Portando, não contesto Pedro Nava que vive dizendo que ficar velho é uma merda.

- Nada disso. O corpo pode envelhecer, mas isso não é motivo para a mente e a alma seguirem o mesmo trajeto.

- É.

Pausa. Mathieu:

- No livro A Velhice, Simone de Beauvoir dá a receita para uma pessoa estender as características da mocidade um pouco mais adiante. Para ela o corpo envelhece sem a sua permissão, claro. Mas a alma só envelhece se você permitir. Ressalta a figura do Ageless.
          - Sem idade?

- Exatamente.

- Na medida do possível, me cuido. Leio bastante. Uso a leitura como instrumento para estimular o cérebro a combater doenças de memória. Por outro lado, pratico Cooper para recuperar a mobilidade dos músculos adormecidos, manter a forma, porque quem não se move vai empinando mais e mais.

- Coisa boa, cara.

- Faço isso quase todo dia bem cedinho. Caminho pelo menos por uma hora, porque a maior fonte de vitamina D é a luz do astro rei para combater osteoporose, além de ajudar a preservar os neurônios. Sol da manhã, claro. Por cima, procuro alimentar bem, mas com moderação para conservar o ponteiro da balança no lugar certo. E o colesterol ruim nas nuvens.

Risos. Mathieu:

- Maravilha. Hoje, um cara com cinquenta anos não se comporta mais como um de 50 anos atrás. Ele chega nessa idade sonhando com mais vinte pela frente, cheio de munição na agulha e tinta sobrando na caneta Park 51 para registrar outros parágrafos no seu diário. Enfim, ainda está com muito chão no seu caminho e muita lenha para queimar. A ciência garante que o futuro é brilhante para os homens na sua idade, pode crer.

- Assim espero.

- Curtir uma loucurinha de vez em quando não fere o juízo de ninguém. Além de manter a chama acesa, alivia o estresse, recarrega as baterias, desanuvia a cabeça e lava a alma. Portanto, brincar de turista numa noite de calor nordestino é viver o verão de perto. Não tem preço. Vai por mim, conheço a ‘parada’ em Fortaleza: nada que fira ou salte à vista de uma escapada lúdica.

Com um gesto fraterno, o professor passa seu braço direito em volta dos ombros de Mathieu.

- Estou mesmo precisando dar uma trégua nessa correria toda. Trabalho a mil por hora, seis dias na semana e, às vezes, aos domingos e feriados também.

- Pois então, aproveita. Não é exagero dizer que o cérebro masculino se abranda perante a luz de uma ninfa graciosa – quanto mais quente melhor. Enfim, elas não estão ali somente para se vender, mas também para proporcionar algo que dê prazer ao corpo e aconchego ao espírito de quem está tão só na noite de uma cidade estranha. Certo?

Risos. Erguendo os olhos, promete José Renato com simpatia:

- Ando quieto de mulheres. Mas, vou pensar com carinho no seu caso. Na volta eu lhe conto minhas estripulias em noites extremas. Fique tranquilo.

- Bom mesmo. Caso contrário, se não encontrar espaço em sua atribulada rotina de trabalho para relaxar, vai acabar tendo que tirar uns dias de folga no Polo Norte para espantar o estresse e esfriar a cabeça. Ou...

- Ou?

- Ter que abraçar a impotência como uma forma de vida.

- A última coisa que eu quero. Na minha faixa já coleciono soldados mortos que ficaram pelo caminho. Nem pensar.

- Pois então...

O professor joga a ponta de cigarro na sarjeta, concordando:

- Sabe que está coberto de razão. A vida quer saber o que você quer dela, não é? Eu quero viver. Tenho mais é que fazer cada minuto valer a pena, uma vez que não tenho a mínima noção de quantos ainda me restam pela frente.

- Assim que se fala, amigo. A vida é curta. Se der, curta um casinho desse uma vez na vida, mal não faz. E seja feliz.

- É.

- Como Clarice, não queira ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.

- Claro. Claro.

- Tudo o que uma boate dessas pode prometer é que suas garotas vão envolver você numa insinuante fragrância. O resto é por sua conta.

- Claro.

Depois de uma longa tragada no cigarro, Mathieu:

- Muito bem, Zé, quando parte?

- Sábado que vem. Saio do Aeroporto da Pampulha. Deixe-me ver o horário – José Renato tira do bolso do paletó o bilhete de embarque e se atrapalha com a leitura - Ai, meu Deus, esses bilhetes! O problema é que... Olha o tamanhinho das letras! Deixe-me ver... Deixe-me ver... Achei

  - Que horas?

  - Embarco oito da noite.

- Vou com você.

- Para Fortaleza?

- Não. Não. Até o aeroporto.

O professor contempla o rapaz com uma espécie de admiração, toca novamente seu ombro com a mão, dizendo

- Com prazer. Antes, quero um favor seu.

- Sim.

- Probleminha doméstico, coisa que você tira de letra.

- Claro.

- Desejo que durma lá em casa, enquanto estiver fora.  Se não atrapalhar muito, é claro.

- Dormir no seu apartamento?

José Renato leva uma mão ao ouvido.

- Mas, se não puder não se incomode que não ficarei chateado. Sei que um jovem como você deve estar cheio de planos para o fim de semana.

- Nada disso, vou sim.

- Suzana morre de medo de passar a noite só com a criança. Fobia mesmo. Faz isso por mim, por nós?

- Pode ir descansado.

- Então, está combinado?

- Sim.

- Obrigado.

- Por nada.

- Ela também gosta muito de você – assegura o professor em tom confessional. - Muito bem, que tal almoçarmos na quinta-feira?

- Me liga que a gente combina - concorda o rapaz, depois de dar duas tapinhas nas costas de José Renato.

Anoitecia. Nuvens cinzentas ainda rondavam baixo. José Renato movimenta a cabeça várias vezes, espalhando uma leve onda de perfume que exalava de sua barba muito asseada.

- Agora, vamos embora.

- Então até a vista – despede-se o rapaz, sorridente.

José Renato hesita um segundo, depois percebe que não tinha nada mais a dizer, mas ainda estende o maço de cigarros oferecendo a Mathieu um palito. Ele não recusa.

- Obrigado.
        - Meu caro, desejo que se farte de travessuras por esse final de semana. Quinta-feira a gente se vê, até a vista - finaliza o professor rindo, enquanto consertava o colarinho e ajeitava a gravata no pescoço, ao sair em direção contrária do seu amigo.
         José Renato Drummond tinha 49 anos de idade, ares de intelectual, o olhar sempre baixo, e pouco mais de 1,70 de altura. Testa alongada pela calvície, uma barba de um preto arruivado e um sorriso discreto no rosto, marcado por óculos de lentes grossas. Meio introspectivo vestia terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó, mostrando a natureza circunspecta de um mestre em Literatura, com doutorado de Filosofia da Arte na Universidade de Kassel, Alemanha. E pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
             Mathieu Villas Boas era o oposto. Moço com pouco menos de 1,70 de altura tinha 26 anos de idade, cabelos acastanhados e longos. No rosto oval, os olhos de um verde cristalino, sorriso fácil e uma barba rala, propositalmente, malfeita. Trajava sempre mocassins marrons, calças jeans e camisa xadrez desabotoada na altura do tórax, mangas curtas dobradas e as fraldas para dentro. Pela manhã estudava Direito e, na parte da tarde, dividia a sala de aula com a redação de um jornal de Belo Horizonte.



 




 

 

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