Tuesday, August 05, 2014

06/VI - DOMINGO NO PARQUE DAS MANGABEIRAS


*
Welington Almeida Pinto
            
Estefânia segura meu braço.
            - Escuta – disse.
            - O quê?
            - O silêncio.
            Fiz menção de responder, mas ela apertou meu pulso com mais força.
            - É um privilégio, não é mesmo?
            - Ã-Hã.
           Em silêncio, nós dois mergulhamos por longos minutos numa espécie de oração cívica, sentados numa pedra debaixo de uma grande Cerejeira do Mato, cultivada com paixão e silêncio. A mais bela árvore nesse belo jardim do universo, onde diversas espécies tropicais dialogam.
Distraídos e felizes, passamos um bom tempo glorificados pelo o ar puro da mata, que enchia nossos pulmões de clorofila. Longe do trânsito caótico da cidade, a gente também se divertia a observar a neta de Estefânia, que brincava calada, logo adiante num canteiro de areia.
           Por algum tempo, aguardei que a mulher me cutucasse, voltando a falar. Demorou um pouco, até que numa voz sossegada, alerta:
            - Os ruídos de Belo Horizonte andam fazendo um mal danado aos meus ouvidos, como também ao espírito. Potência máxima! Tanto que nem prazer tenho mais de escutar músicas em casa, devido a louca interferência sonora que vem da rua poluída.
- Acredito.
- Curuis credo! Virou um caos, digno do inferno de Dante.
- Tem razão.
- De enlouquecer!
Depois de uma pausa inquieta, eu disse:
- Hoje em dia, todas as metrópoles do mundo todo, mesmo as mais cantadas, encantadas e decantadas sofrem essa espécie de saturação sonora, sem falar que a qualidade do ar cada anda cada vez pior nos quatro cantos do planeta.
- Sim – concorda ela com um sorriso congelado.
- Nada mais, nada menos do que o efeito de uma barulheira provocada pela quantidade absurda de automóveis, circulando sem trégua pelas cidades.
            - Sem dúvida. Estou que não aguento mais!
- Ora, querida, nada mais é do que consequência das tensões e impasses, gerados pelas transformações aceleradas dos grandes centros urbanos. A maluquice se dá pelo crescimento desordenado, impiedoso e cruel das comunidades modernas.
- Que coisa, hein?
- Pior que o fato também afeta a geografia urbana do planeta. É o fim.
- Isso tem jeito?
Fiz menção de responder. Nesse instante, a neta alegre de Estefânia, veio disparada ao nosso encontro, gritando toda contente:
            - Vó-Vó!... Vó-Vó!... Vó-Vó!...
Nota: Cerejeira do Mato - Nome Científico: Eugênia involucrata (Myrtaceae)

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