*
Welington
Almeida Pinto
Estefânia segura meu braço.
-
Escuta – disse.
- O
quê?
- O
silêncio.
Fiz
menção de responder, mas ela apertou meu pulso com mais força.
- É
um privilégio, não é mesmo?
- Ã-Hã.
Em
silêncio, nós dois mergulhamos por longos minutos numa espécie de oração
cívica, sentados numa pedra debaixo de uma grande Cerejeira do Mato, cultivada
com paixão e silêncio. A mais bela árvore nesse belo jardim do universo, onde
diversas espécies tropicais dialogam.
Distraídos e felizes, passamos um bom tempo glorificados pelo o ar puro
da mata, que enchia nossos pulmões de clorofila. Longe do trânsito caótico da
cidade, a gente também se divertia a observar a neta de Estefânia, que brincava
calada, logo adiante num canteiro de areia.
Por
algum tempo, aguardei que a mulher me cutucasse, voltando a falar. Demorou um
pouco, até que numa voz sossegada, alerta:
- Os
ruídos de Belo Horizonte andam fazendo um mal danado aos meus ouvidos, como
também ao espírito. Potência máxima! Tanto que nem prazer tenho mais de escutar
músicas em casa, devido a louca interferência sonora que vem da rua poluída.
- Acredito.
- Curuis credo! Virou um caos, digno do inferno de Dante.
- Tem razão.
- De enlouquecer!
Depois de uma pausa inquieta, eu disse:
- Hoje em dia, todas as metrópoles do mundo todo, mesmo as mais
cantadas, encantadas e decantadas sofrem essa espécie de saturação sonora, sem
falar que a qualidade do ar cada anda cada vez pior nos quatro cantos do
planeta.
- Sim – concorda ela com um sorriso congelado.
- Nada mais, nada menos do que o efeito de uma barulheira provocada pela
quantidade absurda de automóveis, circulando sem trégua pelas cidades.
- Sem
dúvida. Estou que não aguento mais!
- Ora, querida, nada mais é do que consequência das tensões e impasses,
gerados pelas transformações aceleradas dos grandes centros urbanos. A maluquice
se dá pelo crescimento desordenado, impiedoso e cruel das comunidades modernas.
- Que coisa, hein?
- Pior que o fato também afeta a geografia urbana do planeta. É o fim.
- Isso tem jeito?
Fiz menção de responder. Nesse instante, a neta alegre de Estefânia,
veio disparada ao nosso encontro, gritando toda contente:
-
Vó-Vó!... Vó-Vó!... Vó-Vó!...
Nota: Cerejeira do Mato - Nome Científico: Eugênia
involucrata (Myrtaceae)
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