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Welington Almeida
Pinto
Pedro Nava retira da
carteira mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto
um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçom parado
no balcão, que logo se aproxima de sua mesa no salão do Café Estrela.
- Epitácio, tudo bem?
- Tudo, Doutor. O pedido de sempre?
- Não, não. Por favor, me serve uma dose reforçada de Kummel.
- Animado, hein? – interfere Carlos Drummond, sentado ao lado.
- Epitácio, com duas pedrinhas de gelo, viu? – reforça o médico escritor.
- Sim, senhor.
E virando-se para o amigo.
- Cadê o Agenor?
- Ficou de passar mais tarde. Pelas nove.
- Ótimo. Enquanto ele não vem lhe conto algo fabuloso que li hoje num
pasquim nefelibático, vindo de Paris. Diverti muito. Interessa?
- Claro, sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.
- Estampa uma notícia em que revela a história de um religioso nos
moldes de Don Juan. Acredita?
- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.
- Não é não. De morrer de rir.
Pausa. Drummond:
- De quem você quer falar?
- De um abade francês que, como se fosse a manifestação terrestre do
diabo, viveu fantásticas histórias de amor na sua desenfreada juventude.
Galante mancebo, o padreco disfarçava-se de mulher para viver pervertidas
conquistas femininas em Paris onde, como contas do rosário, muitas damas
deram-lhe a licença para orar em seu secreto santuário. Acredita?
Drummond admirado:
- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de
segunda ou terceira classe.
- Não é não. De carne e osso. Há relatos preservados em “L’ Enfer de la
Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Nunca ouviu falar desse acervo?
- Nunca.
- Faz parte de uma coleção de livros imorais, guardada a sete chaves, na
Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão
Bonaparte.
- Jamais li alguma coisa a respeito – assegura o poeta.
- O religioso tinha o desejo sexual como fio condutor da sua existência,
incontrolável. Como conta a matéria, seu negócio era se vestir de uma simpática
senhora para ganhar a confiança das mulheres da corte. Bom de papo, ele era mestre
em seduzir as francesas com a promessa de compartilhar “segredinhos femininos”
na alcova para agradar seus esposos.
- Meu Deus!
- Que cara é essa, Drummond?
- Difícil de acreditar.
- Bico fino e bom de lábia, ele escolhia suas presas pelo aspecto da
pele, pelo brilho dos cabelos e, consequentemente, pela posição social.
- Sério?
- Sério.
- Ó mon Dieu! – exclama Drummond de Andrade.
- Dizem que esse leal e devasso representante de “São Príapo”, com seu
pênis sagrado, doutrinava suas discípulas para serem mais liberais e depravadas
com seus consortes na cama, garantindo a alquimia do fogo constante ao amor.
Pois delas era o talento de não permitir que a relação tornasse morna, ou
caísse na estagnação, portanto, inovar a lubricidade era preciso – afiançava o
padreco aos ouvidos das mademoiselles francesas. Depois das aulas teóricas, ao contrário do que possa parecer, o Abade convencia
as devotas esposas a passarem para as aulas práticas, quando seriam sacramentadas
com seu líquido divino, derramado sobre o leito conjugal de cada uma.
- Caracas!
- Nada mais, nada menos do que, ao vivo e a cores, o teste da percepção
dos sentidos... Doutrinava o padre, através da homilia de um erotismo
romântico, tudo que o casal precisava para viver um casamento feliz para
sempre. Muito esperto o ladino, não?
- Quando foi isso?
- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido
de Kama Sutra católico.
- Curuis credo!
Nava em tom recitado:
- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso de clérigo, escondia-se uma
dissimulação diabólica de Don Juan. Ninguém melhor do que um padre para se
aproximar, sorrateiramente, de uma delicada fêmea e dar uma mordida no seu
pezinho, como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão
sardento.
- Ah, essa é boa!
- Aqui, a gente também assinala homem assim: o rosto é uma máscara acima
de qualquer suspeita. Mas, o verdadeiro, doidinho por um rabo de saia, é o que
está oculto no próprio ser. Não é, poeta Drummond?
- Não sei, você conhece?
- O sagrado religioso, meu amigo, além desse e de outros casos, vem
conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual em todos os
tempos, em todo o mundo.
- Abomino! Abomino!
Pausa. Pedro:
- Paris, meu caro, continua linda e fascinante como sempre foi, intacta.
Com mais essa história, a Cidade Luz, apenas coloca em evidência os bastidores
da Igreja Católica e sua luta secular contra o demônio, que não poupa nem os
servos de Deus e faz rir a plateia francesa.
- Arre! Provavelmente esse tal foi expulso da Congregação por
insubordinação mental e sexual.
- Disso não se tem notícia. Mas, ele registrou algumas dessas histórias,
demonstrando que não tinha vergonha de tais atos, achando tudo a coisa mais
normal do mundo.
- A verdade liberta, a mentira escraviza - assevera Drummond.
- Talvez.
- Garanto que ele pena nas fontes
ardentes do inferno de Dante Alighieri, pode anotar.
Pedro Nava toma o resto da dose de Kummel. Chama de novo o garçom e pede
uma dose dupla de conhaque francês. Carlos, indiferente, retira do bolso o
relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná
Champagne Antarctica antes de sair.
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