Tuesday, August 05, 2014

01/I - O ABADE TRAVESTIDO


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Welington Almeida Pinto




         Pedro Nava retira da carteira mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçom parado no balcão, que logo se aproxima de sua mesa no salão do Café Estrela.

- Epitácio, tudo bem?

- Tudo, Doutor. O pedido de sempre?

- Não, não. Por favor, me serve uma dose reforçada de Kummel.

- Animado, hein? – interfere Carlos Drummond, sentado ao lado.

- Epitácio, com duas pedrinhas de gelo, viu? – reforça o médico escritor.

- Sim, senhor.

E virando-se para o amigo.

- Cadê o Agenor?

- Ficou de passar mais tarde. Pelas nove.

- Ótimo. Enquanto ele não vem lhe conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático, vindo de Paris. Diverti muito. Interessa?

- Claro, sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.

- Estampa uma notícia em que revela a história de um religioso nos moldes de Don Juan. Acredita?

- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.

- Não é não. De morrer de rir.

Pausa. Drummond:

- De quem você quer falar?

- De um abade francês que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na sua desenfreada juventude. Galante mancebo, o padreco disfarçava-se de mulher para viver pervertidas conquistas femininas em Paris onde, como contas do rosário, muitas damas deram-lhe a licença para orar em seu secreto santuário. Acredita?

Drummond admirado:

- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda ou terceira classe.

- Não é não. De carne e osso. Há relatos preservados em “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Nunca ouviu falar desse acervo?

- Nunca.

- Faz parte de uma coleção de livros imorais, guardada a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.

- Jamais li alguma coisa a respeito – assegura o poeta.

- O religioso tinha o desejo sexual como fio condutor da sua existência, incontrolável. Como conta a matéria, seu negócio era se vestir de uma simpática senhora para ganhar a confiança das mulheres da corte. Bom de papo, ele era mestre em seduzir as francesas com a promessa de compartilhar “segredinhos femininos” na alcova para agradar seus esposos.

- Meu Deus!

- Que cara é essa, Drummond?

- Difícil de acreditar.

- Bico fino e bom de lábia, ele escolhia suas presas pelo aspecto da pele, pelo brilho dos cabelos e, consequentemente, pela posição social.

- Sério?

- Sério.

- Ó mon Dieu! – exclama Drummond de Andrade.

- Dizem que esse leal e devasso representante de “São Príapo”, com seu pênis sagrado, doutrinava suas discípulas para serem mais liberais e depravadas com seus consortes na cama, garantindo a alquimia do fogo constante ao amor. Pois delas era o talento de não permitir que a relação tornasse morna, ou caísse na estagnação, portanto, inovar a lubricidade era preciso – afiançava o padreco aos ouvidos das mademoiselles francesas. Depois das aulas teóricas, ao contrário do que possa parecer, o Abade convencia as devotas esposas a passarem para as aulas práticas, quando seriam sacramentadas com seu líquido divino, derramado sobre o leito conjugal de cada uma.

- Caracas!

- Nada mais, nada menos do que, ao vivo e a cores, o teste da percepção dos sentidos... Doutrinava o padre, através da homilia de um erotismo romântico, tudo que o casal precisava para viver um casamento feliz para sempre. Muito esperto o ladino, não?

- Quando foi isso?

- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico.

- Curuis credo!

Nava em tom recitado:

- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso de clérigo, escondia-se uma dissimulação diabólica de Don Juan. Ninguém melhor do que um padre para se aproximar, sorrateiramente, de uma delicada fêmea e dar uma mordida no seu pezinho, como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.

- Ah, essa é boa!

- Aqui, a gente também assinala homem assim: o rosto é uma máscara acima de qualquer suspeita. Mas, o verdadeiro, doidinho por um rabo de saia, é o que está oculto no próprio ser. Não é, poeta Drummond?

- Não sei, você conhece?

- O sagrado religioso, meu amigo, além desse e de outros casos, vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual em todos os tempos, em todo o mundo.

- Abomino! Abomino!

Pausa. Pedro:

- Paris, meu caro, continua linda e fascinante como sempre foi, intacta. Com mais essa história, a Cidade Luz, apenas coloca em evidência os bastidores da Igreja Católica e sua luta secular contra o demônio, que não poupa nem os servos de Deus e faz rir a plateia francesa.

- Arre! Provavelmente esse tal foi expulso da Congregação por insubordinação mental e sexual.

- Disso não se tem notícia. Mas, ele registrou algumas dessas histórias, demonstrando que não tinha vergonha de tais atos, achando tudo a coisa mais normal do mundo.

- A verdade liberta, a mentira escraviza - assevera Drummond.

- Talvez.

 - Garanto que ele pena nas fontes ardentes do inferno de Dante Alighieri, pode anotar.

Pedro Nava toma o resto da dose de Kummel. Chama de novo o garçom e pede uma dose dupla de conhaque francês. Carlos, indiferente, retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antarctica antes de sair.

 

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