Tuesday, August 05, 2014

04/IV - CHUVA? GRAÇAS A DEUS!


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Welington Almeida Pinto

 

Catorze de dezembro de 2004. Belo Horizonte amanheceu ensolarada e o forte calor permaneceu até 11 horas, quando o sol sumiu e o tempo virou. De repente, o céu escureceu. Nuvens carregadas começaram a correr no espaço, trovões bufavam sem parar e relâmpagos riscavam o infinito, com muita raiva. Vez ou outra uma ventania içava folhas secas e pedaços de papel do chão, fazendo tudo rodopiar no espaço.

Pela emissora de rádio, o Instituto de Meteorologia explicava: um ciclone extratropical, em alto mar, passou a enviar ventos frios para a região Sudeste do Brasil. A previsão para a tarde de hoje é de tempo instável. Mínima de 19 graus, máxima de 22. Pode chover forte.

De fato. Pouco antes das 14 horas, o tempo piorou. Outra fria e estúpida rajada de vento varreu o centro da cidade, bagunçando mais ainda as saias, os penteados e as gravatas das pessoas que estavam na rua. Medo e correria nas calçadas. Pessoas e cães, com o rabo entre as pernas, corriam para se abrigar debaixo das marquises dos prédios. Para piorar, os semáforos foram desligados e o engarrafamento de veículos tomou conta de uma extensa fatia de ruas e avenidas. Uma bagunça!

Da varanda do meu escritório, debruçado na janela envidraçada, eu assistia o momento em que uma chuva grossa e nervosa despencava sobre a cidade. Foi assim por mais de uma hora. O bastante para encher as vias públicas de uma enxurrada barrenta, transbordante, tornando cada vez mais difícil enxergar o que era passeio. Ou o que era rua, um caos!

Depois de cair muita água, a tempestade perdeu força. Não cessou, mas estabeleceu uma toada cadenciada e perpendicular, como se anunciasse precipitação a noite toda.

Pouco antes das cinco, para a surpresa de todos, a chuvinha miúda para de uma vez. O sol logo começa a aparecer, fazendo brilhar as gotas de água que escorriam do vidro das janelas dos prédios e dos carros. Em poucos minutos, desinibido, o astro rei volta a espalhar luz por todos os lados, para enxugar a cidade molhada. O céu de verão perde a cor cinza de alumínio, e se transforma em um gigantesco azul.

Do alto do Edifício Arcângelo Malleta, antes de descer para a rua, passei bom tempo a admirar alguns vasos de orquídeas, dependurados na estreita e poluída varanda de um apartamento no prédio vizinho. Lindas flores! A folhagem, revestida de um verde novo, me enchia o olhar de clorofila e arte, sobrevivendo bem meio de uma selva cada dia mais de pedra, completa e urbanamente urbanizada. Lembrei Tagore: a natureza, mesmo agredida, produz flores.

Sinal dos tempos! Para minha surpresa, eu vivi um dia marcado por três estações: calor de verão pela manhã, chuva de outono à tarde e sol fresco de primavera, raiando no final da tarde de uma cidade tropical.

Salve!

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