Tuesday, August 05, 2014

* A ARTE DE CONTAR UM CONTO


*

 

No Brasil, a arte de escrever histórias curtas, praticamente, começou no século 19 com os escritores Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Artur de Azevedo, que encontraram na tropical cultura brasileira ricos elementos para nortear uma narrativa cheia de imaginação, usando humor e surrealismo, para descontruir expectativas e preconceitos.

Foram eles os primeiros a se destacar no panorama do conto do século 19, abrindo espaço para contistas como Monteiro Lobato, Vicente Guimarães, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Ruth Rocha, Lima Barreto, Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, José J. Veiga, Luiz Vilela, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca... Autores que, ao longo do século 20, ajudaram a fixar o gênero na sua forma literária em diferentes correntes.

Do brasileiro Machado de Assis, recebemos boa receita: ... O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias. É naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos. Diferentemente do que faz nas narrativas longas, Machado de Assis obedece, nas histórias curtas, como Missa do Galo, aos princípios essenciais do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática.

Para o escritor norte-americano, Edgar Allan Poe, o conto é uma narração curta em prosa, que requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura, no máximo. Portanto, pede forma simples, mobilidade e linguagem fluída. O gênero é oposto ao romance, tendo a novela intermediária entre os dois.

Júlio Cortázar foi mais longe. A partir de sua experiência como contista, o escritor argentino joga com uma abordagem mais atenta, dizendo que o conto é uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vida sintetizada, algo como o tremor de água dentro de um cristal, a fugacidade numa permanência.

Tchekhov, dizia que, se num conto aparecesse uma espingarda pendurada em alguma parede, ela deveria disparar imediatamente, sob pena de não fazer sentido a sua presença naquele relato. Para o escritor russo, a exigência de brevidade e concentração é seguida à risca pelo nada que não seja fundamental ao desenvolvimento da trama, ou à criação do clima que interessa.

Inspirado na linha tsheckoviana do conto moderno, baseado na criação daquela atmosfera de um fugaz momento na vida de alguma pessoa, ou de um simples flagrante do cotidiano, apresento ao leitor uma coletânea de contos e crônicas, irradiada pelo sol dos trópicos de um país iluminado pela natureza humana.

No conto o escritor se nutre de toda efervescência da ilimitada magia das ferramentas de linguagem, seja que idioma for.

 

Welington Almeida Pinto

* SUMÁRIO GERAL

*
 

O mundo é tão vazio se pensarmos apenas em montanhas, rios e cidades. Mas conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da terra um jardim habitado.


 

I - O ABADE TRAVESTIDO

         Revela o distúrbio de personalidade de um sacerdote no século 18, discutido por dois intelectuais numa conversa descontraída na mesa de um bar em Belo Horizonte dos anos 1940.

II - ACONTECEU NAQUELE BAILE

         O conto descreve momentos de descontração e alegria de um baile nos anos 1990, em um dos clubes de Belo Horizonte. Os perfis psicológicos dos personagens estão bem delineados.

III - A VIDA EM BRONZE

        Mostra um momento de emoção do narrador ao lado da estátua de um escritor numa das praças de Belo Horizonte, do qual fora amigo e colega na redação de um dos principais jornais da cidade. História curta. Deixa ao leitor a tarefa de preencher as elipses narrativas para melhor entender a história por trás da história escrita.

IV - CHUVA? GRAÇAS A DEUS!

         Literatura fantástica. Narra um episódio da geografia urbana de uma cidade tropical, marcada por três estações climáticas no mesmo dia: verão, outono e primavera.

V – PASÁRGADA

         Conto moderno, conciso, apurado, surrealista, que se destaca pelo poder do absurdo. Lida com o nonsense e o fantástico, como é próprio da tradição brasileira de contar histórias populares. Lembra o escritor Kafka, pela naturalidade com que trata o contrassenso.

VI - DOMINGO NO PARQUE DAS MANGABEIRAS

            História curta, baseada em princípios essenciais do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática. Narrativa que valoriza as repercussões psicológicas de ações. E os fatos reais são mais significativos.

VII - É NATAL OUTRA VEZ

         Descreve a transformação estética de uma Metrópole para comemorar as festas natalinas. A decoração leva o autor a uma viagem pela sua infância e outros natais passados numa cidade do interior, simples e cheio de amor entre as comemorações familiares.

VIII - MISSA DO GALO

Nesse conto, Machado de Assis explora como tema o adultério, como fonte das perturbações dos protagonistas.

IX - PASSEIO NOTURNO POR UMA CIDADE PSICODÉLICA

            A narrativa percorre as várias fontes de diversão noturna de uma Metrópole Latina, com seus caminhos de diversão humana em todos os graus imagináveis.


* SUMÁRIO GERAL

01/I - O ABADE TRAVESTIDO


*



Welington Almeida Pinto




         Pedro Nava retira da carteira mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçom parado no balcão, que logo se aproxima de sua mesa no salão do Café Estrela.

- Epitácio, tudo bem?

- Tudo, Doutor. O pedido de sempre?

- Não, não. Por favor, me serve uma dose reforçada de Kummel.

- Animado, hein? – interfere Carlos Drummond, sentado ao lado.

- Epitácio, com duas pedrinhas de gelo, viu? – reforça o médico escritor.

- Sim, senhor.

E virando-se para o amigo.

- Cadê o Agenor?

- Ficou de passar mais tarde. Pelas nove.

- Ótimo. Enquanto ele não vem lhe conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático, vindo de Paris. Diverti muito. Interessa?

- Claro, sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.

- Estampa uma notícia em que revela a história de um religioso nos moldes de Don Juan. Acredita?

- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.

- Não é não. De morrer de rir.

Pausa. Drummond:

- De quem você quer falar?

- De um abade francês que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na sua desenfreada juventude. Galante mancebo, o padreco disfarçava-se de mulher para viver pervertidas conquistas femininas em Paris onde, como contas do rosário, muitas damas deram-lhe a licença para orar em seu secreto santuário. Acredita?

Drummond admirado:

- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda ou terceira classe.

- Não é não. De carne e osso. Há relatos preservados em “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Nunca ouviu falar desse acervo?

- Nunca.

- Faz parte de uma coleção de livros imorais, guardada a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.

- Jamais li alguma coisa a respeito – assegura o poeta.

- O religioso tinha o desejo sexual como fio condutor da sua existência, incontrolável. Como conta a matéria, seu negócio era se vestir de uma simpática senhora para ganhar a confiança das mulheres da corte. Bom de papo, ele era mestre em seduzir as francesas com a promessa de compartilhar “segredinhos femininos” na alcova para agradar seus esposos.

- Meu Deus!

- Que cara é essa, Drummond?

- Difícil de acreditar.

- Bico fino e bom de lábia, ele escolhia suas presas pelo aspecto da pele, pelo brilho dos cabelos e, consequentemente, pela posição social.

- Sério?

- Sério.

- Ó mon Dieu! – exclama Drummond de Andrade.

- Dizem que esse leal e devasso representante de “São Príapo”, com seu pênis sagrado, doutrinava suas discípulas para serem mais liberais e depravadas com seus consortes na cama, garantindo a alquimia do fogo constante ao amor. Pois delas era o talento de não permitir que a relação tornasse morna, ou caísse na estagnação, portanto, inovar a lubricidade era preciso – afiançava o padreco aos ouvidos das mademoiselles francesas. Depois das aulas teóricas, ao contrário do que possa parecer, o Abade convencia as devotas esposas a passarem para as aulas práticas, quando seriam sacramentadas com seu líquido divino, derramado sobre o leito conjugal de cada uma.

- Caracas!

- Nada mais, nada menos do que, ao vivo e a cores, o teste da percepção dos sentidos... Doutrinava o padre, através da homilia de um erotismo romântico, tudo que o casal precisava para viver um casamento feliz para sempre. Muito esperto o ladino, não?

- Quando foi isso?

- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico.

- Curuis credo!

Nava em tom recitado:

- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso de clérigo, escondia-se uma dissimulação diabólica de Don Juan. Ninguém melhor do que um padre para se aproximar, sorrateiramente, de uma delicada fêmea e dar uma mordida no seu pezinho, como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.

- Ah, essa é boa!

- Aqui, a gente também assinala homem assim: o rosto é uma máscara acima de qualquer suspeita. Mas, o verdadeiro, doidinho por um rabo de saia, é o que está oculto no próprio ser. Não é, poeta Drummond?

- Não sei, você conhece?

- O sagrado religioso, meu amigo, além desse e de outros casos, vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual em todos os tempos, em todo o mundo.

- Abomino! Abomino!

Pausa. Pedro:

- Paris, meu caro, continua linda e fascinante como sempre foi, intacta. Com mais essa história, a Cidade Luz, apenas coloca em evidência os bastidores da Igreja Católica e sua luta secular contra o demônio, que não poupa nem os servos de Deus e faz rir a plateia francesa.

- Arre! Provavelmente esse tal foi expulso da Congregação por insubordinação mental e sexual.

- Disso não se tem notícia. Mas, ele registrou algumas dessas histórias, demonstrando que não tinha vergonha de tais atos, achando tudo a coisa mais normal do mundo.

- A verdade liberta, a mentira escraviza - assevera Drummond.

- Talvez.

 - Garanto que ele pena nas fontes ardentes do inferno de Dante Alighieri, pode anotar.

Pedro Nava toma o resto da dose de Kummel. Chama de novo o garçom e pede uma dose dupla de conhaque francês. Carlos, indiferente, retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antarctica antes de sair.

 

02/II - ACONTECEU NAQUELE BAILE




*

 Pierre Auguste Renoir
Dança em Bougival, réplica de 1883 - óleo sobre tela
 
Sófocles larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura do Minas Tênis Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.
Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e logo se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio ilustrado com o logotipo do clube. Ao lado um cinzeiro de metal.
Enquanto esperava pelo garçom, seus olhos claros e vivos observavam as pessoas sentadas ao longo da pista de dança. A maioria das mulheres trajavam vestidos longos e os cavalheiros vestiam terno escuro com gravata colorida, quase todos com cara de executivos ou acionistas da bolsa de valores. Com a melhor cara do mundo, elas saudavam umas às outras e riam muito, enquanto aguardavam a hora da orquestra começar a tocar.
De repente, Sófocles avista um garçom que servia logo adiante. Levando um dos braços e estala os dedos, chamando sua atenção. O salão estava cheio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo, fazendo um esforço heroico para melhor atender seus clientes. Dois minutos depois, ele se aproxima, cordialmente:
- Boa noite, doutor.
- Boa noite. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.
- Desculpe-me, senhor.
- Por favor, uma cerveja.
- Brahma ou Antártica?
- Só trabalha com as duas marcas?
- Sim.
- Então, a mais gelada, por favor. E dois copos.
- Alguma outra coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por gentileza – pede o garçom.
- Comanda!?...
- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.
- Obrigado. Trago a bebida em dois minutos.
- Bem gelada, sim? – reforça.
O moço sai e logo volta com o pedido, curvando-se para servir.
- Com ou sem colarinho?
- Com.
Dez minutos depois, as luzes do teto diminuem a intensidade e o salão mergulha em agradável penumbra. Cortinas do palco se abrem, exibindo a orquestra que tocava Look for a Star, de Billy Vaughn, enquanto um facho colorido de luz tingia as paredes, os móveis, as fisionomias das pessoas. Hora de dançar. Cavalheiros convidam suas damas e, juntos, caminham solenemente até a pista de dança, onde começam a flutuar em diversos graus de intimidade.
Encantado com a festa, mas ainda oculto atrás de uma garrafa escura de cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma dama para bailar. Decidido, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres, sentadas ao seu redor e flertar com alguma.
Do outro lado da pista, uma moça com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocam olhares. Vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos.  A moça, ao perceber os acenos do homem, eleva o copo e faz um brinde no ar, retribuindo-lhe o gesto. Sófocles faz o mesmo, seguido de um sinal de mão chamando-a para a sua mesa. Ela balança a cabeça concordando. Meio minuto depois, deixa suas amigas e se aproxima do cavalheiro, toda sorridente:
- Ei.
Sófocles fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para sentar numa cadeira ao seu lado. A moça agradece com um sorriso meigo nas faces:
- Com prazer.
- Fico feliz com sua companhia.
- Sozinho?
- Ã-Hã!
- Sempre assim.
- Não. Mas, às vezes, me entrego aos braços da solidão. É bom. Motiva o equilíbrio entre o corpo e a alma.
- Será?
- Pode crer.
- Talvez.
- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles.
- Acha?
- Uma princesa.
- Ó, não! Assim você me deixa encabulada.
- Não precisa.
- É novo por aqui?
- A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto um debutante!
- Seja bem-vindo.
- O salão é muito bonito, imponente – ressalta ele.
- Antigo, porém bem conservado. Meio ‘Art Nouveau’, percebeu o estilo?
- Claro.
- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com os bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha frequento esse salão de festas.
- Imagino.
- Gosta de dançar?
- Danço mal – responde o homem.
- Mesmo?
- Sim.
- Importância nenhuma, aqui ninguém liga – garante a mulher.
- Melhor assim. E você, o que deseja beber?
- Acompanho você na cerveja.
Sófocles imediatamente enche o outro copo.
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tim-Tim. Outro brinde à festa.
- Tim-Tim – repete Sófocles, tintinando os copos.
- Sabia que toda sexta tem um bailinho para os sócios?
- Prometo ser um frequentador assíduo.
- Vai gostar, logo-logo se enturma.
- Melhor. Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles! Homônimo do dramaturgo grego?
- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei. Adorei – revela Luciana.
- Segundo Freud, representa o drama de todos nós.
- Talvez sim, talvez não.
- E você, o que faz na vida?
- Sou professora. Cursei Letras.
- Letras!
- Leciono no Estadual Central.
- Apenas ensina literatura ou escreve também?
- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Só um livro guarda, entre duas capas, sabedoria para capacitar a mente de uma pessoa e consolidar sua cidadania.
- Sem dúvida. O leitor sempre sai de um livro mais rico do que entrou.
- Claro.
- Deve ser uma professora excelente.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, Luciana, eu adoro mulheres inteligentes. Para mim, inteligência é um componente afrodisíaco indissociável da beleza.
- Afrodisíaco?
- Isso mesmo, afrodisíaco.
- Quer dizer que a inteligência excita?
- Muito – afirma o homem sorrindo.
- Meio cômico, mas...
- Mas?
- Deixa para lá. E você, o que faz?
- Eu ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Quando a inspiração bate, cometo Ficção.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
- Ã-Hã. Sou daqueles que acreditam que a Literatura é o maior trabalho do cérebro, da vivência e do emocional. Portanto, estou sempre em atividade.
- Bacana!
Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher. Fica um tempo admirando seus lábios, cobertos de vermelho, e elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.
- Paris!
- Conhece?
- Nunca fui a Paris.
- Não?
- Um dia quem sabe?
- Vai gostar.
Pausa. Luciana:
- Você é um observador perspicaz.
- Sou?
- Percebo.
- O belo, como disse Platão, pesa na balança. Atrai.
A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul que moldava seu corpo, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra depositava uma das mãos, maliciosamente.
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!
- Ah, o seu perfume é bem atraente.
- Magriffe.
- Gosto dos perfumes franceses.
- Também adoro.
- Claro.
- Sófocles...
- Hum?
- Posso revelar um segredo?
- Sim. Juro não contar para ninguém.
Risos. Luciana:
- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.
- É a idade que acha que tenho?
- Ã-Hã.
- Quando uma pessoa me pergunta a idade sabe o que digo?
- Nem imagino.
- Olho-a de baixo a cima e digo: depende do dia.
- Ah, é?
- Sim.
- Por exemplo: hoje.
- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove anos, onze meses e vinte uns dias.
A moça ri, descontraída. Depois filosofa:
- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.
- Fabuloso. Quem disse isso?
- Coco Chanel.
- Não sabia que a estilista também era filósofa.
- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas esbanja talento na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha – atenta Luciana.
- Protesto.
- Hein?
- Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.
Risos. Grandes focos azulados de luz, a todo momento, riscavam as paredes e o teto do salão. Animado, Sófocles faz um sinal ao garçom, que chega deslizando entre as cadeiras.
- Outra cerveja, por favor.
Luciana, ao retirar o garçom, coloca a mão levemente num dos braços do companheiro.
- Tive uma ideia: vamos dançar?
- Dançar?
- É, dançar.
- Daqui a pouco.
- Agora.
- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. Preciso de mais álcool para lubrificar as juntas de meu corpo.
- Pena.
- Me dá só mais um tempinho, dá?
- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?
- Já?
- Foi um prazer.
- Assim que tocar um bolero, tiro você para dançar. Posso?
- Bolero?
- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...
- Espertinho!
- Meu coração deseja vê-la novamente – insinua Sófocles.
- Combinado.
Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana fica de pé, despedindo-se:
- Tiauzinho!
- Espere.
- O que foi?
Sófocles toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para sua boca. Luciana experimenta um friozinho agradável no fundo da barriga. E, sem dizer uma só palavra, deixa a mesa, remexendo os quadris e rindo do gesto audacioso daquele homem.
 A festa continuava acalorada. Antes do baile acabar Sófocles decide ir embora, permitindo morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Chama o garçom e paga a conta.
Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade, resgatada pelas músicas dos anos sessenta que a orquestra ainda tocava:  Óóóóhhh... Óóóhhh... Diana, por favor...
- Valeu! – suspira o homem de si para si, enquanto pegava no bolso das calças as chaves do carro.
 
 
* Ensaio extraído do livro de Welington Almeida Pinto, Palavras de uma Cidade Latina, Edition Kindle. Pocket Book para iPhone, Tablet e Notebook
** Realismo Mágico da Literatura Brasileira. Conto ambientado em um baile de Belo Horizonte