Tuesday, August 05, 2014

02/II - ACONTECEU NAQUELE BAILE




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 Pierre Auguste Renoir
Dança em Bougival, réplica de 1883 - óleo sobre tela
 
Sófocles larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura do Minas Tênis Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.
Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e logo se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio ilustrado com o logotipo do clube. Ao lado um cinzeiro de metal.
Enquanto esperava pelo garçom, seus olhos claros e vivos observavam as pessoas sentadas ao longo da pista de dança. A maioria das mulheres trajavam vestidos longos e os cavalheiros vestiam terno escuro com gravata colorida, quase todos com cara de executivos ou acionistas da bolsa de valores. Com a melhor cara do mundo, elas saudavam umas às outras e riam muito, enquanto aguardavam a hora da orquestra começar a tocar.
De repente, Sófocles avista um garçom que servia logo adiante. Levando um dos braços e estala os dedos, chamando sua atenção. O salão estava cheio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo, fazendo um esforço heroico para melhor atender seus clientes. Dois minutos depois, ele se aproxima, cordialmente:
- Boa noite, doutor.
- Boa noite. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.
- Desculpe-me, senhor.
- Por favor, uma cerveja.
- Brahma ou Antártica?
- Só trabalha com as duas marcas?
- Sim.
- Então, a mais gelada, por favor. E dois copos.
- Alguma outra coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por gentileza – pede o garçom.
- Comanda!?...
- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.
- Obrigado. Trago a bebida em dois minutos.
- Bem gelada, sim? – reforça.
O moço sai e logo volta com o pedido, curvando-se para servir.
- Com ou sem colarinho?
- Com.
Dez minutos depois, as luzes do teto diminuem a intensidade e o salão mergulha em agradável penumbra. Cortinas do palco se abrem, exibindo a orquestra que tocava Look for a Star, de Billy Vaughn, enquanto um facho colorido de luz tingia as paredes, os móveis, as fisionomias das pessoas. Hora de dançar. Cavalheiros convidam suas damas e, juntos, caminham solenemente até a pista de dança, onde começam a flutuar em diversos graus de intimidade.
Encantado com a festa, mas ainda oculto atrás de uma garrafa escura de cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma dama para bailar. Decidido, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres, sentadas ao seu redor e flertar com alguma.
Do outro lado da pista, uma moça com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocam olhares. Vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos.  A moça, ao perceber os acenos do homem, eleva o copo e faz um brinde no ar, retribuindo-lhe o gesto. Sófocles faz o mesmo, seguido de um sinal de mão chamando-a para a sua mesa. Ela balança a cabeça concordando. Meio minuto depois, deixa suas amigas e se aproxima do cavalheiro, toda sorridente:
- Ei.
Sófocles fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para sentar numa cadeira ao seu lado. A moça agradece com um sorriso meigo nas faces:
- Com prazer.
- Fico feliz com sua companhia.
- Sozinho?
- Ã-Hã!
- Sempre assim.
- Não. Mas, às vezes, me entrego aos braços da solidão. É bom. Motiva o equilíbrio entre o corpo e a alma.
- Será?
- Pode crer.
- Talvez.
- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles.
- Acha?
- Uma princesa.
- Ó, não! Assim você me deixa encabulada.
- Não precisa.
- É novo por aqui?
- A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto um debutante!
- Seja bem-vindo.
- O salão é muito bonito, imponente – ressalta ele.
- Antigo, porém bem conservado. Meio ‘Art Nouveau’, percebeu o estilo?
- Claro.
- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com os bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha frequento esse salão de festas.
- Imagino.
- Gosta de dançar?
- Danço mal – responde o homem.
- Mesmo?
- Sim.
- Importância nenhuma, aqui ninguém liga – garante a mulher.
- Melhor assim. E você, o que deseja beber?
- Acompanho você na cerveja.
Sófocles imediatamente enche o outro copo.
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tim-Tim. Outro brinde à festa.
- Tim-Tim – repete Sófocles, tintinando os copos.
- Sabia que toda sexta tem um bailinho para os sócios?
- Prometo ser um frequentador assíduo.
- Vai gostar, logo-logo se enturma.
- Melhor. Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles! Homônimo do dramaturgo grego?
- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei. Adorei – revela Luciana.
- Segundo Freud, representa o drama de todos nós.
- Talvez sim, talvez não.
- E você, o que faz na vida?
- Sou professora. Cursei Letras.
- Letras!
- Leciono no Estadual Central.
- Apenas ensina literatura ou escreve também?
- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Só um livro guarda, entre duas capas, sabedoria para capacitar a mente de uma pessoa e consolidar sua cidadania.
- Sem dúvida. O leitor sempre sai de um livro mais rico do que entrou.
- Claro.
- Deve ser uma professora excelente.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, Luciana, eu adoro mulheres inteligentes. Para mim, inteligência é um componente afrodisíaco indissociável da beleza.
- Afrodisíaco?
- Isso mesmo, afrodisíaco.
- Quer dizer que a inteligência excita?
- Muito – afirma o homem sorrindo.
- Meio cômico, mas...
- Mas?
- Deixa para lá. E você, o que faz?
- Eu ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Quando a inspiração bate, cometo Ficção.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
- Ã-Hã. Sou daqueles que acreditam que a Literatura é o maior trabalho do cérebro, da vivência e do emocional. Portanto, estou sempre em atividade.
- Bacana!
Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher. Fica um tempo admirando seus lábios, cobertos de vermelho, e elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.
- Paris!
- Conhece?
- Nunca fui a Paris.
- Não?
- Um dia quem sabe?
- Vai gostar.
Pausa. Luciana:
- Você é um observador perspicaz.
- Sou?
- Percebo.
- O belo, como disse Platão, pesa na balança. Atrai.
A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul que moldava seu corpo, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra depositava uma das mãos, maliciosamente.
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!
- Ah, o seu perfume é bem atraente.
- Magriffe.
- Gosto dos perfumes franceses.
- Também adoro.
- Claro.
- Sófocles...
- Hum?
- Posso revelar um segredo?
- Sim. Juro não contar para ninguém.
Risos. Luciana:
- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.
- É a idade que acha que tenho?
- Ã-Hã.
- Quando uma pessoa me pergunta a idade sabe o que digo?
- Nem imagino.
- Olho-a de baixo a cima e digo: depende do dia.
- Ah, é?
- Sim.
- Por exemplo: hoje.
- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove anos, onze meses e vinte uns dias.
A moça ri, descontraída. Depois filosofa:
- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.
- Fabuloso. Quem disse isso?
- Coco Chanel.
- Não sabia que a estilista também era filósofa.
- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas esbanja talento na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha – atenta Luciana.
- Protesto.
- Hein?
- Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.
Risos. Grandes focos azulados de luz, a todo momento, riscavam as paredes e o teto do salão. Animado, Sófocles faz um sinal ao garçom, que chega deslizando entre as cadeiras.
- Outra cerveja, por favor.
Luciana, ao retirar o garçom, coloca a mão levemente num dos braços do companheiro.
- Tive uma ideia: vamos dançar?
- Dançar?
- É, dançar.
- Daqui a pouco.
- Agora.
- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. Preciso de mais álcool para lubrificar as juntas de meu corpo.
- Pena.
- Me dá só mais um tempinho, dá?
- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?
- Já?
- Foi um prazer.
- Assim que tocar um bolero, tiro você para dançar. Posso?
- Bolero?
- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...
- Espertinho!
- Meu coração deseja vê-la novamente – insinua Sófocles.
- Combinado.
Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana fica de pé, despedindo-se:
- Tiauzinho!
- Espere.
- O que foi?
Sófocles toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para sua boca. Luciana experimenta um friozinho agradável no fundo da barriga. E, sem dizer uma só palavra, deixa a mesa, remexendo os quadris e rindo do gesto audacioso daquele homem.
 A festa continuava acalorada. Antes do baile acabar Sófocles decide ir embora, permitindo morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Chama o garçom e paga a conta.
Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade, resgatada pelas músicas dos anos sessenta que a orquestra ainda tocava:  Óóóóhhh... Óóóhhh... Diana, por favor...
- Valeu! – suspira o homem de si para si, enquanto pegava no bolso das calças as chaves do carro.
 
 
* Ensaio extraído do livro de Welington Almeida Pinto, Palavras de uma Cidade Latina, Edition Kindle. Pocket Book para iPhone, Tablet e Notebook
** Realismo Mágico da Literatura Brasileira. Conto ambientado em um baile de Belo Horizonte
 
 
 


 


 

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