*
Sófocles larga o jornal e levanta os
olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as
mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura
do Minas Tênis Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão
de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase
todas ocupadas.
Apressadamente, escolhe uma entre as
poucas vazias e logo se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro
amarronzado, onde descansava o cardápio ilustrado com o logotipo do clube. Ao
lado um cinzeiro de metal.
Enquanto esperava pelo garçom, seus
olhos claros e vivos observavam as pessoas sentadas ao longo da pista de dança.
A maioria das mulheres trajavam vestidos longos e os cavalheiros vestiam terno
escuro com gravata colorida, quase todos com cara de executivos ou acionistas
da bolsa de valores. Com a melhor cara do mundo, elas saudavam umas às outras e
riam muito, enquanto aguardavam a hora da orquestra começar a tocar.
De repente, Sófocles avista um garçom
que servia logo adiante. Levando um dos braços e estala os dedos, chamando sua
atenção. O salão estava cheio. Os garçons se moviam como contorcionistas de
circo, fazendo um esforço heroico para melhor atender seus clientes. Dois
minutos depois, ele se aproxima, cordialmente:
- Boa noite, doutor.
- Boa noite. Não sou doutor, meu nome é
Sófocles.
- Desculpe-me, senhor.
- Por favor, uma cerveja.
- Brahma ou Antártica?
- Só trabalha com as duas marcas?
- Sim.
- Então, a mais gelada, por favor. E
dois copos.
- Alguma outra coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por gentileza – pede o
garçom.
- Comanda!?...
- Não lhe deram uma folha de papel na
entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me,
está no bolso do paletó.
- Obrigado. Trago a bebida em dois
minutos.
- Bem gelada, sim? – reforça.
O moço sai e logo volta com o pedido,
curvando-se para servir.
- Com ou sem colarinho?
- Com.
Dez minutos depois, as luzes do teto
diminuem a intensidade e o salão mergulha em agradável penumbra. Cortinas do
palco se abrem, exibindo a orquestra que tocava Look for a Star, de Billy Vaughn, enquanto um facho colorido de
luz tingia as paredes, os móveis, as fisionomias das pessoas. Hora de dançar. Cavalheiros convidam suas damas e, juntos,
caminham solenemente até a pista de dança, onde começam a flutuar em diversos
graus de intimidade.
Encantado com a festa, mas ainda oculto
atrás de uma garrafa escura de cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar
alguma dama para bailar. Decidido, estende a cabeça para os lados, como quem
quer aparecer para as mulheres, sentadas ao seu redor e flertar com alguma.
Do outro lado da pista, uma moça com os
cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua
atenção. Trocam olhares. Vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a
esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos
dedos. A moça, ao perceber os acenos do homem, eleva o copo e faz um
brinde no ar, retribuindo-lhe o gesto. Sófocles faz o mesmo, seguido de um
sinal de mão chamando-a para a sua mesa. Ela balança a cabeça concordando. Meio
minuto depois, deixa suas amigas e se aproxima do cavalheiro, toda sorridente:
- Ei.
Sófocles fica de pé, estende-lhe a mão e
a convida para sentar numa cadeira ao seu lado. A moça agradece com um sorriso
meigo nas faces:
- Com prazer.
- Fico feliz com sua companhia.
- Sozinho?
- Ã-Hã!
- Sempre assim.
- Não. Mas, às vezes, me entrego aos
braços da solidão. É bom. Motiva o equilíbrio entre o corpo e a alma.
- Será?
- Pode crer.
- Talvez.
- É mesmo uma linda mulher! – observa
Sófocles.
- Acha?
- Uma princesa.
- Ó, não! Assim você me deixa
encabulada.
- Não precisa.
- É novo por aqui?
- A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto um debutante!
- Seja bem-vindo.
- O salão é muito bonito, imponente –
ressalta ele.
- Antigo, porém bem conservado. Meio
‘Art Nouveau’, percebeu o estilo?
- Claro.
- Aqui a gente se debruça sobre o
passado e sonha com os bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha
frequento esse salão de festas.
- Imagino.
- Gosta de dançar?
- Danço mal – responde o homem.
- Mesmo?
- Sim.
- Importância nenhuma, aqui ninguém liga
– garante a mulher.
- Melhor assim. E você, o que deseja
beber?
- Acompanho você na cerveja.
Sófocles imediatamente enche o outro
copo.
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tim-Tim. Outro brinde à festa.
- Tim-Tim – repete Sófocles, tintinando
os copos.
- Sabia que toda sexta tem um bailinho
para os sócios?
- Prometo ser um frequentador assíduo.
- Vai gostar, logo-logo se enturma.
- Melhor. Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles! Homônimo do dramaturgo
grego?
- Meu pai era grande admirador da
cultura grega. Mas, não sou nada trágico.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei.
Adorei – revela Luciana.
- Segundo Freud, representa o drama de
todos nós.
- Talvez sim, talvez não.
- E você, o que faz na vida?
- Sou professora. Cursei Letras.
- Letras!
- Leciono no Estadual Central.
- Apenas ensina literatura ou escreve
também?
- Não, não escrevo. Esse é um dom de
poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Só um livro guarda, entre duas capas,
sabedoria para capacitar a mente de uma pessoa e consolidar sua cidadania.
- Sem dúvida. O leitor sempre sai de um
livro mais rico do que entrou.
- Claro.
- Deve ser uma professora excelente.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, Luciana, eu adoro
mulheres inteligentes. Para mim, inteligência é um componente afrodisíaco
indissociável da beleza.
- Afrodisíaco?
- Isso mesmo, afrodisíaco.
- Quer dizer que a inteligência excita?
- Muito – afirma o homem sorrindo.
- Meio cômico, mas...
- Mas?
- Deixa para lá. E você, o que faz?
- Eu ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Quando a inspiração
bate, cometo Ficção.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
- Ã-Hã. Sou daqueles que acreditam que a
Literatura é o maior trabalho do cérebro, da vivência e do emocional. Portanto,
estou sempre em atividade.
- Bacana!
Depois de algum tempo trocando risos e
palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher. Fica um tempo
admirando seus lábios, cobertos de vermelho, e elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- Os olhos também. Azuis como o céu de
Paris.
- Paris!
- Conhece?
- Nunca fui a Paris.
- Não?
- Um dia quem sabe?
- Vai gostar.
Pausa. Luciana:
- Você é um observador perspicaz.
- Sou?
- Percebo.
- O belo, como disse Platão, pesa na balança. Atrai.
A mulher ri, cheia de satisfação. Do
longo vestido de organdi azul que moldava seu corpo, surgiam dois braços
arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra
depositava uma das mãos, maliciosamente.
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!
- Ah, o seu perfume é bem atraente.
- Magriffe.
- Gosto dos perfumes franceses.
- Também adoro.
- Claro.
- Sófocles...
- Hum?
- Posso revelar um segredo?
- Sim. Juro não contar para ninguém.
Risos. Luciana:
- Tenho medo de homens com mais de
quarenta anos.
- É a idade que acha que tenho?
- Ã-Hã.
-
Quando
uma pessoa me pergunta a idade sabe o que digo?
- Nem
imagino.
-
Olho-a de baixo a cima e digo: depende do dia.
- Ah, é?
- Sim.
- Por exemplo: hoje.
- Posso garantir que, por sorte, pelo
menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove anos, onze meses
e vinte uns dias.
A moça ri, descontraída. Depois
filosofa:
- Aos 20, seu rosto é
dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe
a você merecê-lo.
-
Fabuloso. Quem disse isso?
-
Coco Chanel.
- Não sabia que a estilista também era filósofa.
- Pois sim. Não tem mais de quarenta
anos, mas esbanja talento na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher
sozinha – atenta Luciana.
- Protesto.
- Hein?
- Sou inofensivo, puro. E por cima,
tímido.
Risos. Grandes focos azulados de luz, a todo
momento, riscavam as paredes e o teto do salão. Animado, Sófocles faz um sinal
ao garçom, que chega deslizando entre as cadeiras.
- Outra cerveja, por favor.
Luciana, ao retirar o
garçom, coloca a mão levemente num dos braços do companheiro.
- Tive uma ideia: vamos dançar?
- Dançar?
- É, dançar.
- Daqui a pouco.
- Agora.
- Desculpe-me, querida. Enferrujado com
estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. Preciso de mais álcool para
lubrificar as juntas de meu corpo.
- Pena.
- Me dá só mais um tempinho, dá?
- Então... Então... Olha aqui, enquanto
você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?
- Já?
- Foi um prazer.
- Assim que tocar um bolero, tiro você
para dançar. Posso?
- Bolero?
- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...
- Espertinho!
- Meu coração deseja vê-la novamente –
insinua Sófocles.
- Combinado.
Com a mesma expressão afetuosa e
divertida, Luciana fica de pé, despedindo-se:
- Tiauzinho!
- Espere.
- O que foi?
Sófocles toma um gole de cerveja e
surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para sua
boca. Luciana experimenta um friozinho agradável no fundo da barriga. E, sem
dizer uma só palavra, deixa a mesa, remexendo os quadris e rindo do gesto
audacioso daquele homem.
A festa continuava acalorada.
Antes do baile acabar Sófocles decide ir embora, permitindo morrer sob os dedos
a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Chama o garçom e paga
a conta.
Atravessa a porta principal do salão de
festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade, resgatada
pelas músicas dos anos sessenta que a orquestra ainda tocava: Óóóóhhh... Óóóhhh... Diana, por favor...
- Valeu! – suspira o homem de si para
si, enquanto pegava no bolso das calças as chaves do carro.
* Ensaio extraído do livro de Welington Almeida Pinto, Palavras
de uma Cidade Latina, Edition Kindle. Pocket Book para iPhone, Tablet e Notebook
** Realismo Mágico da Literatura Brasileira. Conto ambientado em um baile de Belo Horizonte

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