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Welington Almeida
Pinto
As casas na cidade, cada dia mais,
são verdadeiros anúncios luminosos anunciando o Natal. As praças e os jardins
também. Milhares e milhares de lâmpadas coloridas enfeitam com tanta
intensidade, que transformam Belo Horizonte em Cidade-Luz nessa época.
Os Shoppings, principalmente. Neles a festa, alimentada pela força
do marketing, abusam de anjos e arcanjos para reforçar Papai-Noel como
personagem principal da folia de fim de ano. O bom velhinho de carne e osso, mesmo
em tempos modernos regidos pela alta tecnologia, faz o maior sucesso entre a
garotada que não abre mão de tirar uma foto sentada no seu colo.
Logo bate uma saudade danada dos
natais guardados no bauzinho da infância, lá em Passos. Tudo muito alegre e
encantado, como se o Menino Jesus estivesse distribuindo estrelas por todas as
esquinas da minha cidade.
Nada de presentes caros. A gente se
divertia mesmo era com aquele monte de miudezas que nos enchia de alegria e
beleza a semana toda. A festa começava na véspera do dia 25. A família reunia
para a preparação de uma farta ceia com leitões, patos ou franguinhos assados -
peru ainda era uma ave rara. Também não podia faltar galinha gorda ao molho
pardo, nem pão de queijo, broa de milho, rabanada e rosca da rainha. Muito
menos, os doces em compotas guardados lá no ‘guarda-comida’, como de sidra, de
goiaba cortada em taladas grossas.
Na noite do dia 24, geralmente
chovia. Isso tinha pouca importância, o tempo feio não atrapalhava em nada
a beleza do festejo. Com a cabeça a mil, a meninada dormia mais cedo,
cheia de expectativa. Antes de ir para cama, era costume cada um colocar os
sapatinhos ao pé da Árvore de Natal ou nas janelas para o Papai–Noel deixar,
junto dele, o seu esperado presente.
Os adultos, todos animados, desde as
11 horas da noite, bebiam muito vinho ou cerveja e cantavam canções natalinas.
Quando o relógio de Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Passos badalava as
doze batidas da meia-noite, todos se juntavam para trocar abraços e beijinhos
nas faces, desejando um para o outro, muita paz e muita felicidade. Em seguida,
a troca de presentes e, só depois, a esperada ceia da ‘noite feliz’, devorada
sem culpa. Todos sabiam que, o que engorda,
não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que se come entre o Ano
Novo e o Natal sem limites.
Ao raiar do dia 25, o Natal amanhecia
com a molecada na porta de casa, divertindo com presentes bem bacanas. Hora de
cada um exibir o seu brinquedo. Meninas passeavam com as bonecas, ou mostravam
as suas destrezas com o hula hoop, bamboleando na maior intimidade com
os aros em torno da cintura. Os meninos brincavam de puxar o ‘caminhãozinho’ da
vez, ou montados num cavalinho-de-pau, a galopar nas calçadas. Cenas abençoadas,
que ficam grudadas na memória para nunca mais sair e que fazem muito bem ao
coração, recarregando suas válvulas.
Nessa paisagem, não podia faltar nas
mãos da criançada uma garrafa do guaraná Champagne,
o famoso ‘caçulinha’, furado com prego na tampa. E melhor ainda: podíamos comer
de tudo até doer o queixo, a qualquer momento, em casa ou na casa de qualquer
parente e vizinho. Achava ‘bão’ mesmo!
Desde que me entendo por gente ouço
críticas ao consumismo natalino ‘não existe mais nenhum espírito cristão, é
puro comércio’ – já diziam alguns por volta de 1960. Mas, sem sombra de dúvida,
é uma festança alegre, mesmo para aqueles que não acreditam nos símbolos
religiosos. Natal é presença, não ausência. É a alegria possível, porque a
vida é muito curta e o amor é nosso maior
dom, como nos ensinou Chico Xavier.
Hoje, a noite é
bela/Juntos, eu e ela/vamos à capela. A estrela que indica o caminho
não está tão distante assim, está a brilhar dentro de cada um de nós.
- Feliz Natal!!!... Ho ho ho!
* O bambolê, criado no Egito há três
mil anos, feito com fios secos de parreira, favorecia as crianças imitar os
artistas que dançavam com aros em torno do corpo.
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