Tuesday, August 05, 2014

07/VII - É NATAL OUTRA VEZ


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Welington Almeida Pinto

 

As casas na cidade, cada dia mais, são verdadeiros anúncios luminosos anunciando o Natal. As praças e os jardins também. Milhares e milhares de lâmpadas coloridas enfeitam com tanta intensidade, que transformam Belo Horizonte em Cidade-Luz nessa época.

Os Shoppings, principalmente. Neles a festa, alimentada pela força do marketing, abusam de anjos e arcanjos para reforçar Papai-Noel como personagem principal da folia de fim de ano. O bom velhinho de carne e osso, mesmo em tempos modernos regidos pela alta tecnologia, faz o maior sucesso entre a garotada que não abre mão de tirar uma foto sentada no seu colo.

Logo bate uma saudade danada dos natais guardados no bauzinho da infância, lá em Passos. Tudo muito alegre e encantado, como se o Menino Jesus estivesse distribuindo estrelas por todas as esquinas da minha cidade.

Nada de presentes caros. A gente se divertia mesmo era com aquele monte de miudezas que nos enchia de alegria e beleza a semana toda. A festa começava na véspera do dia 25. A família reunia para a preparação de uma farta ceia com leitões, patos ou franguinhos assados - peru ainda era uma ave rara. Também não podia faltar galinha gorda ao molho pardo, nem pão de queijo, broa de milho, rabanada e rosca da rainha. Muito menos, os doces em compotas guardados lá no ‘guarda-comida’, como de sidra, de goiaba cortada em taladas grossas.

Na noite do dia 24, geralmente chovia. Isso tinha pouca importância, o tempo feio não atrapalhava em nada a beleza do festejo. Com a cabeça a mil, a meninada dormia mais cedo, cheia de expectativa. Antes de ir para cama, era costume cada um colocar os sapatinhos ao pé da Árvore de Natal ou nas janelas para o Papai–Noel deixar, junto dele, o seu esperado presente.  

Os adultos, todos animados, desde as 11 horas da noite, bebiam muito vinho ou cerveja e cantavam canções natalinas. Quando o relógio de Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Passos badalava as doze batidas da meia-noite, todos se juntavam para trocar abraços e beijinhos nas faces, desejando um para o outro, muita paz e muita felicidade. Em seguida, a troca de presentes e, só depois, a esperada ceia da ‘noite feliz’, devorada sem culpa. Todos sabiam que, o que engorda, não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que se come entre o Ano Novo e o Natal sem limites.

Ao raiar do dia 25, o Natal amanhecia com a molecada na porta de casa, divertindo com presentes bem bacanas. Hora de cada um exibir o seu brinquedo. Meninas passeavam com as bonecas, ou mostravam as suas destrezas com o hula hoop, bamboleando na maior intimidade com os aros em torno da cintura. Os meninos brincavam de puxar o ‘caminhãozinho’ da vez, ou montados num cavalinho-de-pau, a galopar nas calçadas. Cenas abençoadas, que ficam grudadas na memória para nunca mais sair e que fazem muito bem ao coração, recarregando suas válvulas.

Nessa paisagem, não podia faltar nas mãos da criançada uma garrafa do guaraná Champagne, o famoso ‘caçulinha’, furado com prego na tampa. E melhor ainda: podíamos comer de tudo até doer o queixo, a qualquer momento, em casa ou na casa de qualquer parente e vizinho. Achava ‘bão’ mesmo!

Desde que me entendo por gente ouço críticas ao consumismo natalino ‘não existe mais nenhum espírito cristão, é puro comércio’ – já diziam alguns por volta de 1960. Mas, sem sombra de dúvida, é uma festança alegre, mesmo para aqueles que não acreditam nos símbolos religiosos. Natal é presença, não ausência. É a alegria possível, porque a vida é muito curta e o amor é nosso maior dom, como nos ensinou Chico Xavier.

Hoje, a noite é bela/Juntos, eu e ela/vamos à capela. A estrela que indica o caminho não está tão distante assim, está a brilhar dentro de cada um de nós.

- Feliz Natal!!!... Ho ho ho!

* bambolê, criado no Egito há três mil anos, feito com fios secos de parreira, favorecia as crianças imitar os artistas que dançavam com aros em torno do corpo.

 

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